OS FILMES ESTÃO LIBERADOS PARA SEREM ASSISTIDOS NO VK.COM - mas vc terá que se cadastrar na rede social russa - DIVIRTA-SE...

Mostrando postagens com marcador anos de chumbo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador anos de chumbo. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

PIOR FOI AQUELA VEZ EM QUE O CHICO BUARQUE RECEBEU A MAIOR VAIA DA HISTÓRIA DOS FESTIVAIS...



N
a madrugada de 29 de setembro de 1968, uma vaia de dez minutos foi dirigida, em pleno Maracanãzinho, contra dois dos maiores expoentes de nossa música popular em todos os tempos: Tom Jobim e Chico Buarque.

Mais do que o desfecho infeliz de um evento artístico, esse inesperado e contundente repúdio de 20 mil pessoas àqueles que eram, respectivamente, um dos  papas  da bossa-nova e a maior revelação da nova MPB, marcou o fim de uma época.

Dois meses e meio depois, no dia 13 de dezembro, desceriam sobre o País as trevas do Ato Institucional nº 5. E, com o esvaziamento imposto às artes, seria exatamente a canção favorita do público daquele festival que se imortalizaria como símbolo da resistência ao totalitarismo: "Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores" (ou, simplesmente, "Caminhando"), de Geraldo Vandré.

ESCALADA DE RADICALIZAÇÃO

Canto do cisne do período de maior efervescência musical que o País já conheceu, o III Festival Internacional da Canção, da Rede Globo, transcorreu em meio a passeatas que degeneravam em batalhas campais, mortes de opositores da ditadura, denúncias de torturas, ações armadas da esquerda, atentados dos grupos paramilitares de direita.

O mês já começara mal, pois, logo no dia 2, o deputado federal Márcio Moreira Alves, numa sessão quase deserta do Congresso, proferiu o fatídico discurso que acabaria sendo o pivô da decretação do AI-5.

O então influente Jornal da Tarde (SP), naquele final de 1968, dia após dia dedicava suas manchetes e principais matérias ao terrorismo, fazendo alarmismo para enlouquecer a classe média e favorecer a linha dura militar na luta interna em que se decidia o rumo do regime.

Este clima já se refletira na eliminatória paulista, que teve lugar no  Teatro da Universidade Católica de São Paulo, no dia 15 de setembro. Foi quando os baianos apresentaram composições que faziam uma correção de rumo no tropicalismo. Ao lançarem-no, no ano anterior, pareciam pregar o desengajamento dos jovens da política revolucionária, por que não?

modelo 1968, entretanto, veio fortemente influenciado pela Primavera de Paris, o movimento neo-anarquista que levou a França às portas da revolução.

Aliás, foi um slogan das barricadas parisienses o ponto-de-partida da composição inscrita por Caetano Veloso no III FIC: “É proibido proibir”. O estribilho já veio pronto, mas os versos que ele criou foram corrosivos, geniais: “Me dê um beijo, meu amor/ Eles estão nos esperando/ Os automóveis ardem em chamas/ Derrubar as prateleiras/ As estantes, as estátuas/ As vidraças, louças, livros, sim/ E eu digo sim/ Eu digo não ao não/ Eu digo, é proibido proibir”.

Gilberto Gil seguiu o mesmo diapasão em “Questão de Ordem”, enfocando situações vividas pelos contestadores agrupados nas comunidades alternativas da Europa: “Se eu ficar em casa/ Fico preparando/ Palavras-de-ordem/ Para os companheiros/ Que esperam nas ruas/ Pelo mundo inteiro/ Em nome do amor”.
"A JUVENTUDE QUE DIZ QUE QUER TOMAR O PODER"

A maior parte da esquerda brasileira, entretanto, via com desconfiança esse anarquismo de classe média do 1º mundo; e com franca hostilidade as roupas coloridas, os cabelos desgrenhados, a utilização das  sacrílegas  guitarras elétricas.

Preferia os ritmos nativos, do samba carioca à riqueza musical nordestina; e o visual bem comportado, com os intérpretes se apresentando discretamente para não atrapalharem a compreensão da mensagem que os versos transmitiam. Era esta a tendência majoritária na eliminatória paulista.

Quando da reapresentação das cinco escolhidas para a final da fase brasileira, marcada para o Rio de Janeiro, Caetano Veloso, que já estava indignado com a não-classificação da música de Gil, explodiu de vez, face às ensurdecedoras vaias que o impediam de reapresentar adequadamente “É Proibido Proibir”.

Então, enquanto os Mutantes continuavam tocando uma trilha musical improvisada, Caetano fez um longo discurso, que foi depois lançado em disco com o título de "Ambiente de Festival". Eis alguns trechos:
"Mas, é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês têm coragem de aplaudir este ano uma música, um tipo de música que não teriam coragem de aplaudir no ano passado. Vocês são a mesma juventude que vai sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem.

Quem teve a coragem de assumir a estrutura do festival e fazê-la explodir (...) foi o Gilberto Gil e fui eu.

O problema é o seguinte: vocês estão querendo policiar a música brasileira.

Gilberto Gil está comigo pra nós acabarmos com o festival e com toda a imbecilidade que reina no Brasil. Nós, eu e ele, tivemos coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas estruturas. E vocês? Se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos".
O JÚRI MAIS INCOMPETENTE DA HISTÓRIA DOS FESTIVAIS

A finalíssima, no Maracanãzinho, iniciada no sábado (28 de setembro) e seguindo pela madrugada de domingo adentro, apresentou algumas músicas de qualidade superior. 

Como “O Sonho”, estréia daquele que seria um dos maiores nomes da MPB na década seguinte. O Jornal da Tarde (SP) se referiria ao ”menino Egberto Gismonti” como “um talento”, destacando a letra de “O Sonho” como a melhor dentre as inscritas por compositores que não atuavam em São Paulo, além da “muito boa harmonia e um ótimo arranjo”.

Os Mutantes compareceram com um trabalho de qualidade e impacto, “O Caminhante Noturno”, um dos ápices do seu início de carreira, com Rita Lee se apresentando fantasiada de noiva grávida (Arnaldo Dias Baptista foi de cavaleiro medieval e seu Irmão Sérgio, de toureiro). O sexto lugar não lhes fez justiça.

Toquinho e Paulo Vanzolini foram prejudicados pelo clima de festival, com platéia e júri tomados por emoções fortes, sem paciência para apreciar a sutileza e cristalina beleza de “Na Boca da Noite” (“Cheguei na boca da noite, parti de madrugada/ Eu não disse que ficava, nem você perguntou nada/ Na hora que eu ia indo, dormia tão descansada/ Respiração tão macia, morena nem parecia/ Que a fronha estava molhada”).

Vista retrospectivamente, a sua classificação em oitavo lugar, atrás de “Andança” (Danilo Caymmi e Edmundo Souto, 3º), “Passacalha” (Edino Krieger, 4º), “Dia da Vitória” (Marcos e Paulo Sérgio Valle, 5º) e “Dança da Rosa” (Maranhão, 7º) nos dá um testemunho eloquente da incompetência do júri mais vaiado da história dos festivais.

Outras injustiçadas: “Canção do Amor Armado”, concepção grandiosa de Sérgio Ricardo, relegada a um irrisório nono lugar; “Oxalá”, ótima elaboração de uma história de capoeiristas, de autoria de Théo de Barros; e “América, América”, épico com que César Roldão Vieira reverenciou a figura mítica de Che Guevara.
CHICO E SEU SABIÁ INTEMPORAL

Vaiadíssimas na final nacional, Cynara e Cybele
seriam aplaudidas ao vencerem a fase internacional
Bela e intemporal, "Sabiá" é de uma safra em que Chico Buarque parecia alheio ao ambiente nublado da política (há quem faça a leitura de que a canção aludia à futura volta dos exilados, mas tal interpretação parece meio forçada, fazendo mais sentido  a posteriori  do que no momento dos acontecimentos).

Após o sucesso estrondoso de "A Banda", ele insistiu na linha lírica e nostálgica, com "Carolina", "Bom Tempo" (para quem, cara-pálida?) e "Bem-Vinda", tornando-se, nos festivais, uma espécie de antítese da esquerda convencional e também da anarquia tropicalista.

Até Nelson Rodrigues, então o próprio arquétipo do reacionário, tinha palavras de elogio para Chico. Isto explica a vaia finalmente por ele recebida, depois de atravessar incólume vários festivais.

Não sem motivo, Chico Buarque se penitenciaria mais tarde, com a autocrítica “Agora Falando Sério” (“Agora falando sério/ Eu queria não mentir/ Não queria enganar/ Driblar, iludir/ Tanto desencanto/ E você que está me ouvindo/ Quer saber o que está havendo/ Com as flores do meu quintal?/ O amor-perfeito, traindo/ A sempre-viva, morrendo/ E a rosa, cheirando mal”).
De "Sabiá" sobrou este vídeo, já da fase internacional...

VANDRÉ E SUA PROFISSÃO DE FÉ

"Caminhando" foi composta numa fase terrível para Geraldo Vandré, que estava rompido com as emissoras de maior audiência junto ao público de MPB (TV Record e Rádio Jovem Pan), amargando uma desilusão amorosa, sendo hostilizado e  gelado  pelos estudantes de esquerda.

Fora-lhe muito danosa a publicação de uma foto no jornal Folha da Tarde (SP), na qual aparecia abraçado a Abreu Sodré, ajudando-o a escafeder-se do palco armado na praça da Sé, após ser apedrejado por manifestantes.

Governador de São Paulo por obra e graça da ditadura, Sodré tentara falar num ato comemorativo do 1º de maio, sendo surpreendido por uma reação organizada pelos movimentos operários do ABC e de Osasco, com o apoio dos estudantes.

Vandré era amigo do governador, que, inclusive, o esconderia mais tarde no próprio Palácio dos Bandeirantes, quando a repressão o perseguia. Mas, claro, preferia que essa ligação perigosa não se tornasse de domínio público. A mim e a alguns companheiros secundaristas, semanas depois, deu uma desculpa esfarrapada: “Estava bêbado. Não me lembro de nada do que fiz naquele dia”.

Devem-se às pressões que ele enfrentava, portanto, a comovente sinceridade com que reafirmou nessa canção os valores nos quais acreditava profundamente, à sua maneira romântica. Foi um Vandré machucado que subiu ao palco para cantar seu hino revolucionário, acompanhado apenas pelo próprio violão.

Talvez nem ele mesmo imaginasse o impacto que a "Caminhando" teria, acarretando-lhe tanta notoriedade quanto sofrimento. O certo é que, quando alguns já o davam como artisticamente morto, Vandré enfrentou e venceu o maior desafio de sua carreira. Por conta disto, passou definitivamente à condição de mito, mas foi destruído como pessoa.

"A VIDA NÃO SE RESUME EM FESTIVAIS" 

“Sabiá”, de Tom Jobim e Chico, na interpretação de Cynara e Cybele, foi a surpreendente vencedora.

O grande repórter Walter Silva, que  esquecera  um gravador ligado na sala de deliberação, revelou depois na Folha da Tarde (SP) que o presidente do júri, Donatelo Grieco, pressionou os demais jurados, advertindo-os de que os militares não aceitariam a vitória de “músicas que fazem propaganda da guerrilha”, como “Caminhando” e “América, América”.

A ameaça podia ser exagerada, mas o mal-estar causado na caserna por "Caminhando" foi bem real, por causa da estrofe "há soldados armados, amados ou não,/ quase todos perdidos, de armas na mão./ Nos quartéis lhes ensinam antigas lições,/ de morrer pela pátria e viver sem razões". 

Os militares chegaram a promover entre as tropas um concurso de versos que respondessem à "Caminhando", tendo Samuel Wainer sido pressionado (em troca de um favor recebido) a publicar no jornal Última Hora (SP) uma reportagem paparicando a medíocre poesia vencedora.

Quando a preferida do público foi anunciada em segundo lugar, o Maracanãzinho explodiu numa monumental vaia (a maior da história dos festivais), entremeada de gritos de “Vandré!” e “é marmelada!”. Tom depois comentou com Chico, que escapou da saia justa por estar em viagem pela Europa: "Foi como se o Corcovado tivesse caído sobre mim".

Mesmo distante, Chico sentiu duramente o golpe. Iniciava-se nesse momento a guinada que o levaria a tornar-se o principal expoente artístico da resistência à censura na década seguinte.

Havia motivo para a indignação da platéia. Reprimindo uma manifestação de rua, soldados tinham submetido estudantes a terríveis humilhações (chegaram a urinar sobre os jovens rendidos e a bolinar as moças).

Isto despertou indignação generalizada na cordialíssimacidade maravilhosa. O FIC aconteceu logo depois e os cariocas adotaram "Caminhando" como um desagravo. Vandré teve muito mais torcida lá do que em São Paulo.

Por mais que tentasse, ele não conseguiu convencer o público a respeitar Chico, Tom e as duas meninas do Quarteto em Cy, direcionando sua ira apenas contra o "júri que ali está". E, com clarividência, proferiu a frase célebre: “A vida não se resume em festivais”. Só não adivinhou que seria uma das primeiras vítimas da vida pós-festivais, quando os holofotes da arte não conseguiriam mais espantar as trevas.

Em alguns bairros da Zona Sul, as pessoas saíram às janelas quando Vandré bisava a “Caminhando” e cantaram junto, a plenos pulmões, descobrindo uma comunhão cimentada pela dor e revolta – que tão cedo não se repetiria, pois logo baixou sobre o País a paz dos cemitérios.
...mas de "Caminhando", todos os vídeos foram destruídos.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

NÃO ADIANTA TENTAR VENCER NO FRONT DA COMUNICAÇÃO UMA GUERRA QUE ESTÁ SENDO PERDIDA NO FRONT ECONÔMICO

Por Celso Lungaretti - Jornalista e escritor

Meu artigo deste sábado (01/08), previsivelmente, foi mal recebido em espaços petistas, pois não entrou no espírito da autêntica tempestade em copo d'água que eles estão fazendo a partir de um episódio menor --principalmente se comparado ao terrorismo que já grassou por aqui.



Nos anos de chumbo, a direita executou atos de terrorismo duros, que chegaram a causar danos de monta e a ferir/assassinar pessoas. Houve sequestros e torturas praticados por paramilitares, houve invasão de teatro para espancar atores, houve envio de cartas-bombas para instituições e figuras notórias de esquerda (uma delas matou Lyda Monteiro da Silva, senhora de 59 anos, funcionária da OAB/RJ), houve incêndios de bancas de jornais em plena luz do dia, etc. O pior de todos, se não malograsse, teria sido o do Riocentro, cujas vítimas provavelmente seriam milhares.

Partiram de gente organizada. Na década de 1960, principalmente do CCC, cujos quadros não integravam oficialmente o esquema de repressão, mas tinham suas atividades toleradas e até estimuladas pela ditadura. Na de 1970, dos agentes do DOI-Codi que, por baixo do pano, queriam sabotar a abertura política do déspota esclarecido Ernesto Geisel.


Já os atentados ao Instituto Lula e ao Sintusp não provieram necessariamente de profissionais; o contrário é mais plausível.


Bombas caseiras, até as torcidas organizadas de futebol sabem fabricar. E os que invadiram o Sintusp podem haver sido meros fascistinhas da USP à cata de documentos comprometedores, que na saída teriam aberto as torneiras do gás sem se darem conta dos riscos inerentes.

Nunca devemos magnificar episódios desse tipo sem termos certeza de que sejam parte de uma verdadeira escalada terrorista e não ações isoladas de aloprados de direita. Lembremo-nos da fábula do menino que gritava lobo!...

O chocante é que o atentado ao Instituto Lula esteja sendo tão superdimensionado (inclusive pela Dilma) e o do Sintusp haja sido totalmente ignorado (inclusive pela Dilma). Ambos se equivalem quanto aos resultados (poucos danos, ninguém ferido), mas no da USP o prédio poderia ter ido pelos ares exatamente quando os funcionários estivessem entrando para mais um dia de trabalho.


Se os petistas houvessem praticado a solidariedade para com os outros agrupamentos de esquerda (um valor arraigado entre nós nos bons tempos que ficaram para trás...), estariam recebendo mais solidariedade agora. A empáfia é péssima conselheira.

De resto, torno a repetir, chegou a hora de os governistas desistirem de tentar romper o isolamento político tirando da cartola os mesmos coelhos de sempre: encontros engana-trouxas com governadores, alarmismo para poderem posar novamente de mal menor, retórica fantasiosa de prometer o começo da recuperação econômica já para este ano quando até as pedras sabem que a coisa vai piorar muito antes de melhorar, etc.

O que está afundando cada vez mais o Governo Dilma é o empobrecimento dos brasileiros. E não será a partir de uma posição de absoluta fragilidade que ele conseguirá implantar pra valer o arrocho fiscal --que, aliás, não tem dado certo ultimamente em lugar nenhum do mundo, mas sim destruído as nações que caem nessa esparrela.

A contagem regressiva está em curso e a única forma de Dilma conservar o mandato é descartando Joaquim Levy e seu receituário neoliberal. Se a teimosia e a arrogância a continuarem cegando, morrerá abraçado com ele.

sábado, 20 de dezembro de 2014

OPERAÇÃO CONDOR - DOCUMENTÁRIO


A união de seis países – Uruguai, Paraguai, Argentina, Bolívia, Chile e Brasil, então em regime de ditadura militar, ficou conhecida como Operação Condor. Oficialmente criada em uma reunião no Chile, em 1975, a ação conjunta visava a reprimir grupos de esquerda que contestavam as ditaduras do Cone Sul. A série de reportagens mostra a história de uma militante uruguaia que escapou de um destino trágico, e também o drama de um militante catarinense sequestrado na Argentina e que nunca mais foi visto; a polêmica sobre a morte do ex-presidente João Goulart; a história do gaúcho que lutou ao lado de Che Guevara e sumiu na Bolívia; e, finalmente: a Comissão da Verdade vai investigar a aliança entre as ditaduras do continente na década de 70. Com quatro reportagens, (todas neste vídeo) o programa conta um pouco mais dessa história, ainda desconhecida de grande parte do país. Historiadores, parentes de vítimas, pesquisadores e documentos inéditos mostram como a Operação Condor foi decisiva para a manutenção dos regimes de exceção.


quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

SAIBA POR QUE A "FOLHA" FICOU TÃO INCOMODADA COM O RELATÓRIO DA CNV - Comissão Nacional da Verdade

Por Celso Lungaretti - Jornalista e escritor

Despertando imensa indignação em 2009 
Quem conhece o viés conservador/reacionário dos jornalões brasileiros, não se surpreendeu com a defesa incondicional que os três principais (O Estado de S. Paulo, a Folha  de S. Paulo eO Globo) fizeram da indefensável anistia de 1979, cuja revisão acaba de ser recomendada por alguns integrantes da Comissão Nacional da Verdade e por dois ministros do Supremo Tribunal Federal.

Ao defenderem-na, tais tentáculos da indústria cultural omitem que ela não passou de um mostrengo jurídico, a mera imposição da lei do mais forte sobre uma oposição expurgada (por frequentes cassações dos mandatos de seus parlamentares) e chantageada (a libertação de centenas de presos políticos e a permissão de volta dos exilados dependiam de sua anuência a tal grotesquerie). 

Assim como a presidenta Dilma Rousseff, entoam em uníssono a cantilena do respeito aos "pactos e acordos que levaram o país à redemocratização", sem jamais esclarecerem que o pacto se deu entre Fausto e Mefistófeles, e que o acordo foi selado por quem mantinha reféns com quem ansiava por vê-los livres.

A ONU, a OEA e o Direito internacional desconsideram quaisquer simulacros de anistias gestados em plena vigência do arbítrio, com o objetivo de fornecerem uma espécie de habeas corpus preventivo para agentes do Estado que estupraram os direitos humanos (e para os seus mandantes).
Semeando a confusão em 1964
Também não causa surpresa nenhuma o fato de que, dos três, seja o mais envolvido com as atrocidades da ditadura quem mais se esforce para desacreditar o relatório final da CNV.

Assim, em editorial de 12/12/2014, Página virada (vide íntegra aqui), a Folha sustentou uma tese das mais estapafúrdias e ofensivas para os brasileiros, qual seja a de que o axiomático para os países civilizados não vige nestes tristes trópicos:
"Não é sensato nem desejável que compromissos internacionais assumidos pelo Brasil, determinando que a tortura é crime imprescritível, possam sobrepor-se à soberania jurídica nacional quando se trata das próprias fundações do Estado de Direito entre nós"
Ou seja, o editorialista quis fazer-nos crer que apurarmos a responsabilidade por crimes hediondos e punirmos os culpados abalaria as "próprias fundações do Estado de Direito entre nós". Quem mais estaremos impedidos de submeter à Justiça? Os grandes traficantes? Os exploradores da pornografia infantil? Os assassinos seriais?

Será que este disparate provém do mesmo profissional que, em 17/02/2009 (videaqui), qualificou de ditabranda o despotismo vigente no Brasil entre 1964 e 1985?

Para que a Folha do último dia 12 tivesse jeitão de sexta-feira 13, não poderia faltar a contribuição do Vlad Dracul do colunismo político, Reinaldo Azevedo. Em Comissão Nacional da Farsa (vide aqui), ele repetiu a falácia predileta dos ogros da ditadura e dos cuervos por eles criados, a de que algozes e vítimas são equiparáveis:
"Os assassinatos cometidos por terroristas não ocuparam o tempo dos donos da verdade. Segundo eles, são 434 os mortos e desaparecidos. As 120 pessoas eliminadas pelo terrorismo viraram esqueletos descarnados também de memória".
Colaborando com a repressão em 1970
Quais terroristas, cara pálida? Os inventados nos anos de chumbo pelos serviços de Guerra Psicológica das Forças Armadas, ao aplicarem um rótulo descabido a quem justificadamente pegou em armas contra uma ditadura?

Tratou-se de uma ignominiosa manipulação, que visava a efeitos meramente propagandísticos. Até as pedras sabem que os resistentes jamais pretenderam insuflar o terror, mas sim libertar o País de tiranos --os quais, eles sim, recorreram desmedidamente ao terrorismo (de estado) para manter o povo brasileiro amedrontado e subjugado.
Vale repetir: a resistência à tirania é um direito inalienável dos cidadãos, que remonta à Antiguidade e hoje ninguém mais contesta no mundo civilizado. Então, não é o caso de, simplesmente, compararmos atos de violência com outros atos de violência, como se fossem grandezas equivalentes.

A violência perpetrada por agentes do Estado, visando à perpetuação de um governo ilegítimo (pois resultante de uma quartelada), tem uma caracterização jurídica diametralmente oposta à da violência praticada por civis que, em condições de extrema inferioridade de forças, resistiam a tal despotismo.

Ademais, a violência dos agentes do Estado foi relevada, estimulada e acobertada, permanecendo impune até hoje, enquanto a violência dos resistentes já foi punida nos anos de chumbo --da forma mais arbitrária e com rigor extremo, quase sempre descambando para a bestialidade.

RA deveria estar-se mirando no espelho, quando escreveu que "esse relatório é um lixo moral"...

Por último, é alogiável que a Folha de 15/12/2014, ao dar voz aos familiares de vítimas da esquerda (vide aqui), tenha apresentado os dois lados do caso do empresário Henning Albert Boilesen:
Retaliada pelos resistentes em 1971
  • o compreensível desabafo do filho (segundo quem se tratava de "um pai de família que, certo dia, despediu-se da mulher, saiu para trabalhar e levou 25 tiros na cabeça de terroristas de esquerda"); 
  • e também a informação de que "o relatório da Comissão Nacional da Verdade afirma que Boilesen era um empresário que arrecadava recursos para o aparato de repressão e que chegou a importar um aparelho de choques e a assistir a sessões de tortura".

Poderia explicar melhor, claro. Boilesen não foi um financiador da repressão qualquer, mas sim o principal deles. Ao criarem a Operação Bandeirantes, as Forças Armadas não assumiram de imediato a paternidade do monstro, deixando que permanecesse durante o segundo semestre inteiro de 1969 na semiclandestinidade: não tinha existência legal, mas mandava mais do que o Deops, ao qual institucionalmente competia a repressão aos subversivos.

Então, foi uma vaquinha organizada por Boilesen junto a seus amigos (empresários fascistas) que bancou o funcionamento da Oban, pois, naquele tempo, era menos usual o desvio de recursos orçamentários para outras finalidades. Esta situação persistiu até 1970, quando os militares instituíram o DOI-Codi (que absorveu a Oban,legalizando-a...).

E foi também graças aos esforços de Boilesen que os órgãos de repressão passaram a contar com generosas doações para premiarem os torturadores que capturassem ou matassem os membros da resistência. Havia até uma tabelinha de preços por cabeça, à maneira dos cartazes de procurado vivo ou morto que vemos nos filmes de faroeste.

Qual movimento de resistência de qualquer país e de qualquer época que não justiçaria alguém como Boilesen, o homem que alimentava e açulava os pitbulls responsáveis por tantas mortes e torturas de seus quadros?
Manifestação diante da delegacia que sediou a Oban

De qualquer forma, a Folhapelo menos fez constar, ainda que sucintamente, o outro lado referente ao Boilesen. Só esqueceu do outro lado referente a si própria, pois, no mesmíssimo capítulo referente ao Boilesen, o relatório final da CNV também a cita:
"Ficou conhecido o banquete organizado pelo ministro Delfim Netto no Clube São Paulo, antiga residência da senhora Viridiana Prado, durante o qual cada banqueiro, como Amador Aguiar (Bradesco) e Gastão Eduardo de Bueno Vidigal (Banco Mercantil de São Paulo), entre outros, doou o montante de 110 mil dólares para reforçar o caixa da Oban.
Ao lado dos banqueiros, diversas multinacionais financiaram a formação da Oban, como os grupos Ultra, Ford, General Motors, Camargo Corrêa, Objetivo e Folha (grifo meu)".
E, mais adiante:
"...a pesquisadora Beatriz Kushnir constatou a presença ativa do Grupo Folha no apoio à Oban, seja no apoio editorial explícito no noticiário do jornal Folha da Tarde, seja no uso de caminhonetes da Folha para o cerco e a captura de opositores do regime".
Vale lembrar, ainda, que a Folha foi o grande jornal mais tímido no repúdio ao sórdido papel histórico que desempenhara nos anos de chumbo.

A família proprietária do Estadão jamais escondeu sua participação no golpe de 1964, mas se distanciou dos militares quando estes descumpriram a promessa de devolver o poder saneado aos civis e, ao invés disto, radicalizaram a ditadura. A partir de então,O Estado de S. Paulo e o Jornal da Tarde mantiveram postura exemplar, denunciando o arbítrio e se tornando alvos preferenciais da censura. 

Os Mesquitas mostraram até coragem pessoal em algumas situações, como quando orientaram os seguranças da casa a impedirem que os agentes do DOI-Codi sequestrassem um jornalista no ambiente de trabalho  (o dito cujo acabou saindo do prédio no porta-malas do carro do patrão e sendo oculto no sítio do mesmo).

O Globo só deu a mão à palmatória em 31/08/2013 (vide aqui), mas, pelo menos, o fez ostensivamente.

Já a Folha, torcendo para que passasse o mais despercebido possível, inseriu este texto num caderno comemorativo do seu 90º aniversário, acrescentado à edição de 19/02/2011, mais como álibi para quando alguém a acusasse de jamais ter feito a indispensável autocrítica. 

Passaria despercebido em meio ao auê louvaminhas para si própria, caso a ombudsman não tivesse aludido a ele na sua coluna dominical, frustrando a matreirice. Eis o que o jornal sorrateiramente admitiu, entre outros pecados:
"...A partir de 1969, a 'Folha da Tarde' alinhou-se ao esquema de repressão à luta armada, publicando manchetes que exaltavam as operações militares.
A entrega da Redação da 'Folha da Tarde' a jornalistas entusiasmados com a linha dura militar (vários deles eram policiais) foi uma reação da empresa à atuação clandestina, na Redação, de militantes da Ação Libertadora Nacional, de Carlos Marighella... 
...Segundo relato depois divulgado por militantes presos na época, caminhonetes de entrega do jornal teriam sido usados por agentes da repressão, para acompanhar sob disfarce a movimentação de guerrilheiros. A direção da Folha sempre negou ter conhecimento do uso de seus carros para tais fins".
A última frase é daquelas que outrora, invariavelmente, despertavam o comentário "acredite quem quiser!".
Então, faz todo sentido que a Folha, mais de quatro décadas depois, continue tentando relativizar o que não passou de mais um capítulo da eterna luta da civilização contra a barbárie. Como então se alinhou com os bárbaros, está pisando em ovos até agora.

Mas, abstendo-se de informar aos seus leitores que nesta questão não é parte isenta, mas sim interessada, deveria ao menos ser um pouquinho mais discreta. Está dando na vista.

sábado, 31 de maio de 2014

"FRACASSAMOS MISERAVELMENTE EM PUNIR TORTURADORES"

Por Celso Lungaretti - Jornalista e escritor

Em sua coluna deste sábado (31) na Folha de S. Paulo (clique aqui)para lê-la na íntegra), o articulista Hélio Schwartsman tocou em aspectos importantes sobre os crimes impunes da ditadura militar:
"...trancafiamos criminosos na cadeia para impedir fisicamente que repitam suas malfeitorias e para dissuadir outras pessoas de imitá-los. Quando o tempo transcorrido entre delito e castigo é muito grande, nenhum desses propósitos se aplica mais aos réus. Eles não poderiam sair por aí perseguindo e torturando opositores do regime nem que quisessem, porque a história seguiu seu curso e já não há mais nem regime a defender nem opositores a ameaçá-lo. Também parecem irrisórias as chances de alguém emplacar aqui uma nova ditadura militar.
Mesmo para os que creem em noções mais metafísicas de justiça, é complicado defender punições com mais de 40 anos de atraso. Elas já não atingem os autores dos delitos, mas pessoas totalmente distintas. A essa altura, todos os átomos que compunham o criminoso foram reciclados. As ideias também, espera-se.
A constatação, algo sombria, é que nós, como sociedade, fracassamos miseravelmente em punir torturadores..." 
Schwartsman veio ao encontro de uma posição que sustento desde meados de 2008: o momento da punição dos verdugos da ditadura militar era o da redemocratização, mas a tibieza de sucessivos governos permitiu que a justiça não se fizesse de 1985 até hoje, quando encarcerar ou empobrecer anciães acabaria sendo apenas uma retaliação impiedosa, igualando-nos àqueles que tanto desprezamos. 

Já lá se vão quase seis anos que passei a reivindicar, ao invés dajustiça punitiva que deixou de fazer sentido em função de incontáveis omissões e pusilanimidades, a justiça histórica: que o Estado brasileiro desse uma palavra definitiva sobre quem foi criminoso e quais os crimes que cometeu, condenando tais vilões ao opróbrio eterno, além de consagrar categorica e definitivamente o direito que todo cidadão tem de pegar em armas contra tiranias.

Foi o caminho que o saudoso Nelson Mandela apontou: os ogros do apartheid foram perdoados, mas tiveram de admitir seus dantescos crimes diante de toda a nação sul-africana, ficando com o estigma da monstruosidade impresso em suas faces e acrescentado para sempre a seus nomes. Jamais puderam, como fazem os ogros daqui, celebrar efemérides infames, nem tentar justificar para as novas gerações as atrocidades que cometeram. No fundo, tornaram-se párias pelo restante de suas existências e além, até o fim dos tempos. Como nos fez falta um Mandela! 

Com enorme e indesculpável atraso, estamos tentando agora fazer algo nesta linha. Resta saber se o relatório final da Comissão Nacional da Verdade estará à altura da missão histórica de que está incumbida. Há motivos para temermos o contrário:
  • os veteranos da luta armada, que representam o contingente amplamente majoritário de vítimas fatais dos torturadores, ficaram de fora da Comissão porque foi engolida a chantagem da bancada evangélica no Congresso (ameaçou embargar a aprovação da lei que instituía o colegiado);  
  • os guardiães da mentira conduziram até agora as investigações e escavações no Araguaia para onde nada será encontrado, debochando tanto da CNV quanto da decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos;
  • duas testemunhas-chave foram assassinadas sob as barbas da Comissão;
  • a própria decisão governamental de adiar a divulgação do relatório do colegiado para depois da eleição mostra a preponderância das conveniências políticas sobre a justiça histórica (desperdiçou-se a oportunidade única de colocar o festival de horrores dos anos de chumbo em evidência no exato instante em que se completavam os 50 anos da quartelada!!!).
Por último, Schwartsman parece-me estar superestimando uma mera escaramuça: aceitação da denúncia contra os assassinos de Rubens Paiva não assegura que eles venham a ser condenados. Enquanto não for revogada a anistia imposta de 1979, que igualou os carrascos a suas vítimas, a tendência é de as instâncias superiores continuarem rezando por tal cartilha. Nada indica que vá ser este o primeiro processo criminal contra torturadores a transpor a linha de chegada.

Chances reais tem outro, o dos terroristas do Riocentro, porque quase produziram em morticínio em larga escala depois da promulgação da Lei da Anistia, não estando, portanto, cobertos por seu guarda-chuva protetor.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

ACONTECEU NO DIA 7 DE SETEMBRO

E, não deu pra esquecer! 

        Todo dia 7 de setembro é motivo de festejos e alegrias para o povo brasileiro. Mas, este dia sete de setembro de 2007 me remeteu ao passado e fez com que eu não deixasse de comentar aquilo que durante muitos anos ficou reprimido nos meus sentimentos, dentro da minha cabeça e no gene mental da minha consciência política. 


        Hoje eu não tive coragem de ligar a televisão, o radio, ou de ler jornais. Decididamente eu não estava querendo saber nada sobre as comemorações do dia da Independência do Brasil.

        Todos nós temos um dia que marca a nossa vida, seja lá qual for o motivo, e eu não sou diferente de ninguém. Por isso decidi trazer a tona esta historia que vivenciei de corpo presente nos idos dos anos 70. 

        Era o ápice da Ditadura Militar e dos seus projetos mirabolantes de construção da Transamazônica, das usinas de Itaipu bi-nacional etc.

        Na Indochina, os Vietcongs estavam próximos de imporem uma derrota humilhante aos invasores norte americano. E, na contramão de tudo, os russos buscavam a implementação da “Détente” enquanto os americanos apostavam no sucesso do SALT II. Era a chamada “Guerra Fria” em constante ebulição.


        Neste sentido, os Vietcongs avançavam para a vitória final que alteraria sensivelmente a formatação da geopolítica no planeta. Suas técnicas de luta em guerra de guerrilhas, de vencer o inimigo pela exaustão e na luta permanente, estavam sendo disseminadas e aplaudidas, mas também temidas por vários Exércitos do mundo inteiro.

        O todo poderoso Exercito norte americano sentiram na pele e foram à cobaia destes experimentos. Aqui no Brasil, o nosso Exercito comandado pelo CIGS (Centro de Instrução e Guerra na Selva) de Manaus/AM saiu na dianteira aperfeiçoando e associando estas novas técnicas de guerrilhas com as já existentes e, aplicou a da guerrilha dos Vietcongs no uso de “Armadilhas Punji”. Na verdade, isto caiu como luvas num país de grandes florestas como a nossa Amazônia, e de dimensões continentais como o Brasil. 



        Não havia um único exercício militar de Sobrevivência, Assalto e Guerrilhas que eu tenha participado, e que não tivéssemos praticado as técnicas Vietcongs com o uso de armadilhas de “Estacas Punji” do tipo “Teto Baiano”, “Muro Malaio”, “Fura Cara”, “Quebra Canelas”, “Tiro Amarrado” etc.


        No Brasil desde o inicio dos anos 70 estava aumentando a resistência popular contra a Ditadura Militar. No mesmo período, o Exercito vinha ampliando a criação dos Batalhões de Infantaria de Selva, na formação de novas Companhias de Operações Especiais, de Batalhões de Pára-quedistas e de Destacamentos de fronteira.


        Na verdade, o “gene” proliferador dessa expansão estratégica era representado por oficiais e graduados formados nos Cursos de Comando, Sobrevivência e Guerra na Selva do CIGS, nas Brigadas Pára-quedista do Rio de Janeiro e também nos Grupamentos de Fuzileiros Navais da Marinha de Guerra. 

A Aeronáutica dava suporte em todas as operações realizadas.

        Durante esta expansão o Governo Militar aprofundava a repressão contra os grupos de resistência armada no Araguaia e, também estabelecia uma forte ação contra as células da resistência urbana. Com esta investida, a situação torna-se explosiva em várias unidades militares.


        E foi justamente neste período da historia que me vi dentro do epicentro político e ideológico ali estabelecido. Na unidade militar onde eu servia, aquele sete de setembro de 1973 tinha sido um dia atípico em todos os sentidos e, fatalmente tornara-se um prelúdio do que viria acontecer.

        O nosso dia começou as 03h30min da manhã e parecia que nunca acabaria, foi uma eternidade. Acordamos no horário conforme havia sido programado no dia anterior. 

        Rapidamente e de forma ordenada, tratamos de tomar banho, fazer a barba e vestir nosso uniforme. Oficiais, graduados e praças se vestiam com coturnos especiais e impermeáveis de couro e lona com sobre-sola de aço, uniforme camuflado ou verde oliva, com suas boinas e emblemas estampados.


        Na verdade, de acordo com a especialidade de cada um dentro daquela unidade de Operações Especiais. 

        O entusiasmo da maioria era visto na velocidade dos preparativos.

        Esta era a 2a Companhia de Operações Especiais do 18o Batalhão de Infantaria Motorizada (Porto Alegre/RS) conhecida naquele período da história do Brasil como a melhor e mais preparada unidade de elite do III Exército, que abrange os Estados do RS, SC e PR. 


        Aquele dia aparentemente pareceria ser um dia normal como qualquer outro, exceto por ser o dia da comemoração da Independência do Brasil, o que pra nós na condição de cidadão seria motivo de orgulho em poder participar.


        Enfim, estávamos todos preparados para o evento que como sempre era mais uma oportunidade das Forças Armadas do Brasil, e do Governo Militar de mostrarem a sua organização, disciplina e poderio bélico.


        Alias, este era um dia tipicamente de atividades cívico-militar que faria uma boa propaganda da coesão e do controle do país pela Ditadura. 


E, há muito tempo eu já estava posicionado contra aquele estado de coisas (sic). Na vida militar, ninguém tem hora certa para dormir ou acordar a seu bel prazer como na vida civil. Tudo é feito com muita disciplina, e o militar tem que estar sempre preparado pra qualquer situação, a qualquer momento, e em qualquer lugar.



        Naquele dia 7 de setembro de 1973 foi muito diferente. Muitos dos nossos amigos e companheiros de farda demonstraram não estarem preparados para aquilo que internamente teria sido apenas uma fatalidade? Após as viaturas estarem simetricamente organizadas, fizemos uma ultima revista nos armamentos e nos apetrechos que usaríamos no desfile militar.


        Essa é uma regra a ser seguida por qualquer unidade, e por se tratar de uma especializada em contra guerrilhas e de assalto, fazíamos o uso continuo de munição real num estado permanente de prontidão.


        Aos integrantes das outras unidades, este quesito era uma prerrogativa somente dos chamados “soldados do núcleo base ou prontos” ou quando estivessem em serviço. No nosso caso, o mais novo integrante tinha no mínimo dois anos de serviço dentro da força.


        Seguindo no relato, já era cerca de 05h30min e após as viaturas iniciarem o deslocamento, pude observar atentamente o tamanho do aparato de combate ali concentrado. Era fenomenal a quantidade daquele contingente sui gêneris e, fortemente armados e municiados que integrava a 2a Cia OP.


        Na carroceria de cada caminhão, por cima da cabine, estava postada num mono pé uma metralhadora Browning ponto 50 de alto poder de fogo (suficiente para derrubar helicópteros ou aeronaves de pequeno porte), e que estavam municiadas com cerca de mil projeteis.


        Cada elemento de nossa viatura dispunha de um FAL (Fuzil Automático Leve) com 60 cartuchos, sendo 20 no carregador da arma e quarenta no cinto VO. Outros elementos dispunham do FAP (Fuzil Automático Pesado), ou carregavam consigo os morteiros 81 mm com placas base e granadas.


         Havia também o transporte de dois canhões 57 mm. Os oficiais e os graduados portavam as metralhadoras Beretta 9 mm (recém incorporadas), e pistolas Colt 45.

         Ainda compondo o arsenal individual e básico, uma faca de trincheira, duas granadas defensivas ou ofensivas e uma fulmigena, além de ração operacional para dois dias de combate. O nosso comboio era formado por 10 caminhões, sendo 8 de transporte de tropas, 1 de combustível e outro de suprimentos.


        Além disso, acompanhava uma viatura do tipo “pipa d’água”, mais 4 pick-up’s armadas com uma    metralhadora Browning ponto 50, cada uma, ou as recém incorporadas e poderosíssimas metralhadoras MAG 7,62 (fabricação belga 1972), e ainda mais dois jipes, sendo um com o comandante da companhia e outro de apoio e comunicações.

        Também pude observar a diversidade de armamentos em outras viaturas do Batalhão e, dentre estes, eu pude visualizar em algumas viaturas da 1a Cia de fuzileiros (tropa regular) as já obsoletas, mas mortíferas metralhadoras “Madsen” calibre 7,62 (padrão OTAN).


        Estas metralhadoras de fácil transporte foram usadas em guerrilha e também como armas antiaéreas por pequenos grupos de combate em vários conflitos pelo mundo afora, incluindo aí a guerra de Biafra na África. 


        Essas armas faziam parte do arsenal de muitos Exércitos do Cone Sul, e dispunham de um carregador na parte superior e um espalha chama que lembra um funil na boca do cano de saída.

         Passados alguns minutos de nossa saída pelo portão das armas nos fundos da unidade, entramos diretamente na Avenida Ipiranga. Já estávamos na altura da antiga fabrica de moveis Santa Cecília, e no meio de uma curva acentuada, foi quando comentei ao meu amigo Lima o seguinte:


      - Pô Lima, ta faltando mesmo é alguma ação de verdade, quem sabe alguns tirinhos pra gente queimar a adrenalina né?


        E sem se mexer do lugar, o meu amigo Lima respondeu:
- É mesmo Carlos Alberto, ia ser muito legal, isso ia agitar a rapaziada he he.


        Não demorou mais que 10 segundos do nosso comentário quando escutei a primeira metralhada, imediatamente me abaixei num instinto de sobrevivência, o Lima fez o mesmo, mas outros, alguns eu pude ver, permaneceram imóveis. É tudo muito rápido e de impulsos automáticos.

         Num primeiro instante pensei que estávamos sendo atacados? Fiquei confuso por fração de segundos quando visualizei de onde viam os tiros, vi claramente a aquele ponto de fogo em nossa direção. A metralhada partia do topo de um caminhão da 1a Cia de fuzileiros que vinha atrás do nosso último caminhão.

          Talvez por sorte de estarmos exatamente no ponto alto da curva é que escapamos de ser atingidos, mas o mesmo não aconteceu com o caminhão que estava na nossa frente. 


        Em todos os treinamentos que havia recebido durante a minha passagem pelo Exercito, aquela situação me levaria a responder instantaneamente, aliás, a todos nós. Imediatamente várias viaturas de nossa companhia frearam, e outras ficaram quase que de lado em posição de combate.

         Cheguei a preparar o meu FAL em posição de tiro, e com a intenção de pular da viatura, quando repentinamente escutei uma gritaria horrenda e generalizada. O meu amigo Lima estava incrédulo diante do acontecido. Num primeiro instante não conseguia falar nada, ficou com os olhos esbugalhados e cara de pavor com o que acabara de ver.

        Os gritos vinham do caminhão de nossa companhia que estava bem a nossa frente, havia muitos companheiros estirados na viatura e gemendo de dores, completamente ensanguentados. Num passar de segundos escutei a voz de comando do Tenente Siqueira (Oficial R/1), um jovem carioca de 24 anos que comandava nosso pelotão na companhia, e que bem alto gritava: Ninguém desce das viaturas que já estamos iniciando os procedimentos, e fiquem calmos que está tudo sobre controle?

        Neste momento eu vejo o meu amigo Soldado Rosa nos braços do Tenente Siqueira e auxiliado pelo Sargento Lopes carregando nosso companheiro com o peito todo ensanguentado e, o que senti naquele momento é que ele já não estava mais aqui. O Rosa era um sarará bem forte, se destacava muito nas missões que eram confiadas a ele, era o tipo de sujeito militarmente de confiança.

        Participávamos juntos dos treinamentos de combate corpo a corpo e dos ensinamentos de Karatê do estilo Shotokan que recebíamos na 2a Cia OP do então campeão mundial da modalidade no ano de 1972, o mestre paulista e professor Luis Watanabe que estava radicado em Porto Alegre, e tornara-se instrutor oficial de varias unidades de elite do Exercito. 



        O mestre Watanabe tinha varias academias em Porto Alegre, e eu cheguei a treinar algumas vezes numa dessas que ficava no Bairro Cidade Baixa, muito próximo da Avenida João Pessoa, mas não estou lembrado do nome da rua, (Rua Lima e Silva - lembrei-me recentemente).

        O nosso companheiro Rosa também tinha o seu lado descontraído, muitas vezes nós saiamos juntos com outros companheiros para aquilo que hoje a rapaziada chama de “balada”. O camarada Rosa era um sujeito muito extrovertido. Fizemos parte duma turma num cursinho preparatório ao Curso de Formação de Sargentos. Essas lembranças eu guardo até hoje.

        Logo atrás da tentativa de salvarem o meu amigo, passou correndo outro grupo de oficiais e Sargentos de nossa Cia carregando mais uns feridos, e neste momento também reconheci o meu amigo e Soldado Paixão (nome de guerra) com o pescoço e o rosto virado (sic) em puro sangue, o SD Paixão ainda se mexia e gemia muito. Soube mais tarde que o SD Paixão tinha levado um tiro que tirou um pedaço do seu queixo e outro transfixou o seu braço esquerdo.
 
         A seguir várias viaturas de pequeno porte se enfileiraram e saíram em disparada levando os diversos feridos e os prováveis mortos em direção ao HGPA (Hospital de Guarnição de Porto Alegre). 


Apesar da confusão e do estado emocional que vivia naquele instante, consegui observar o grau de organização e disciplina que tínhamos apresentado diante daquela situação.

          Aquela era uma situação inimaginável por todos nós e do qual jamais havíamos previsto, ou seja, sofrer um ataque de forças supostamente amigas? Nosso comboio ficou parado não mais que 10 minutos, foi quando recebemos ordens de prosseguir em direção ao local do desfile. Foi muito difícil ver e, ter que suportar o estado emocional de nossa tropa frente ao acontecido.

         Nunca tinha visto e, mesmo em outras situações semelhantes, ter que desfilar e compartilhar com os olhos cheios de lagrimas o sofrimento coletivo pela perda prematura de amigos.

        O dever imposto pela circunstancia nos colocava perfilados de forma mecânica diante de uma população alegre e ansiosa por assistir o desfile militar. 



         Não se comentava nada do acontecido, que, aliás, nem era permitido em conformidade com o RGE (Regulamento Geral do Exercito).


          A imprensa escrita ou televisiva local não divulgou nenhuma linha sequer a respeito do fato.

         Os oficiais e comandantes de pelotões de nossa companhia e das outras que compunham o 18o Batalhão de Infantaria Motorizada estavam tão incrédulos quanto ao restante da tropa, e agiam como se nada tivesse acontecido.

         Mas ninguém é de ferro, e de volta ao desfile logo após deixar nossos companheiros aos cuidados da corporação médica, eu pude observar o Tenente Siqueira fazendo um esforço descomunal para esconder as lágrimas, afinal, ele conhecia cada um de seus comandados.

          O desfile continuou com os aplausos da população que enchia todos os espaços possíveis para assistir a nossa passagem e festejar o dia da independência do país. De volta ao 18o Batalhão e durante a formatura da tropa, os murmúrios começaram de forma sutil.

        O Coronel Brochado (sic) comandante do Batalhão fez um discurso elogioso ao nosso comportamento, mas nada nos confortaria ou acalmaria. Sobre o ocorrido, seus argumentos não me convenceram, ou seja, explica, mas não justifica.

Ninguém podia comentar o acontecimento, mas segurar a boca e a ansiedade da tropa era praticamente impossível.

         As primeiras informações corriam de maneira dispersa, mas eu particularmente só queria saber o nome do elemento que estava no comando daquela “Metralhadora Madsen” que, no meu entendimento e de outros companheiros, fora postado propositadamente para nos provocar o maior número de baixas possíveis, que alias, aparentemente seria fácil dissimular.

         Uma das maneiras possivelmente, era de interpretar como se fosse algum acidente provocado pelo manuseio de um praça aparentemente despreparado. Mas, Isto não me convenceria o suficiente pra que eu tivesse este entendimento, já que ali naquele Batalhão, estava a Companhia número 1 do III Exercito e estávamos todos preparados como verdadeiros cães de guerra.

          A sorte me ajudou, e eu consegui ver a cara do assassino dos meus amigos dentro da 2a Seção (de informações e contra informações) do Batalhão. Ele conversava com o oficial encarregado do IPM, (Inquérito Policial Militar) e eu o reconheci.

         Este sujeito já era um soldado pronto, eu já tinha cruzado por ele em algum lugar dentro do quartel, mas não me lembrava onde, talvez pudesse ter sido na barbearia, na alfaiataria ou mesmo no Rancho do quartel. 

Mas enfim, que importância ou, no que resolveria lembrar-me onde havia visto aquele canalha?
         O tal sujeito vergonhosamente havia sido apresentado como um integrante do período de formação. Êpa, se o bandido era um recruta (não era verdade), por que raios ele foi designado ao comando daquela metralhadora? Dizem que o FDP ficou preso apenas por 30 dias.

         Tive vontade de “arrancar” as entranhas daquele covarde ou, de “empalar” o desgraçado. O nosso ódio pelo sujeito era tão grande que seriamos capazes de arrancar ele e seus protetores da toca, como se arranca um tatu em fuga.

       Os facínoras se comportavam como se o acontecido tivesse sido apenas um acidente, ou mesmo uma fatalidade. Mas, o nosso grupo sabia o que verdadeiramente tinha sido armado. 

Após o incidente? A escala de serviços sofreu mudanças, e encerrado o IPM, o canalha nunca mais foi visto na unidade.      


Mas, seguramente fora transferido e até mesmo promovido por aquela façanha macabra. Os motivos daquele suposto incidente?, pra mim seriam fáceis de entender. 


Vários integrantes de nossa unidade passaram por treinamentos especializados, fortes e contínuos com o objetivo de integrarem as forças do Exercito no combate a Guerrilha do Araguaia e em outras frentes no país. Essa tarefa já estava sendo vista como se fossem mandar a “Raposa cuidar das galinhas”. Esta situação já é histórica no Brasil.

         Muitos militares e ex-militares integraram grupos de guerrilhas e de resistência em várias épocas da historia política do país. 




        Sem fazer comparações ideológicas ou partidárias, posso citar o líder Osvaldão do Exercito do Povo no Araguaia (Ex-Oficial R/2 do Exercito Brasileiro), O Capitão do Exercito e ex-Senador Luis Carlos Prestes do PCB e que comandou a “Coluna Prestes”, O Ex Tenente (Expedicionário) Salomão Malina (um dos líderes da ala militar do PCB, do qual eu fiz parte), o também Capitão do Exercito Carlos Lamarca, líder maior da VPR (Vanguarda Popular Revolucionara), e tantos outros oficiais, graduados e praças das Forças Armadas, que com suas vidas, construíram a historia da resistência no Brasil.

          Na continuidade do relato, o comandante do “Pelotão assassino” da 1a Cia de Fuzileiros tinha sido exatamente o 1o comandante de meu pelotão na 2a Companhia de Operações Especiais. 



Após o acontecido, eu nunca mais vi o 2o Tenente  R/1 "Demo" durante todo o restante do tempo que permaneci no 18o B. I. Mtz (fui considerado desertor em 14 de junho de 1974).

         Ele foi justamente o oficial encarregado de direcionar os praças aptos a assumirem o comando das metralhadoras prontas para o desfile. O Tenente “Demo” (apelido do oficial) tinha sido um dos melhores alunos do curso de Comando, Sobrevivência e Guerra na Selva que são ministrados pelo CIGS (Centro de Instrução e Guerra na Selva) de Manaus/AM, e, isto fazia dele uma referencia no nosso adestramento. 




          Sob o comando deste oficial, eu fui um dos alunos bem sucedidos no Curso de Sobrevivência, Guerrilhas, Operações Especiais e também no de embarque e desembarque de Aeronaves em movimento que foi realizado no 5o ETA (Esquadrão de Transporte Aéreo) da Base Aérea de Canoas/RS.

        Putz, mas este Curso foi uma loucura mesmo, dizer que pulamos e embarcamos com todos os apetrechos de combate num avião em movimento é coisa de outro mundo, mas para o Exercito, é o momento oportuno de desembarcar tropas de elite num aeroporto ou território eventualmente ocupado por tropas inimigas.

         Seguindo na linha do Tenente Demo, o que me levou a este raciocínio foi exatamente à estratégia dele, aparentemente dissimulada e no qual eu tinha conseguido fazer esta leitura. 



Como todo Combatente Operacional, esta possibilidade de reação sempre foi prevista nos nossos “Manuais de Combate” e, em qualquer lado ideológico. 


O fato é que nossa unidade tinha se tornado um entre posto e local seguro para o aprisionamento de supostos subversivos e elementos da resistência contra a Ditadura Militar.

         Ocorre que nesta convivência continuada com os presos políticos e pseudo-s subversivos, os praças que periodicamente eram destacados para fazerem a guarda destes, simplesmente passavam a ter acesso a informações pessoais e ideológicas que nasciam a partir de um relacionamento de camaradagem com os presos.

        Isto talvez tenha sido a razão maior do surgimento de um núcleo marxista dentro de nossa unidade (e noutras também) no qual eu passei a ser observado e posteriormente me tornei integrante.
        
Seguido no assunto...

         Num desses dias que fiquei de guarda na cadeia onde havia um grupo de presos políticos, conheci um cara que tinha mais ou menos 45 anos, ele tinha os cabelos negros, mas já estavam despontando pequenas mexas branca, era um pouco calvo, e aparentemente sofria de estrabismo, como eu mesmo tenho e adquiri em decorrência de um acidente, ainda no Exercito, que começou a surgir uns quatro anos após eu ter desertado.

        Ele inicialmente se apresentou como sendo um pedreiro da construção civil. Segundo Miguel (este era o nome usado por ele e, se era verdade ou mentira, pra mim pouco importava), segundo ele me disse, tinha sido preso por estar fazendo panfletagem em frente a uma fabrica na grande Porto Alegre, e era uma atitude que foi considerada subversiva pelos órgãos da repressão.

        Miguel havia passado por varias unidades militar pelo período de seis meses em cada uma. Já havia passado pela 1a Cia de Guardas, pelo 3o BPE, pelo QG do III Exercito e, ali estava sem a menor perspectiva de ser libertado ou mesmo com esperanças de sair vivo. 


        Após adquirir a confiança e o respeito de Miguel, que mais tarde se identificou como simpatizante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionaria) do então líder Capitão Carlos Lamarca, e do qual eu também era simpatizante, ficamos amigos.

        A partir dali, passamos a trocar idéias, e muitas vezes conversamos sobre a situação no país. 


Em certas ocasiões eu comprava cigarros com o meu soldo (a maioria dos presos, a família não localizava, e estes omitiam a existência, até por uma questão de segurança), e lembro bem da marca, “Continental” de maço azul e branco que o Miguel gostava de fumar e pedia pra eu fornecer a ele, obviamente eu fazia isto com extremo cuidado.



Na hora do “Rancho” (almoço, café ou jantar) sempre que podia, eu aproveitava e colocava bastante pão, carne e frutas na bandejão que levava ao Miguel e aos outros presos no qual fizera uma aproximação.

        Chegamos a fomentar a ideia de facilitar a fuga dos presos ali do quartel, e somente deixamos de lado diante de novos encaminhamentos internos que incluía a tomada da unidade num ato de sublevação.


         Loucura? Eu não pensava assim. Nós não tínhamos o direito de vacilar ou de errar, se fossemos pegos, seriamos mortos de imediato.

        O 18o B.I. Mtz foi o inicio da minha adesão na ideia de combater a Ditadura Militar por dentro, e isso eu pude perceber na vontade de muitos companheiros que contrariados com o que acontecia no país, se manifestavam abertamente para os companheiros que consideravam de confiança.

          Com o aumento dos efetivos nos combates no front do Araguaia, e a transferência de praças e graduados, ficou evidente o descontentamento interno sobre o que acontecia. 



Naqueles dias houve um aumento nos índices de deserções com finalidades políticas. Essas deserções aconteceram justamente pelo vazamento sutil da possibilidade de tomada das unidades onde servíamos.

        Mas enquanto estivéssemos ali, nós tínhamos que discutir e inicializar uma política de mudanças que previa todas essas possibilidades, e eu era apenas um garoto com larga experiencia e treinamento militar especializado.

          Diante do aumento da repressão contra os grupos organizados da resistência, nós não poderíamos ficar de braços cruzados. Uma das maneiras que consideramos mais adequados para o funcionamento do
 nosso núcleo marxista (que funcionava precariamente) seria nos encontros realizados em locais fora da unidade. 



Por várias vezes nos reunimos em boates, lanchonetes ou mesmo na casa de algum integrante pra fazermos um churrasco de final de semana, que eram muito comuns no relacionamento entre praças e graduados, até porque um soldado torna-se um sargento e por ai vai subindo na hierarquia militar...

          Por força de nossa segurança eles aconteciam com um número reduzido de participantes, essas situações possivelmente nos colocaria fora de qualquer “suspeita”, e deste jeito à gente aproveitava o momento pra colocar os assuntos em dia diante dos últimos acontecimentos. 



         Até aquele momento era o mínimo que poderíamos fazer embora nossa vontade maior fosse a de partir para o ataque frontal contra as tropas leais ao governo no nosso próprio ninho.

         O surgimento destes núcleos deu-se também a partir de uma vertente de remanescentes de um grupo de militares que apoiavam o Capitão Carlos Lamarca quando de sua passagem pelo 3o BPE (Batalhão de Policia do Exercito) em Porto Alegre nos anos 60. 



Aliás, Lamarca deixou um número infindável de admiradores e seguidores ideológicos, dentre estes eu me incluo e, mesmo não o tendo conhecido pessoalmente.

        Esta simpatia por Lamarca dentro do Exercito ficou evidente pra mim num fato acontecido no ano de 1971. Neste ano eu servia no 22o GAC (Grupo de Artilharia de Campanha) em Uruguaiana RS, então comandado pelo Tenente Coronel paraquedista Dickson Melges Grael (pai dos medalhistas Torben e Lars Grael) que foi um dos pioneiros do pára-quedismo militar no Brasil.

         Mais tarde, nós descobrimos que o Ten Cel Dickson era um agente e chefe da Regional de fronteiras do SNI (Serviço Nacional de Informações) no Rio Grande do Sul. 

Naquela unidade eu incorporei com apenas 16 anos e fui um dos primeiros a frequentar o curso de pára-quedismo em Uruguaiana. 


Um dos melhores saltadores na nossa unidade era o então Capitão Victor Pacheco Motta que era o comandante da 2a Bia Can (Bateria de Canhões) onde estava sediado o PELOTAR (Pelotão aerotransportado) do qual eu era o mais jovem  (16 anos de idade) integrante.

        O Capitão Motta tinha sido instrutor de pára-quedismo nas Brigadas Pára-quedista do Rio de Janeiro, na AMAN (Academia Militar de Agulhas Negras), e ainda instrutor dos Cursos de Comando, Sobrevivência e Guerra na Selva do CIGS.

        O Capitão Motta era também um especialista do Curso de Operações Psicológicas desenvolvido pelo Exercito naquele período. Mas enfim, ali estavam alguns dos “Falcões” da Doutrina Militar brasileira e da “Casta da Ditadura Militar do Brasil”.
 
        As fronteiras brasileiras eram objetos de vigilância e mapeamento do fluxo de pessoas que por ali        transitavam. O Ten Cel Dickson Melges Grael era o provável chefe da Operação Condor da região das fronteiras, e que vigorava naqueles dias. Lembro-me que no mês de julho de 1971 aconteceu uma reunião gigantesca e de caráter secreto, de altas autoridades militares da mais alta patente do Exercito Brasileiro.

         Isto no meu entendimento foi em decorrência do prestigio do Ten Cel Dickson Melges Grael junto ao Governo Central. O Ten Cel Dickson esteve nos EUA e se especializou em muitos cursos junto ao Exercito Americano, incluindo aí o de Pára-quedismo Militar realizado na década de 40/50 e que posteriormente ajudou a implantar no Brasil.

        Eu me divertia muito observando o posto de cada um dos integrantes ali presentes, contava as estrelas que cada um ostentava na platina da farda, e se eram gemadas ou não. Enfim, eu realmente fiquei impressionado com o número de medalhas e condecorações que muitos oficiais ostentavam no peito, e me lembrava do jargão “cabeça erguida, peito pra fora”.

        Quando eu era criança, nem pensava em seguir a carreira militar, mas por um destino, fui devolvido aos cuidados do Estado por uma família de fazendeiros que me adotaram juntamente com minha irmã de idade 1 ano mais nova. Com eles ela permaneceu até atingir a maioridade e vir a se casar. Neste ponto, fico eternamente agradecido pelo humanismo despertado por aquela família.

        Esta situação me levou a optar pelo serviço militar voluntário que foi a forma que encontrei pra me livrar daquele “aprisionamento” forçado no meio de mais de 160 meninos considerado abandonados ou em risco social por uma serie de motivos. 



        Tudo isto já existia naquele tempo (Lamarca tinha razão) que alias, me lembro muito bem de ter escutado a Copa do Mundo de 1966 num radiosinho de pilhas que pertencia a um menino daquele Educandário Rural.

        Outra lembrança foi a de ter assistido o homem descendo na lua em 1969. Esta façanha eu assisti sentado num chão gelado ao lado de vários meninos. Era uma televisão grande de madeira ficava no alto e tinha a imagem bastante tremida e chamuscada, o volume era muito baixo e qualquer um que abrisse o bico, levava um safanão na orelha.

        Mas voltando ao encontro da ECEME, o menor posto entre os participantes era o de Capitão, que na maioria das vezes eram ordenanças dos Oficiais Superiores da patente de Coronel e Oficiais Generais. 


Mas também havia muitos Tenentes Coronéis e Majores presentes nesta Cúpula do Exercito representados pela Escola de Comando e Estado Maior do Exercito (ECEME).

        Durante este período eu fiquei de prontidão na unidade. Participei de vários PC Trans (Postos de Controle de Transito) com barreiras fortemente armadas e com barricadas compostas por peças de metralhadoras e sacos de areias em vários pontos estratégicos da cidade de Uruguaiana, incluindo também outras regiões da fronteira oeste do Rio Grande do Sul.
 
        Eu cheguei a participar na perseguição de um veiculo pequeno que encurralamos junto a uma pequena usina da CEEE (Companhia Estadual de Energia Elétrica), que ficava a direita da ponte Internacional e da aduana brasileira. 


        O Veiculo havia tentado burlar a barreia e saiu em disparada (o motivo era apenas a documentação irregular) Os sujeitos foram presos e soltos após o termino da reunião de Cúpula Militar.

        No campo de futebol existente dentro do 22o GAC pousou cerca de oito helicópteros, e eu fui um dos elementos do PELOTAR (Pelotão Aerotransportado) que atualmente são conhecidos como PELOPES (Pelotão de Operações Especiais) a fazer a segurança daquelas aeronaves até então top de linha nas forças Armadas. Colocamos uma rede verde de camuflagem por cima dos helicópteros que ali permaneceram por três dias ininterruptos.

        Ficamos de olhos abertos por 24 horas e com a adrenalina no ápice. Neste período é que eu pude perceber a grandiosidade daquele encontro que fora comandado pelo mais alto escalão do Exercito e da “Cúpula Dirigente do Regime Militar”.

        Mas retornando ao eixo principal, no mês de agosto daquele ano havia rumores no quartel sobre uma perseguição ao Capitão Carlos Lamarca que se encontrava possivelmente no norte/nordeste do país. 


        Alguns comentários davam conta de que Lamarca havia rompido vários cercos programados para pega-lo e, esta era apenas algumas suposições emitidas por oficiais superiores.

        Mas eu também me lembro claramente das torcidas formados por praças, graduados e jovens oficiais que eram a favor, e daquelas torcidas indisfarçáveis, mas cautelosas, que eram contrários a prisão do nosso nobre líder da VPR.

         Já na metade do mês de setembro, houve uma pausa nos comentários a respeito deste assunto. 



        Mas eis que no dia 18 de setembro de 1971 fomos informados oficialmente da morte do Capitão Carlos Lamarca e de outros (que foram emboscados e assassinados brutalmente no Estado da Bahia). 

        Esta noticia provocou um grande choque no quartel. Lamarca era um exímio atirador, e tinha sido Campeão Sul Americano ou brasileiro de tiro ao alvo.

        Lembro-me que naquele dia circulou uma revista de mão em mão mostrando o nosso líder ensinando bancários a atirarem. 

        Aquelas fotos foram guardadas na minha mente como relíquia de boas lembranças.

        Pensar que o Exercito Brasileiro comemorou a morte do Capitão Carlos Lamarca? Ledo engano, o mal estar foi geral, nossa unidade silenciou por completo durante vários dias em homenagem aquele homem que tinha o ideal de transformar o Brasil num país mais justo, humanista e igualitário, ou seja, numa nação verdadeiramente independente e socialista.

         De origem pobre e humilde, o carioca Capitão Carlos Lamarca sempre lutou como um verdadeiro bravo e pagou com a própria vida a incompreensão daqueles que comandavam o país com mãos de ferro, a Ditadura Militar.
 
         Se por um lado o comando do Exercito considerava Lamarca um traidor, por outro, dezenas de jovens oficiais, sargentos e praças de todas as armas o veneravam, e nunca conseguiram esconder esta afeição por aquele que era um exemplo de determinação e ideal a ser seguido. Isto deixava a Cúpula Militar em polvorosa, e que mais tarde culminou numa perseguição interna nas Forças Armadas e sem precedentes na historia política do Brasil.


Como relatei, e assim diziam os antigos:


- Isto eu vivi, e presenciei com estes olhos que a terra um dia há comer!


OUSAR LUTAR, OUSAR VENCER!


Carlos Alberto Bento da Silva
Ex militante do PCB e do PSTU em Florianópolis-SC


        O Blogue Radio Cidadão "As Barricadas das Lutas Populares" (criado em 2005, e que era um misto de noticias sobre radioamadorismo e politica), e todos os blogues do portal space.live.com foram deletados pelo Wordpress quando este adquiriu o seu controle. Eu também perdi o Blogue  Internacional Radio que havia criado no mesmo ano de 2005. 

        A partir dali milhares de proprietários ficaram no prejuízo ao perderem centenas de publicações.


       Nós tivemos pouquíssimo tempo para fazer um translado de portal. Algumas fotos foram salvas automaticamente pelo Sky Drive, mas as mais de uma centena de publicações que eu havia feito, essas eu as perdi para sempre.

         Felizmente o texto acima eu havia conseguido salvar quando fiz uma publicação em outro blogue. Bem, confesso que seria muito chato ter de escrever este relato novamente...

        Agradeço a minha irmã Clarisse por ter guardado com tanto carinho por mais de 30 anos, essa talvez, única foto que ainda existe da minha passagem pelo exercito.