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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O Ultimatismo Burocrático


Leon Trotsky 

Novembro de 1931                                             

Escrito: Novembro de 1961
Transcrição: Alexandre Linares
Fonte da transcrição: "A onde vai a Alemanha", publicado em português em 1933, Edições UNITAS. Posteriormente publicado por outras editoras sob o título "Revolução e Contra Revolução na Alemanhã".
Tradução: Mário Pedrosa (1933)
HTML: Fernando Araújo, fevereiro 2009

Arquivo Marxista na Internet

Quando os jornais do novo Partido Socialista Operário (SAP) escrevem contra “os egoísmos de partido” da social-democracia e do Partido Comunista; quando Seydewitz jura que para ele “o interesse de classe está acima do interesse de partido”, - caem no sentimentalismo político ou, ainda pior, procuram, com frases sentimentais, encobrir os interesses de seu próprio partido.

Este é um meio que não vale nada.

Quando a reação exige que os interesses da “nação” sejam colocados acima dos interesses de classe, nós, os marxistas, dizemos que, sob a forma do interesse “geral”, a reação defende os interesses de classe dos exploradores.

Não se podem formular os interesses da nação de outro modo que sob o ângulo da classe dominante ou da classe que pretende dominar.

Não se podem formular os interesses de classe de outro modo que sob a forma de programa; não se pode defender o programa de outro modo que com a criação de um partido.

A classe tomada em si não é senão matéria de exploração. O papel próprio do proletariado começa no momento em que, de uma classe social em si, se torna uma classe política para si.

Isto só se pode produzir por intermédio do Partido.

O Partido é o órgão histórico com o auxílio do qual a classe operária adquire a sua consciência.

Dizer-se: “A classe está acima do Partido”, — é o mesmo que afirmar-se: a classe em estado bruto está acima da classe em vias de adquirir a sua consciência. Não só isto é falso, como é reacionário.

Para justificar a necessidade da frente única, não há nenhuma necessidade de recorrer-se a esta teoria vulgar.

O desenvolvimento da classe, em sua consciência, isto é, a edificação de um partido revolucionário que arraste atrás de si o proletariado, é um processo complicado e contraditório.

A classe não é homogênea. Suas diferentes partes adquirem consciência por caminhos diferentes e em épocas diferentes. A burguesia toma uma parte ativa neste processo.

Cria os seus órgãos na classe operária, utiliza os existentes, opondo certas camadas de operários a outras.

No seio do proletariado agem simultaneamente diferentes partidos. Eis porque ele vive politicamente cindido durante a maior parte de seu caminho histórico.

Daí decorrer — com uma acuidade excepcional em certos períodos — o problema da frente única.

O Partido Comunista – com uma política justa – exprime os interesses históricos do proletariado.

Sua tarefa consiste em conquistar a maioria do proletariado: só assim a Revolução socialista é possível.

 O Partido Comunista só pode desempenhar a sua missão guardando sua plena independência política e de organização, sem reservas, em relação a todos os partidos e organizações dentro da classe operária e fora dela.

A transgressão desta regra fundamental da política marxista é o mais grave crime contra os interesses do proletariado como classe.

A Revolução chinesa de 1925-1927 foi esmagada precisamente por ter a Internacional Comunista, dirigida por Stalin e Bukharin, obrigado o Partido Comunista chinês a entrar no Kuomintang, partido da burguesia chinesa, e a submeter-se à disciplina deste último.

A experiência da política stalinista para com o Kuomintang entrará para sempre na história como exemplo de sabotagem funesta da Revolução feita por seus dirigentes.

 A teoria stalinista dos “partidos bi-partidos operários e camponeses” para o Oriente não é mais do que a generalização e a canonização da experiência feita com o Kuomintang; a aplicação desta teoria ao Japão, à Índia, à Indonésia, à Coréia, minou a autoridade do comunismo e retardou o desenvolvimento revolucionário do proletariado por uma série de anos.

 A mesma política pérfida foi efetivamente conduzida, apesar de com menos cinismo, nos Estados Unidos, na Inglaterra e em todos os países da Europa, até 1928.

A luta da Oposição de Esquerda pela independência completa e sem reservas do Partido Comunista e de sua política, em todas as condições históricas e em todos os graus de desenvolvimento de proletariado, provocou um aguçamento extremo das relações entre a Oposição e a fração de Stalin durante o período de seu bloco com a Chan-Kai-Chek e Wan-Tin-Wei, Purcell, Raditch, Lafollette, etc.

É inútil lembrar que Brandler e Talheimer, nesta luta, estiveram, assim como Thaelmann e Remmele, do lado de Stalin, contra os bolcheviques-leninistas.

Não nos cabe, pois, tomar com Stalin e Thaelmann lições de independência da política do Partido Comunista!

Mas o proletariado marcha para a aquisição de sua consciência, não pelos graus da escola, mas pela luta de classes, que não sofre interrupções.

Para a sua luta, o proletariado necessita da unidade de suas fileiras. Isto vale tanto para os conflitos econômicos parciais, nos limites de uma empresa, como para as lutas políticas “nacionais”, tais como a defesa contra o fascismo.

 A tática da frente única é, por conseguinte, não qualquer coisa de ocasional e artificial, não uma manobra manhosa qualquer – não; ela decorre inteiramente das condições objetivas do desenvolvimento do proletariado.

As palavras do Manifesto Comunista, afirmando que os comunistas não se opõem ao proletariado, que não têm outros objetivos e outras tarefas senão os do proletariado, exprimem o pensamento de que a luta do Partido pela maioria da classe não deve, em caso nenhum, entrar em contradição com a necessidade que têm os operários da unidade das suas fileiras de combate.

A Rote Fahne condena, com inteira razão, o palavrório sobre “os interesses de classe acima dos interesses do Partido”.

Na realidade, os interesses de classe, bem compreendidos, e as tarefas do Partido, bem formuladas, coincidem. Enquanto a coisa se limita a esta afirmação histórico-filosófica, a posição da Rote Fahne é invulnerável.

Mas as conclusões políticas que tira daí constituem um embaralhamento direto do marxismo.

A identidade em princípio dos interesses do proletariado e das tarefas do Partido Comunista não significa nem que o proletariado em seu conjunto tenha desde já consciência dos seus interesses, nem que o Partido os formule, em todas as circunstâncias, de um modo justo.

A própria necessidade do Partido decorre, precisamente, do fato de que o proletariado não nasce com a compreensão já feita dos seus interesses históricos.

A tarefa do Partido consiste, na experiência da luta, em aprender a demonstrar ao proletariado o seu direito a dirigi-lo. Entretanto, a burocracia stalinista considera que se pode, muito simplesmente, exigir do proletariado a subordinação, baseada no passaporte do Partido, selado com o carimbo da Internacional Comunista.

Toda frente única que não for posta antecipadamente sob a direção do Partido Comunista, repete a Rote Fahne, é dirigida contra os interesses do proletariado. Todo aquele que não reconhece a direção do Partido Comunista é, por isso mesmo, um “contra-revolucionário”.

O operário é obrigado a dar, de antemão, a sua confiança ao Partido Comunista sob palavra de honra. Da identidade de princípios da tarefa do Partido e da classe, o funcionário deduz o direito de mandar na classe.

A tarefa histórica que o Partido Comunista deve ainda resolver: a unificação, sob a sua bandeira, da maioria esmagadora dos operários – o burocrata transforma-a em ultimato, em revólver apontado contra a fronte da classe operária. O pensamento dialético é substituído pelo pensamento formalista, administrativo, burocrático.

A tarefa histórica que é preciso resolver já é considerada como resolvida. A confiança que é preciso conquistar já é considerada como resolvida.

A confiança que é preciso conquistar já é considerada como conquistada. Isto é, como se vê, muito simples.

Mas nem por isso as coisas adiantam. Em política é preciso partir do que existe e não do que é desejável ou do que o será.

 Levada até o fim, a posição da burocracia stalinista é na realidade a negação do Partido: em que consiste todo o seu trabalho histórico, se o proletariado deve reconhecer de antemão a direção de Thaelmann e de Remmele?

Ao operário que quer entrar nas fileiras comunistas o Partido tem o direito de dizer: Precisas reconhecer o nosso programa, os nossos estatutos e a direção dos nossos organismos eleitos.

Mas é insensato e criminoso impor-se esta mesma condição a priori, ou mesmo uma parte desta, às massas operárias ou às organizações operárias, quando se trata de ações comuns em nome de tarefas de combate determinadas.

Isto é o mesmo que minar o próprio fundamento do Partido, que só pode preencher a sua função tendo relações recíprocas com a classe.

Em lugar de lançar-se um ultimato unilateral que irrita e humilha os operários, é preciso propor um programa determinado de ações comuns: e o caminho mais certo para conquistar-se a direção efetiva.

O ultimatismo é uma tentativa para violentar a classe operária quando não se consegue persuadi-la: “Se vós, operários, não reconheceis a direção Thaelmann-Remmele-Neumann, não vos permitiremos organizar a frente única.”

O pior inimigo não teria podido inventar uma situação menos cômoda do que a em que os próprios chefes do Partido Comunista se colocam. É o caminho mais certo para a ruína.

A direção do Partido Comunista alemão não faz senão acentuar mais claramente o seu ultimatismo quando em seus apelos faz estas reservas casuísticas: “Não vos pedimos que reconheçais antecipadamente as nossas concepções comunistas”.

 Isto soa como uma desculpa para uma política que não tem nenhuma desculpa.

Quando o Partido declara que se recusa a entrar em qualquer negociação com outras organizações, mas permite aos operários social-democratas romper com a sua organização e, sem se chamarem comunistas, colocar-se sob a direção do Partido Comunista, isto, precisamente, não passa do mais puro ultimatismo.

A reserva quanto às “concepções comunistas” é completamente ridícula: o operário que está pronto desde já a romper com o seu Partido para tomar parte na luta sob a direção comunista não hesitará em tomar o nome de comunista.

Os subterfúgios diplomáticos e o jogo de rótulos são estranhos ao operário. Este vê, na política e na organização, o que estas encerram de essencial.

Continua na social-democracia enquanto não tiver confiança na direção comunista.

Pode-se dizer com certeza que a maioria dos operários social-democratas fica no seu partido não porque tenha confiança na direção reformista, mas unicamente porque ainda não tem confiança na direção comunista. Mas quer lutar desde já contra o fascismo.

Se lhe for indicada a etapa mais próxima da luta comum, exigirá que a sua organização se coloque neste caminho. Se a organização se obstinar em não aceitá-lo, poderá ir até a ruptura com aquela.

Em lugar de auxiliar os operários social-democratas a encontrar o seu caminho, pela experiência, o Comitê Central do P.C. auxilia os chefes social-democratas contra os operários.

A sua aversão e o seu medo da luta, sua incapacidade de combate, os Wels e os Hilferdingos mascaram hoje com êxito, apoiando-se na recusa do Partido Comunista em participar na luta comum.

A recusa obstinada, estúpida e insensata do Partido Comunista em aceitar a política da frente única tornou-se, nas condições atuais, o mais importante recurso político da social-democracia.

E é por isto que a social-democracia, com o parasitismo que lhe é próprio, se agarra tanto à nossa crítica à política ultimatista de Stalin—Thaelmann.

Os dirigentes oficiais da Internacional Comunista peroram agora, com o ar muito sério, sobre a elevação do nível teórico do Partido e sobre o estudo da “história do bolchevismo”.

Na realidade, o “nível” baixa cada vez mais, as lições do bolchevismo são esquecidas, deformadas, espezinhadas.

 Entretanto, não é difícil encontrar-se na história do Partido russo o precursor da política atual do Comitê Central alemão: é o defunto Bogdanov, o criador do ultimatismo (ou otzovismo).

Ainda em 1905, considera impossível a participação dos bolcheviques nos Sovietes de Petrogrado se os Sovietes não reconhecessem, preliminarmente, a direção social-democrata.

Sob a influência de Bogdanov, a secretaria peterburguesa do Comitê Central bolchevique adotou em outubro de 1905 esta decisão: propor ao Soviete de Petrogrado o pedido de reconhecimento da direção do Partido; em caso contrário, seria decidido abandonar-se o Soviete.

O jovem advogado Krassikov, membro do Comitê Central bolchevique nessa época, lançou este ultimato à assembléia plena do Soviete.

Os deputados operários, inclusive os bolcheviques, se entreolharam com espanto e passaram à ordem do dia. Ninguém deixou o Soviete.

Pouco depois,Lenine chegou do estrangeiro e passou um sabão tremendo nos ultimatistas: Não se pode, ensinava ele, com auxílio de ultimatos, obrigar a massa a saltar por cima das fases indispensáveis de seu próprio desenvolvimento político.

Bogdanov, entretanto, não renunciara à sua metodologia e criou, depois disso, toda uma fração de “ultimatistas” ou de “otzovistas”: esta última designação lhes foi dada porque eram inclinados a retirar os bolcheviques de todas as organizações que se negavam a aceitar o ultimato enviado de cima: “Reconheça primeiro a nossa direção”.

 Os ultimatistas procuravam aplicar a sua política não só nos Sovietes, como também no domínio do parlamentarismo e do movimento sindical e em geral em todas as organizações legais e semi-legais da classe operária.

A luta de Lenine contra o ultimatismo foi uma luta pelas relações justas entre o partido e a classe.

Os ultimatistas no velho Partido bolchevique nunca se elevaram a um papel de qualquer importância: do contrário, a vitória do bolchevismo teria sido impossível.

As relações atentas e sensíveis com a classe constituíram a força do bolchevismo. Lenine continuou a luta contra o ultimatismo mesmo quando estava no poder, particularmente e, sobretudo no domínio dos sindicatos.

“Se tivéssemos imposto agora na Rússia, escrevia ele, após dois meses e meio de vitórias incríveis sobre a burguesia da Rússia e da Entente, como condição de admissão aos sindicatos, o “reconhecimento da ditadura”, teríamos feito uma asneira, teríamos prejudicado a nossa influência sobre as massas, teríamos auxiliado os mencheviques.

 Toda a tarefa dos comunistas reside na capacidade de persuadir os retardatários, na capacidade de trabalhar entre eles, e não de se separar deles pela invenção de palavras de ordem puerilmente “esquerdistas”.

(O esquerdismo, moléstia infantil do comunismo).

E isto é ainda mais obrigatório para os partidos comunistas do Ocidente, que não representam senão a minoria da classe operária.

A situação, entretanto, mudou radicalmente na URSS durante o último período.

O Partido Comunista, armado do poder, já representa uma outra relação entre a vanguarda e a classe: nesta relação existe um elemento de coação.

A luta de Lenine contra o burocratismo do Partido e dos Sovietes significava, no fundo, uma luta não contra o mau funcionamento das secretarias, a inércia, a sujeira, etc., mas contra a submissão da classe ao aparelho, contra a transformação da burocracia numa nova camada “dirigente”.

O conselho dado por Lenine antes da sua morte, de criar-se uma Comissão de Controle operária independente do Comitê Central e de retirar-se Stalin e sua fração do aparelho do Partido, foi dirigido contra a degenerescência burocrática do Partido.

Por uma série de razões, sobre as quais não podemos nos deter aqui, o Partido deixou de lado esse conselho.

A degenerescência burocrática do Partido atingiu o auge nestes últimos anos. O aparelho stalinista não sabe fazer outra coisa senão mandar. A linguagem do comando é a linguagem do ultimatismo.

Todo operário tem de reconhecer antecipadamente que todas as decisões precedentes, atuais e futuras do Comitê Central são infalíveis.

As pretensões de infalibilidade aumentam à medida que a política se vai tornando cada vez mais falsa.

Após ter concentrado em suas mãos o aparelho da Internacional Comunista, a fração stalinista, muito naturalmente, trouxe os seus métodos para as secções estrangeiras, isto é, para os partidos comunistas dos países capitalistas.

A política da direção alemã é o reflexo da direção de Moscou. Thaelmann vê como comanda a burocracia stalinista, que declara contra-revolucionário todo aquele que não reconhece a sua infalibilidade.

Em que é Thaelmann pior que Stalin? Se a classe operária não se coloca obedientemente ao seu comando, é porque a classe operária é contra-revolucionária.

 Duplamente contra-revolucionários são os que mostram a Thaelmann os perigos funestos do ultimatismo.

 Um dos livros mais contra-revolucionários é a coletânea das Obras Completas de Lenine. Não é à toa que Stalin as submete a uma censura tão severa, sobretudo nas edições em língua estrangeira.

Funesto em qualquer circunstância, significando na URSS o desperdício do capital moral do Partido, o ultimatismo é duplamente insolvível nos partidos do Ocidente, que ainda apenas estão acumulando um capital moral.

Na União Soviética, a Revolução vitoriosa criou pelo menos as premissas materiais para o ultimatismo burocrático sob a forma de aparelho de coerção.

Nos países capitalistas, inclusive a Alemanha, o ultimatismo se transforma numa caricatura impotente e entrava a marcha do Partido Comunista para o poder.

 O ultimatismo de Thaelmann—Remmele é antes de tudo ridículo. E o ridículo mata, sobretudo quando se trata do partido da Revolução.

Transportai um instante este problema para a arena da Inglaterra, onde o Partido Comunista (em conseqüência dos erros funestos da burocracia stalinista) continua a não passar de uma parte ínfima do proletariado.

Se se admite que toda forma de frente única, exceto a forma comunista, é “contra-revolucionária”, o proletariado britânico fará, por força, recuar a luta revolucionária até o momento em que o Partido Comunista se puser à sua frente.

Mas o Partido Comunista só poderá colocar-se à frente da classe na base de sua própria experiência revolucionária.

 Entretanto, a experiência só pode tomar um caráter revolucionário por meio da atração de milhões de homens à luta.

Ora, só se pode arrastar à luta as massas não comunistas, e, sobretudo as massas organizadas, na base da política de frente única.

Caímos num círculo vicioso, do qual não há saída no caminho do ultimatismo burocrático.

Mas a dialética revolucionária mostrou há muito tempo essa saída; demonstrou sua eficácia numa quantidade inumerável de exemplos e nos domínios mais diversos: combinação da luta pelo poder com a luta pelas reformas; independência completa do Partido com a salvaguarda da unidade dos sindicatos; luta contra o regime burguês com a utilização de suas instituições; crítica irredutível do parlamentarismo do alto da tribuna parlamentar; luta implacável contra o reformismo com os acordos políticos com os reformistas nas tarefas parciais.

Na Inglaterra, a inconsistência do ultimatismo salta aos olhos devido à fraqueza extrema do Partido Comunista.

Na Alemanha, os efeitos funestos do ultimatismo são em parte mascarados pela força numérica considerável do Partido e pelo seu crescimento.

Mas o Partido alemão cresce graças à pressão das circunstâncias e não graças à política da direção; não é o crescimento do Partido que decide: o que decide é a relação política recíproca entre o Partido e a classe.

 Nesta linha fundamental a situação não melhora porque o Partido põe entre ele e a classe uma cerca de arame farpado de ultimatismo.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O Triunfo de Stalin



Leon Trotski

25 de Fevereiro de 1929


Escrito: 25 de Fevereiro de 1929.
Primeira Edição: New York Times 1º de Março de 1929.
Fonte da Presente Tradução: CD Escritos de León Trotsky 1929-1940, C.E.I.P. León Trotsky. Dezembro, 2000, Buenos Aires, Argentina.
Tradução para o português da Galiza: José André Lôpez Gonçâlez, Novembro de 2008
HTML: Fernando A. S. Araújo, Novembro de 2008 .
Direito de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.

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Nota: Estaline (Tradução Português BR - Stalin)
         Lenine (Tradução Português BR - Lenin)

Estaline foi eleito secretário geral em vida de Lenine, em 1922. Nessa época o cargo tinha um caráter mais técnico que político. Contudo, nesse então Lenine já se opunha à candidatura de Estaline. 

Foi precisamente neste sentido que falou de um cozinheiro amante dos pratos picantes. Porém cedeu ante as posições de outros membros do Buró Político, ainda que com escasso entusiasmo. "Provaremos e veremos."

A enfermidade de Lenine provocou uma mudança total na situação. Até esse momento ele, à cabeça do Buró Político, tinha nas suas mãos a alavanca central do poder.

 O segundo nível de trabalho, a posta em prática das resoluções principais, foi confiado ao secretário geral Estaline. Todos os demais membros do Buró Político se ocupavam das suas respectivas funções específicas.

Ao desaparecer Lenine da cena, a alavanca central caiu automaticamente em mãos de Estaline. Considerou-se que era uma situação provisória. Ninguém propôs mudança alguma, porque todos esperavam uma rápida recuperação de Lenine.

Durante essa época Estaline se moveu febrilmente para escolher os seus amigos e fazê-los escalar posições no aparato. 

Quando Lenine se recuperou de seu primeiro ataque e voltou por um tempo ao trabalho, em 1922-1923, ficou horrorizado ao ver até que ponto se tinha burocratizado o aparato e quão omnipotente parecia em relação à massa partidária.

Enquanto insistia em que fosse eu seu substituto no Conselho de Comissários do Povo, Lenine discutiu comigo a forma de travar uma luta conjunta contra o burocratismo de Estaline. Havia que fazê-lo de maneira tal que o partido sofresse a menor quantidade possível de convulsões e choques.

Mas a saúde de Lenine voltou a piorar. No seu chamado testamento, escrito em 4 de Janeiro de 1923, aconselhou insistentemente o partido que se sacasse Estaline do poder central devido a sua deslealdade e sua tendência ao abuso do poder. 

Porém uma vez mais Lenine teve que ir de novo a seu leito de enfermo. Renovou-se o acordo provisório de manter Estaline no leme. 

Ao mesmo tempo, as esperanças de que Lenine se recuperasse se desvaneciam rapidamente. Ante a perspectiva de que deveria abandonar definitivamente o seu trabalho, foi plantado outra vez o problema da direção do partido.

Nesse momento, as diferenças de tipo principista ainda não cristalizaram. O grupo dos meus adversários tinha um carácter puramente pessoal. O santo e senha de Zinoviev, Estaline e Cia. era: "Não permitamos que Trotski assuma a direção do partido." 

No transcurso da luita posterior de Zinoviev e Kamenev contra Estaline, os segredos deste período anterior foram revelados polos mesmos protagonistas da conspiração. Porque se tratava de uma conspiração.
Se criou um Buró Político secreto (o Setemvirato) integrado por todos os membros do Buró Político menos eu, com o agregado Kuibishev, no tempo presente presidente do Conselho Supremo da Economia Nacional. Todos os problemas se resolviam de antemão neste centro secreto, cujos integrantes estavam juramentados. 

Acordaram não polemizar entre si e ao mesmo tempo procurar oportunidades para atacar-me. Nas organizações locais existiam centros semelhantes, vinculados ao Setemvirato de Moscovo por uma rígida disciplina. Comunicavam-se através de códigos especiais. 

Tratava-se de um grupo clandestino, bem organizado, no seio do partido, dirigido em princípio contra um homem. As pessoas destinadas a ocupar cargos de responsabilidade no partido e no estado eram escolhidas segundo um critério único: a oposição a Trotski.

Durante o dilatado "interregno" criado pola enfermidade de Lenine, este trabalho se realizou sem pausa, mas ainda em forma cautelosa e oculta, de jeito que, na eventualidade de que Lenine se recuperasse, as pontes minadas se dessa maneira se engendrou um novo tipo de arrivismo, que mais tarde adquiriu o nome público de "antitrotskismo". 

A morte de Lenine deixou-lhes as mãos livres aos conspiradores e lhes permitiu sair à luz.

Os militantes do partido que alçavam a sua voz para protestar contra a conspiração, viam-se submetidos a ataques arteiros com os pretextos mais descabelados, muitas vezes inventados.

 Por outra parte, certos elementos moralmente instáveis, desses que nos cinco primeiros anos do poder soviético houvessem sido expulsos implacavelmente do partido, agora adquiriam sua apólice de seguro em troca de algumas observações hostis a respeito de Trotski. 

A partir de fins de 1923 começou-se a realizar esse mesmo trabalho em todos os partidos da Comintern: alguns dirigentes foram destronados e outros ocuparam seus postos unicamente em virtude de sua atitude ante Trotski. Realizou-se um processo de seleção árduo e artificial, não se elegia os melhores, mas os mais acomodados. 

A táctica geral consistia em substituir pessoas independentes e talentosas por medíocres que deviam a sua posição exclusivamente ao aparato. E a máxima expressão dessa mediocridade de aparato chegou a ser o próprio Estaline.

Até fins de 1923 as três quartas partes do aparato já estavam escolhidas e alienadas, prontas para levar a luita à base do partido. 

Tinham-se preparado armas de todo o tipo e só se aguardava o sinal para atacar. Então deu-se o sinal. As duas primeiras campanhas de "discussão" contra mim, no outono de 1923 e no de 1924, coincidiram com épocas em que eu me encontrava enfermo, o que me impedia de falar ante as reuniões partidárias.

Sob a furibunda pressão do Comitê Central, as bases começaram a ser atacadas de todos os ângulos de uma vez. 

As minhas velhas diferenças com Lenine, anteriores não só à revolução mas também à guerra mundial, e desaparecidas havia muito tempo no nosso trabalho conjunto, sacavam-se a súbitas à luz do dia, distorcidas, exageradas, e as apresentava ante as bases partidárias novas como se se tratasse das questões mais prementes.

 As bases ficaram desconcertadas, em mau estado, intimidadas.

 Ao mesmo tempo, começou-se a empregar num degrau mais baixo o método de seleção de pessoal.

Agora já não se podia ocupar um posto de administrador de fábrica, secretário de um comitê de oficina, presidente de comitê executivo de um condado, portador de livros ou secretário de atas se não se possuíam credenciais de antitrotskismo.

Evitei esta luita enquanto me foi possível, já que não era mais que uma conspiração sem princípios dirigida contra minha pessoa, ao menos nas suas primeiras etapas.

 Para mim estava claro que essa luita, apenas se estalasse, adquiriria inexoravelmente um caráter muito grave e, nas condições criadas pola ditadura revolucionária, poderia ter conseqüências perigosas. 

Não corresponde discutir aqui se foi acertado tratar de manter um terreno comum sobre o qual pudesse trabalhar conjuntamente, ao preço de enormes concessões pessoais, ou se eu deveria ter assumido a ofensiva desde o princípio, apesar de carecer de motivos políticos suficientes como para realizar semelhante ação. 

O certo é que escolhi aquele caminho e, apesar de tudo, não me arrependo. Há triunfos que conduzem a becos sem saída, e há derrotas que abrem novos caminhos.

Inclusive depois de que as profundas diferenças políticas saíram à luz, deslocando a intriga pessoal a um segundo plano, tratei de manter a pugna dentro dos marcos de uma discussão principista e de evitar ou impedir que se forçasse uma decisão, para permitir assim que as opiniões e prognósticos em conflito pudessem corroborar-se à luz dos factos e das experiências.

Em compensação, Zinoviev, Kamenev e Estaline, o que ao princípio se ocultava atrás dos dous primeiros, trataram com todas as suas forças de forçar uma decisão. Não tinham o menor desejo de que o partido tivesse tempo de meditar sobre as diferenças e corroborá-las à luz da experiência. 

Quando Zinoviev e Kamenev romperam com Estaline, este automaticamente dirigiu contra eles a mesma campanha de calúnias anti "trotskistas", com toda a sua abrumadora força de inércia, que os três tinham desenvolvido juntos durante um lapso de três anos.

Esta não é uma explicação histórica da vitória de Estaline, mas um mero esboço de como se conseguiu a essa vitória. 

Tampouco se trata de um protesto contra a intriga. Uma linha política que procura as causas da sua derrota nas intrigas do seu adversário é uma linha cega e patética.

 A intriga é um aspecto técnico específico da realização de uma tarefa; só pode desempenhar um papel subordinado. O que resolve os enormes problemas da sociedade é a acção das grandes forças sociais, não as manobras mesquinhas.

O triunfo de Estaline, com toda a sua instabilidade e incerteza, é a expressão de mudanças importantes que se tem produzido nas relações entre as classes na sociedade revolucionária. É o triunfo ou semitriunfo de determinadas camadas ou grupos sobre outros. 

É o reflexo das mudanças produzidas na situação internacional no transcurso dos últimos anos. Mas estes problemas são de tal envergadura que requerem uma análise especial.

A esta altura só se pode dizer uma cousa.

A imprensa mundial, hostil ao bolchevismo, apesar de todos os erros e confusões que contém sua avaliação das distintas etapas e acontecimentos da luita interna na URSS, conseguiu em geral chegar ao miolo social dessa luita: a vitória de Estaline é a vitória das tendências mais moderadas, conservadoras, burocráticas, partidárias da propriedade privada e estreitamente nacionalistas, sobre as tendências que apóiam a revolução proletária internacional e as tradições do Partido Bolchevique. 

Nesse sentido não tenho a menor queixa a respeito dos louvores do realismo estalinista que aparecem, com tanta freqüência na imprensa burguesa. Até que ponto será sólido e duradouro esse triunfo, e qual será o rumo futuro dos acontecimentos, é farinha dum outro saco.

(1) Nota da edição do CEIP: O triunfo de Estaline, de Jto i Kak Proizoslo? Traduzido [para o inglês] para este volume [da edição norteamericana] por George Saunders. Apareceu outra tradução no New York Times de 1º de Março de 1929 (Trotski revela a origem da sua queda) e em outros jornais.

Este texto foi uma contribuição do
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domingo, 20 de janeiro de 2013

As Frações e a Quarta Internacional


Leon Trotsky -1935


Fonte: TROTSKY, Leon. Escritos de Leon Trotsky (1929-1940). Tomo VII. Volume 1. Bogotá: Editorial Pluma, 1979. pp. 276-284.

Tradução de: Carlos Alberto Coutinho Neves, revisada por Daniel Monteiro.

Transcrição de: Daniel Monteiro, novembro 2008.

HTML de: Fernando A. S. Araújo, dezembro 2008.





Arquivo Marxista na Internet




O trabalho de construção da Quarta Internacional já se desenvolve sobre bases significativamente mais amplas do que as da construção da Fração Bolchevique-Leninista. 

Grupos das mais diversas origens começaram a bater às portas da Quarta Internacional, sob o impulso da decadência do reformismo e do stalinismo, o perigo de guerra iminente e a intensificação da luta de classes.

Não nos cabe a menor dúvida de que a Quarta Internacional não permitirá que ninguém tome superficialmente nossos princípios ou nossa disciplina. Mas não podemos decretar a priori qual será o conteúdo desta disciplina: temos que forja-la na luta coletiva. 

Devemos nos guiar pelas experiências – meditadas com cuidado e examinadas criticamente – da abrumadora maioria dos participantes. 

Neste marco, deve considerar-se que a adesão do grupo [belga] Espartaco à Quarta Internacional é um fato positivo. Apresenta-se a este grupo uma oportunidade para evitar as armadilhas do sectarismo. Por sua vez, isto nos permite ganhar novamente operários abnegados e não corrompidos.

Agora, que se esta formando uma nova internacional, a questão das frações no partido revolucionário adquire enorme importância. Mas esta é justamente a questão que provocou tantos problemas e desmoralização na Terceira Internacional em seus anos de maior prestígio.

A Terceira Internacional proibiu as frações alegando que esta proibição coincide com a tradição bolchevique. 

É difícil imaginar pior calunia à história bolchevique. É certo que o décimo Congresso do Partido, em março de 1921, proibiu as frações por resolução especial. 

O próprio fato de que fosse necessário aprovar semelhante resolução demonstra que em todo o período anterior – vale dizer, os dezessete anos em que o bolchevismo surgiu, cresceu, se fortaleceu e conquistou o poder – as frações formavam parte legítima da vida partidária, o que se refletia na prática.

No Congresso partidário de Estocolmo (1906), onde se reunificaram as frações bolchevique e menchevique, os bolcheviques estavam divididos em duas frações, que desenvolveram uma batalha franca dentro do próprio Congresso em torno de uma questão de grande importância: o programa agrário. A maioria dos bolcheviques, dirigida por Lenin, havia se pronunciado pela nacionalização da terra. 

Stalin, que falou no Congresso sob o nome de Ivanovich, pertencia a um grupo pequeno de auto-intitulados “particionistas”, que defendiam a imediata distribuição da terra aos pequenos proprietários. Dessa maneira, limitavam a revolução de antemão à perspectiva camponesa-capitalista.

Em 1907, travou-se uma grande luta fracional em torno do boicote à Terceira Duma [parlamento]. 

Posteriormente, os partidários do boicote se alinharam em duas frações que nos anos seguintes combateram sem piedade a fração de Lenin, não somente dentro do partido “unificado”, mas também dentro da fração bolchevique. 

O bolchevismo intensificou a luta contra o liquidacionismo, o que mais adiante redundou na formação de uma fração conciliadora em seu seio, a qual pertenceram importantes militantes bolcheviques da época: Rikov, Dubrovinski, Stalin e outros. A luta contra os conciliadores prosseguiu até o início da guerra.

Em agosto de 1914, iniciou-se um reagrupamento na fração bolchevique em torno à atitude em relação a guerra e à Segunda Internacional. Ao mesmo tempo, formava-se uma fração de adversários da autodeterminação nacional (Bukarin, Piatakov e outros).

Todos já conhecem a aguda luta fracional que se travou dentro da fração bolchevique no primeiro período depois da revolução de fevereiro e nas vésperas da revolução de outubro (ver, por exemplo, “História da Revolução Russa” de Leon Trotsky).

Depois da tomada do poder, ocorreu uma grave luta fracional em torno da Paz de Brest-Litovsk. Formou-se uma fração de comunistas de esquerda, que publicava sua própria imprensa (Bukarin, Iaroslavski e outros). Posteriormente, apareceram as frações Centralismo Democrático e Oposição Operária. 

Somente no Décimo Congresso do Partido, reunido em meio do bloqueio e da fome extrema, do descontentamento crescente dos camponeses e das primeiras etapas da NEP – que haviam dado rédea solta às tendências pequeno-burguesas – se estudou a possibilidade de recorrer a uma medida tão excepcional como a proibição de frações. 

Pode-se considerar que essa resolução do Décimo Congresso obedeceu a uma necessidade grave. Porém, os acontecimentos posteriores deixam absolutamente claro que a proibição das frações significou o fim do período heróico da história bolchevique e abriu caminho para sua degeneração burocrática.

A partir de 1923, os epígonos estenderam a proibição e a supressão da luta fracional no partido dominante na URSS às jovens seções da Terceira Internacional, condenando-as à degeneração antes que tivessem tempo de crescer e desenvolver-se.

Isto significa que o partido revolucionário do proletariado pode ou deve representar uma somatória de frações? Para clarear melhor esta questão, tomaremos com exemplo o Partido Socialista Francês, cujos estatutos legalizam as frações e introduzem o princípio da representação proporcional em todas as eleições partidárias.

 Neste sentido, durante muito tempo, e não sem êxito, a seção francesa da Segunda Internacional apresentou-se como a expressão mais pura de “democracia partidária”.

 E formalmente é, ou melhor dito, era. Mas, assim como a democracia pura da sociedade burguesa encobre o domínio real do setor mais alto de proprietários, a democracia ideal da Segunda Internacional oculta o domínio de uma fração extra-oficial, mas poderosa: a dos oportunistas municipais e parlamentares. 

Esta fração, ao mesmo tempo em que se prende solidamente ao aparato, permite à ala esquerda pronunciar discursos de tom muito revolucionário. Mas, quando a autêntica fração marxista – para a qual a palavra e o fato caminham lado a lado – começa a denunciar a hipocrisia da democracia partidária, a fração do aparato implementa rapidamente a expulsão.

Dado que os bolcheviques não ingressaram ao partido reformista para adaptar-se ao mesmo, mas sim para combate-lo, o choque com a fração dominante estava pré-determinado. 

O perigo de guerra iminente e o giro social-patriota da Terceira Internacional aceleraram o conflito e o investiram de excepcional gravidade desde seu começo. 

Se os social-patriotas expulsam os revolucionários e não vice-versa, é culpa integralmente da relação de forças: sobre isto ninguém faz a menor ilusão. 

O entrismo no partido Socialista nos permitiu considerar algo, mas de nenhuma maneira tudo. Graças a ele, nossa seção francesa tem podido estender sua influência de maneira considerável. 

A luta entre o internacionalismo e o social-patriotismo ficou delineada com notável clareza. Com respeito aos balanços organizativos, todavia não tem chegado o momento de elaborá-los: a luta no Partido Socialista Francês está distante do fim.

Existem certos indivíduos sagazes (muitos deles se opuseram anteriormente ao entrismo) que dizem: os bolcheviques-leninistas têm uma política demasiado temerária no Partido Socialista, por exemplo, quando chamam a formar a Quarta Internacional, etc... 

Não é raro encontrar essa visão errônea em política. O êxito é tão sedutor que um desejaria que pudesse desenvolver-se de forma ininterrupta. 

Em épocas como as atuais, é fácil perder de vista o fato de que no mundo possa existir um adversário com olhos e ouvidos. 

Somente um imbecil sem remédio pode acreditar que o chamado pela Quarta Internacional assuste a Blum e companhia. 

É totalmente absurdo! Foram o perigo de guerra iminente e a traição descarada da Terceira Internacional, ao fortalecer enormemente ao social-patriotismo, ao menos durante o período próximo, os fatores que obrigaram a Léon Blum e companhia a lançarem-se à ofensiva. 

Acreditar que tal ou qual expressão “carente de tato” – inevitáveis ao calor da luta – poderia desempenhar um papel importante na expulsão, significa uma atitude excessivamente superficial e irresponsável na avaliação do inimigo.

Se a camarilha dirigente, desafiando o mito tradicional da democracia, deliberou pela expulsão, deve ter obedecido a razões graves e apressadas. Não é difícil encontrar uma desculpa: Blum, e não somente Mussolini, sempre possuem um Wal-Wal para casos de emergência.

Não basta estudar as últimas experiências do Partido Socialista Francês para comprovar, com precisão, porque o partido não pode ser mero somatório das frações. 

Um partido somente pode tolerar as frações que não perseguem objetivos diretamente contrapostos aos seus. Enquanto a esquerda tradicional do Partido Socialista Francês dedicou-se a perder tempo, foi tolerada. 

Mais ainda: foi encorajada. Blum sempre se referiu a esse revolucionário de segunda, Zyromsky, como “meu amigo”.

 Esse título, aplicado também a Frossard, significava: essa pessoa era necessária porque encobria a camarilha dominante, seja desde a esquerda ou desde a direita. 

Mas os leninistas – para os quais não existe contradição entre a palavra e o fato – eram algo que a democracia do partido social-patriota não podia tolerar.

O partido revolucionário apresenta um programa e táticas definidas. Isto impõe de antemão limites determinados e muito claros em relação à luta interna das tendências e agrupamentos. 

Depois da destruição da Segunda e Terceira Internacionais, esses alinhamentos assumem um caráter especialmente gráfico e determinado.

 O mero fato de pertencer à Quarta Internacional deve depender necessariamente do cumprimento de um conjunto de restrições que refletem todas as experiências dos anteriores movimentos da classe trabalhadora.

Mas o fato de que as limitações à luta ideológica interna se estabeleçam a priori de nenhuma maneira nega a luta em si, dentro do marco dos princípios gerais. É inevitável. 

Caso se mantenha dentro dos limites assinalados, é frutífera. Todavia, o conteúdo fundamental da vida partidária não reside na discussão, mas sim na luta. 

Se as discussões intermináveis alimentam mais discussões intermináveis, o único resultado é a decadência e a desintegração. 

Mas se a discussão está enraizada na luta coletiva, submetendo-a à crítica e preparando suas novas etapas, a discussão é um elemento indispensável para o desenvolvimento.

A discussão de problemas graves não se concebe sem a formação de agrupamentos. 

Mas em circunstância normais, estes se dissolvem posteriormente no organismo partidário, sobretudo porque as novas experiências constituem a melhor prova nos casos em que existem diferenças políticas.

 Quando os grupos se convertem em frações permanentes, este fato constitui um sintoma alarmante de que ou as tendências em luta são absolutamente irreconciliáveis, ou que o partido em seu conjunto se encontra em um ponto morto. 

Esta situação não se pode evitar simplesmente mediante a proibição de formar frações. 

Combater o sintoma não significa curar a enfermidade. Somente uma política correta e uma estrutura e métodos organizativos internos bons podem impedir que os agrupamentos temporários se transformem em frações ossificadas.

A saúde do regime depende em grande medida da Direção do Partido e de sua capacidade de escutar oportunamente a voz de seus críticos. 

Uma obstinada política de imposição de “prestígio” burocrático é altamente prejudicial para o desenvolvimento da organização proletária e assim mesmo para a autoridade da Direção.

Mas não basta a boa vontade da Direção.

 O grupo de oposição também é responsável pelo caráter das relações intra-partidárias. 

Na luta fracional contra os reformistas, os revolucionários recorrem a medidas extremas, se bem que, por regra geral às lutas fracionais, as condutas dos reformistas são muito mais desapiedadas e talhantes. Mas, neste caso, ambos os bandos se prestavam a efetuar a ruptura sob condições mais vantajosas. 

Quem transfere tais métodos ao trabalho na organização revolucionária revele ou imaturidade política e falta de responsabilidade, ou esse individualismo anarquizante que, na maioria dos casos, oculta-se sob princípios sectários; ou, finalmente, que são elementos estranhos à organização revolucionária.

Ao aumentar a maturidade da organização e a autoridade de sua Direção, cresce seu sentido da proporção na luta fracional.

 Quando Vereecken trata de criar a impressão de que os “sectários” o expulsaram por sua lealdade aos princípios marxistas, só podemos desconsiderar.

 Se Vereecken tem a oportunidade de participar no trabalho pela construção da Quarta Internacional, deve agradecer tal oportunidade – sobretudo – à organização internacional da que se separou devido a impulsos de seu temperamento fortemente sectário.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Por que a China está se armando para uma guerra contra os Estados Unidos


Os chineses bem sabem que os americanos são capazes de usar a força militar “sem cerimônia”
Mísseis exibidos em parada militar em Pequim
Mísseis guiados de longo alcance exibidos em parada militar em Pequim
Por Paulo Nogueira - Jornalista
No início dos anos 1920, o escritor britânico Bertrand Russell passou alguns meses na China, num ciclo de palestras. Ao voltar ao Reino Unido, Russell escreveu um livro sobre o que viu, chamado “O Problema da China”.
Russell afirmou que a China poderia se tornar o maior país do mundo – desde que se tornasse militarmente mais forte. 
Naqueles dias, a China era virtualmente ocupada pelas potências ocidentais, depois de ter sofrido sucessivos reveses em guerras no século 19 exatamente por falta de cultura bélica. (No pior deles, nas chamadas Guerras do Ópio, a Inglaterra impôs que os chineses deixassem a droga ser vendida livremente no país. O ópio, produzido na Índia, era a espúria contrapartida que a Inglaterra encontrara para equilibrar seu comércio com a China, de quem consumia chá, seda e porcelana.)
As reflexões de Russell, quase cem anos depois, podem ajudar a entender a barulhenta controvérsia destes dias em torno do orçamento militar chinês. Como a economia do país, os gastos com a defesa têm crescido a uma taxa anual na casa dos dois dígitos.
Os Estados Unidos protestam, talvez por imaginarem que a China seja como eles mesmos. Mas não poderia haver duas culturas mais diferentes: a americana é a do consumo, da ganância, da ostentação e da dominação exploradora. A chinesa, derivada de Confúcio, é pacífica, centrada na educação dos jovens, respeito aos velhos e lealdade com os amigos.
Os chineses não são beligerantes, historicamente.Mas tolos também não são. Aprenderam com o passado em que sofreram sucessivas agressões.
Desfile militar na China
Desfile militar na China
Veja o que diz num editorial o jornal chinês Global Times, que reflete o pensamento do governo: “Sem uma defesa formidável, os sentimentos irracionais contra a China podem piorar, e se converter em ação. Na condição de maior potência militar, os Estados Unidos colocaram a China no centro de sua estratégia de defesa. 
A história prova que os Estados Unidos são ávidos por ações militares. Quando os americanos estão confiantes em sua superioridade, eles costumam usar a pressão militar sem nenhuma cerimônia.”
Clap, clap, clap.
Aplausos para a sabedoria chinesa. Quem acredita que o interesse dos Estados Unidos na questão do orçamento militar chinês é a paz acredita em tudo, como disse Wellington.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Frente à crise política na Venezuela: Derrotar nas ruas e com os métodos de luta da classe operária a direita golpista sem capitular politicamente em nenhum momento ao “Chavismo” e seu projeto nacionalista burguês!






 Por Liga Bolchevique Internacionalista

O presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, o ex-tenente coronel Diosdado Cabello, convocou para quinta-feira, 10/01, data na qual o presidente Hugo Chávez deveria assumir um novo mandato de seis anos, uma grande manifestação em frente ao Palácio Miraflores, em Caracas. 

Segundo Cabello, vários chefes de Estado e de governo de “países amigos”, ou seja, da centro-esquerda burguesa (Correa, Evo, Ortega, Mujica...), devem participar do ato para “demonstrar sua solidariedade com o comandante Chávez e o povo venezuelano e em sinal de respeito à Constituição”.

 Como Chávez encontra-se hospitalizado em Cuba não tomará posse na Venezuela, mas a própria Constituição do país permite que ele faça o juramento na presença de representantes do Tribunal Supremo de Justiça a qualquer hora e em qualquer lugar. 

Muito além de um “debate constitucional”, estamos vendo uma disputa entre alas burguesas em torno de quem será de fato o futuro presidente do país. 

Vem ganhando peso dentro e fora do chavismo no último período Diosdado Cabello frente ao próprio Nicolás Maduro. 

Neste embate no interior do PSUV, a oposição de direita obviamente faz o seu papel golpista de preparar as condições para enfraquecer a ala do PSUV mais ligada ao próprio Chávez, que indicou o ex-sindicalista Maduro como seu sucessor, o que acaba fortalecendo Cabello, um representante direto das FFAA.

A oposição convocou um protesto, também para a quinta-feira, a fim de pressionar por novas eleições e ampliar a polarização política do país. O arquirreacionário Henrique Capriles, candidato a presidente pela Mesa da Unidade Democrática (MUD), pediu nesta terça-feira, 08/01, que os magistrados do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) se pronunciem sobre a questão da posse do presidente reeleito Hugo Chávez, no que ele chamou de um “conflito constitucional”. 

No atual contexto político, Capriles não tem força para lider nenhum golpe, mas busca agrupar forças para uma futura eleição enquanto negocia com as FFAA uma saída de consenso. Por esta razão, declarou: “Eu não sei o que os magistrados do TSJ estão esperando.

Na Venezuela, nesse momento, ocorre um conflito sem dúvida alguma constitucional, tem de haver uma resposta da institucionalidade frente ao conflito”. 

A oposição venezuelana logo acionou o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, que legitimou o golpe em Honduras e no Paraguai, para cinicamente fazer uma denúncia sobre uma possível “violação da ordem constitucional” no país se o governo continuar funcionando após a data marcada para a posse. 

“Se, em 10 de janeiro, não ocorrer a juramentação do presidente e não se ativarem as disposições constitucionais relacionadas com a falta temporal do presidente da república, terá sido consumada uma grave violação à ordem constitucional na Venezuela, que afetará a essência da democracia”, diz carta enviada pela MUD ao organismo controlado pelo imperialismo ianque. 

A MUD também reiterou que se o presidente “não puder comparecer ao juramento por razões relacionadas com sua doença, não pode existir um vazio (de poder) e, por isso, deve se encarregar temporariamente da presidência o líder do Legislativo e depois disso, eleições seriam marcadas para dali 30 dias”.

Chávez sabia plenamente das dificuldades de governar a partir de 2013, mas optou por candidatar-se e venceu as eleições de outubro. 

Agora, com o agravamento de sua doença, deve-se trabalhar com o cenário de um “chavismo sem Chávez”. Até mesmo se os líderes do PSUV conseguirem emplacar por algum tempo esta fórmula com Maduro ou Cabello, esse arremedo não se sustenta por muito tempo, porque a fantasiosa “revolução bolivariana” não é produto de uma ruptura com as relações sociais capitalistas e não gerou nenhuma grande conquista histórica ao movimento de massas que justificasse sua defesa, ou seja, tem pés de barro.

 Desta forma, rapidamente a burguesia e sua fração de direita tomariam o controle do governo, seja pela via eleitoral ou de um golpe de estado cívico-militar. 

Por isto, dizemos que uma saída mais consensual, inclusive já amplamente ventilada no círculo mais próximo do presidente, será a transição ordenada do regime tendo a frente um representante pretensamente “chavista” da cúpula das FFAA que paulatinamente alinharia o governo integralmente aos ditames da Casa Branca, como representa o nome do ex-militar e presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello.

O certo é que desde já representantes das diversas camarilhas “bolivarianas” se preparam para se credenciar como uma alternativa burguesa diante da débil saúde de seu “comandante”, tirando as lições da própria conduta de Chávez que vem gradativamente trabalhando em um grande acordo com a burguesia e o imperialismo. 

As relações “carnais” com a Colômbia de Santos, tendo para isto Chávez sacrificado claramente seu prestígio “anti-imperialista” entre a vanguarda, são uma demonstração clara de que ele e seu staff estão sempre dispostos a atacar o movimento de massas e os lutadores para conseguirem as bênçãos dos amos do Norte. 

A alta cúpula das FFAA, principal pilar de sustentação política do regime, que dará a palavra final da transição em comum acordo com Washington, buscará se apropriar do espólio político de Chávez de forma figurativa para comandar com mais legitimidade este processo. 

O certo é que todas essas frações, com interesses particulares dentro do aparato estatal, com ou sem Chávez, desejam manter o regime de exploração capitalista, seja com cores “nacionalistas” ou entreguistas. 

Para buscar uma transição ordenada para um novo governo possivelmente sem a sua presença, Chávez estabeleceu no último período acordos de cooperação político-militar com a Colômbia, que resultaram na entrega de lutadores anti-imperialistas e dirigentes das FARC para os cárceres do facínora Santos e levaram a celebração de um pacto reacionário que legitimou o governo golpista em Honduras pela via da volta de Zelaya ao país centro-americano. 

Obviamente, não se tratou de um movimento isolado, mas de todo um planejado processo de recuo no já limitado programa de reformas burguesas de corte nacionalista implementado pelo ex-tenente coronel. 

Embora ainda detenha o apoio popular majoritário, o chavismo vem perdendo aos poucos sua base social para a oposição de direita que, pelo profundo desgaste de sua gestão, se lança como uma alternativa eleitoral viável para os capitalistas e, via de regra, usam as FFAA para chantageá-lo.

Para os trabalhadores venezuelanos e latino-americanos, que acompanham o desenrolar dos últimos acontecimentos e buscam intervir de forma independente na crise venezuelana fica claro que é preciso preparar uma alternativa política dos explorados tanto ao chavismo decadente como à direita reacionária. 

Por isto, neste 10 de Janeiro devemos chamar pela derrota da direita golpista com manifestações populares que expressem os métodos de luta e as reivindicações imediatas e históricas dos trabalhadores sem prestar nenhum apoio político ao PSUV e ao chavismo! 

O exemplo de Honduras, onde a Frente Nacional de Resistência (FNRP) avalizou a política de legitimação do governo golpista e mesmo a passividade de Lugo e da “centro-esquerda” burguesa do continente diante do golpe no Paraguai, demonstra que não se deve confiar nas direções “bolivarianas ou progressistas”, é preciso denunciá-las vigorosamente e preparar o terreno para a construção de um genuíno partido revolucionário capaz de enfrentar a onda de reação “democrática” ou mesmo a direita fascista. 

Cabe aos trabalhadores protagonizarem as manifestações convocadas pelo chavismo neste dia 10/01 não para prestar apoio político ao seu governo nacionalista burguês, mas para defenderem com um próprio programa e independente suas conquistas operárias, a fim de forjar entre a vanguarda um partido comunista proletário cuja estratégia seja a conquista do poder político pelos explorados sobre os escombros do Estado burguês.