OS FILMES ESTÃO LIBERADOS PARA SEREM ASSISTIDOS NO VK.COM - mas vc terá que se cadastrar na rede social russa - DIVIRTA-SE...

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

JUS ESPERNEANDI DOS LINCHADORES DE BATTISTI: PRÉVIO E GROTESCO

 Texto de Celso Lungaretti*

Os reacionários estão furibundos com o iminente anúncio da decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que porá um fim à kafkiana perseguição movida pelo Governo Berlusconi e seus cúmplices de dois continentes contra o escritor Cesare Battisti.

Espera-se que, ainda nesta semana, Lula bata o martelo, confirmando o entendimento do seu ex-ministro da Justiça Tarso Genro, que no início de 2009 já concedeu refúgio a Battisti no Brasil -- absurdamente revisto pelo Supremo Tribunal Federal, que extrapolou sua autoridade ao jogar no lixo a Lei do Refúgio e a jurisprudência consolidada nesses casos, usurpando uma prerrogativa que sempre foi do Executivo.

Mesmo assim, a decisão final voltou a quem de direito: o presidente da República. E ele já sinalizou que, cioso da soberania nacional, não se vergará a descabidas e ultrajantes pressões estrangeiras.

Vai daí que o ministro mais questionado e o pior presidente do STF em todos os tempos, Gilmar Mendes, volta a fazer lobby contra Battisti, deitando falação  que nada mais é do que uma dica ao governo italiano, no sentido de que bata de novo à porta do Supremo, sob a estapafúrdia alegação de que a decisão anterior foi "confusa".

Sim, foi mesmo confusa:
  • ao anular, na prática, a Lei do Refúgio, o que não é papel do Judiciário;
  • ao desconsiderar todas as decisões anteriores do próprio STF, que sempre arquivou os processos de extradição quando o Ministério da Justiça concedeu refúgio;
  • ao desconsiderar a prescrição do caso segundo as leis brasileiras, que são as que devem prevalecer nos julgamentos realizados em nosso território;
  • ao desconsiderar a intenção italiana, admitida até por um ministro (segundo noticiou o respeitadíssimo Corrieri de la Sera), de enganar o Brasil, prometendo adequar a sentença de lá ao máximo que nosso país admite para fins de extradição, embora não haja sequer instrumentos legais que possibilitem tal arranjo, conforme alertou, entre outros, Dalmo de Abreu Dallari;
  • ao desconsiderar que Battisti foi julgado à revelia na Itália, conforme documentação incontestável que foi entregue ao relator Cezar Peluso e por este negligenciada; etc.
Mas, a confusão de que se queixa Mendes é outra: a de o Supremo não ter levado até o fim o linchamento de Battisti, resolvendo, na enésima hora, não cometer outra usurpação, a do papel do presidente da República, a quem sempre coube dar a palavra final.

Vai daí que Gilmar Mendes não só chia, como sugere à Itália que questione a decisão de Lula -- num ostensivo desrespeito à Nação brasileira e até a seus cinco colegas do Supremo que confirmaram ser a Presidência da República a instância definitiva.

Porque perdeu uma votação importante, agora move céus e terras para criar um confronto de Poderes, na esperança de ainda fazer com que a posição italiana prevaleça sobre a do seu país. Como se deve qualificar uma postura dessas?

Outra figurinha carimbada se manifestou: a ex-revista Veja, com a tendenciosíssima matéria Terrorismo - Lula quer manter Battisti no Brasil.

Para não desperdiçar meu tempo com o que hoje não passa de um sofrível  house organ  da extrema-direita, cuja credibilidade está em frangalhos, apenas reproduzirei os sete pontos da nota com que o advogado de Battisti, Luiz Roberto Barroso, restabeleceu a verdade dos fatos:
  1. Cesare Battisti jamais foi acusado ou condenado por terrorismo. O uso desse termo faz parte da campanha depreciativa que lhe move a Itália, como estratégia para obter a extradição.
  2. Cesare Battisti foi levado a um primeiro julgamento, juntamente com outros membros do PAC (Proletários Armados pelo Comunismo), e não foi sequer acusado por qualquer dos homicídios imputados ao grupo. Outras pessoas foram condenadas por eles. Após o seu refúgio na França, militantes acusados pelos homicídios, alguns já condenados, tornaram-se ''arrependidos'' e transferiram para ele a responsabilidade pelas quatro mortes.
  3. Cesare Battisti foi levado a um segundo julgamento, tendo como únicas provas os depoimentos dos delatores premiados. Foi julgado à revelia, defendido por advogados que não constituiu, ligados aos membros do PAC e que tinham evidente conflito de interesses. As procurações que receberam foram periciadas e comprovadas como falsas. Os advogados declararam expressamente que jamais estiveram com Cesare Battisti e que não tiveram condições de defendê-lo, por não estarem informados dos fatos.
  4. Dos nove Ministros do STF que apreciaram a questão, quatro entenderam não ser possível a extradição na hipótese. Cinco Ministros entenderam ser possível, mas que cabe ao Presidente da República a decisão sobre o assunto. O Procurador-Geral da República também se manifestou contrariamente à extradição.
  5. Os fatos imputados a Cesare Battisti, em relação aos quais ele sempre afirmou inocência, ocorreram há mais de trinta anos. O maior prazo de prescrição da legislação brasileira é de vinte anos.
  6. Há no mínimo uma contradição lógica em se defender a anistia recíproca no Brasil, para agentes do Estado e para militantes políticos, e pretender a punição de Cesare Battisti mais de três décadas depois.
  7. Cesare Battisti é um escritor pacato e pai de duas filhas, que jamais se envolveu em qualquer ação política desde os anos de chumbo italianos. Vivia em paz na França até que o governo de Sylvio Berlusconi o escolheu como troféu político e passou a persegui-lo. Não há razão para o Brasil, contrariando uma tradição humanista que vem de longe, entregá-lo à Itália para passar o resto da vida na prisão.
          (*) Jornalista e escritor

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Eu voto em Dilma Rousseff


Não foi difícil pra mim tomar a decisão de votar em Dilma Rousseff.

No primeiro turno o meu candidato foi Zé Maria 16 - PSTU.

Como comentei em outra postagem há um fator determinante pra minha decisão em votar em Dilma Rousseff e, aproveito pra pedir para os amigos e companheiros que façam o mesmo, afinal, não podemos titubear e permitir a menor possibilidade aos “Tucanos das Asas quebradas” alçarem um vôo para o Palácio do Planalto.

Abaixo eu faço a postagem de um editorial dos camaradas do PCML.

Sinto-me a vontade em publicar este editorial. Desde a muito que eu tenho familiaridade no relacionamento com os companheiros deste coletivo Prestista. Tudo começou em 1992 durante o congresso do “racha” do PCB que ocorreu em São Paulo (não sou somente um leitor).

Inicialmente nos reunimos no Teatro Záccaro na Bela Vista (região que eu já havia morado nos 70, precisamente na antiga Rua Jandaia, hoje uma praça). Após varias intervenções do coletivo dos chamados comunistas ortodoxos (do qual eu fazia parte) e do discurso final de Ivan Pinheiro, iniciamos uma manifestação pelo Bairro do Bixiga/SP em direção ao Colégio Roosevelt.

Lá chegando, formamos vários grupos de trabalho onde a partir dai iniciamos vários debates. Foi exatamente numa dessas atividades que tive a oportunidade conhecer os camaradas Prestistas, hoje formando o PCML (espero não estar enganado, afinal, são apenas lembranças, e não fiz pesquisas).

Um dos grupos que tive a oportunidade de debater junto ao seu próprio coletivo foi a OPPL (Organização Popular Para Lutar, e o outro foi o PLP (Partido de Luta Proletário). Ambos os coletivos tinham uma estrutura em células espalhadas por vários estados do Brasil, entre estes o Nordeste, o Norte e o Sudeste. A proposta na estruturação e manutenção do PCB foi de que estes coletivos se dissolvessem dentro do partido como militantes e participariam na formação de um único Comitê Central. Inicialmente a proposta foi aceita.

Na verdade ficou alguma pendência por conta de deliberações internas nesses coletivos que seriam resolvidas a posterior. Passado todos estes anos eu tenho acompanhado a caminhada desses camaradas, e não é mera coincidência que nesta eleição estamos defendendo a eleição de Dilma Rousseff para presidenta do Brasil. Afinal, estamos em sintonia com os anseios da maioria das entidades dos movimentos sociais do país, do campo e das cidades.

Abaixo o editorial do PCML:

Porque votar em Dilma Rousseff?

Quem duvida da capacidade da direita em manobrar o processo eleitoral brasileiro e impor seus objetivos imediatos e futuros à classe trabalhadora e o povo pobre em geral em nosso país, que tire suas próprias lições desse primeiro turno das eleições presidenciais. Os números são muito visíveis. Do total de eleitores 135.804.433: 81,88% foram às urnas e se 18,12% abstiveram; dos votantes 8,64 % votaram em branco ou nulo, Dilma Rousseff (PT) obteve 46,91% dos votos válidos, José Serra (PSDB) 32,61% e Marina Silva (PV) 19,33%; 1,15% votaram nos demais candidatos.

Qual a conclusão que se tira de tudo isto? Primeiro, a direita através de sua nova cara hegemonizada pelo PSDB, que concentrou seus votos na candidatura de José Serra. A esquerda institucional, do PT ao PCO, se dividiu apesar da clara hegemonia do Partido dos Trabalhadores, e graças a essa divisão, fez crescer o bloco da esquerda institucional oportunista.

Conclusão: a direita usou a esquerda oportunista para chegar ao segundo turno, ameaçando jogar o Brasil, em especial, seu povo trabalhador e humilde de volta às mesmas condições de vida do governo Fernando Henrique Cardoso, com o agravante da ideia aventureira de iniciar uma escalada de agressão aos países-irmãos da América Latina que na atual conjuntura mundial e continental avançam na luta contra o imperialismo, em especial dos Estados Unidos, rumo à sua libertação. Portanto, a regressão ao modelo FHC e pró imperialista representado por Serra exige do povo brasileiro um rotundo Não neste segundo turno eleitoral.

Já a esquerda oportunista, que cresceu na representação mímica de Marina Silva e do PV, conduzindo o processo eleitoral brasileiro à dramática ameaça do retrocesso de suas conquistas, deveria receber uma lição histórica talvez na mesma intensidade que recebeu Heloísa Helena no processo eleitoral anterior, afinal, o recado que o povo paulista mandou ao Congresso ao eleger o palhaço Tiririca, o sr. Francisco Everardo Oliveira Silva, indica uma consciência em torno do que representa a grande maioria nesta instância de poder no país, contudo, ainda não compreendeu que em outras instâncias, tais como ao nível executivo: prefeitos, governadores e Presidência da República também se apresenta a mesma imagem no sentido em que sua presença no processo eleitoral tem por objetivo o entretenimento do povo para que o processo real transcorra de acordo com os objetivos das classes dominantes do país, isto é, as velhas oligarquias de cara nova.

Quem se iludiu com a imagem produzida da candidata Marina Silva, que ora destacava o fato de que “não sabia ler, nem escrever já na fase adulta” e se apresentava como pessoa humilde, e em seguida se apresentava como grande pensadora estratégica de um modelo autossustentável e integrado num pensamento de totalidade do desenvolvimento brasileiro, não fez mais que acreditar no Tiririca, no sentido da representação, a diferença apenas no significado real das proposições.

Enquanto Tiririca apresentava sua plataforma sintetizada na expressão “pior do que está não fica”, Marina, com todo o seu tom de seriedade, sofrimento e apelo a deus, aos votos dos evangélicos, apresentava seu grande modelo de pensamento integral de desenvolvimento autossustentável no Brasil sobre o mesmo princípio: continuarei o PAC, o Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida, as obras de infraestrutura, a estabilidade econômica, quer dizer, 'pior do que está não fica'.

Qual a diferença de Marina Silva e do Tiririca em termos de plataforma apresentada nas eleições? Quanto a sua consciência desse papel, pergunta-se: Como alguém que renunciou a enfrentar os latifúndios e o agronegócio, no Ministério do Meio Ambiente no Governo Lula, e toda sua administração resumiu-se a prisões de “pobres diabos”, que na luta pela sobrevivência se lançam na utilização inconsciente de pequenas posses de terra, exploração da fauna, flora e marinha? Além disso, administração povoada também de escândalos de corrupção no IBAMA, como o caso do diretor executivo Marcílio Monteiro, em Belém do Pará, apontado como chefe da quadrilha que negociava o desmatamento criminoso da Amazônia. Como pode em sã consciência apresentar sua ideia de modelo sustentável numa sociedade cujas relações de produção combinam a acumulação primitiva com a exploração formal e real do trabalho ao capital?

Quem pode acreditar que a exploração do agronegócio, com o latifúndio e o minifúndio pode dar lugar a um modelo autossustentável integrado ao desenvolvimento econômico e meio ambiente, voltados aos interesses da grande maioria do povo brasileiro?

Quem pode acreditar que este nível de exploração do campo, em termos agrícolas, que é subordinado totalmente ao processo industrial das cidades, em especial, a indústria paulista, que ambas permitiriam tal modelo? E ainda, quem poderia imaginar que a grande indústria no Brasil e agronegócio, entrelaçado e associado com as grandes empresas e os monopólios industriais, comerciais e financeiros das oligarquias internacionais permitiriam este modelo de desenvolvimento integral, estratégico e autossustentável apresentado pela grande pensadora estratégica Marina Silva?

A pergunta aqui é: somos todos tiriricas?

O exame consciente das proposições efetuadas pela esquerda oportunista pintada de verde é que não passam de espetáculo ilusório, que só existe no show das câmeras da mídia nazifascista com a mudança de vestuário, closes e efeitos especiais próprios do espetáculo eleitoral e do debate manipulado. Todos os debates televisivos no primeiro turno nada tiveram de democrático, tratava-se de um debate de 3 contra 1, pois numa pequena soma de tempo entre os candidatos era, para cada 1 hora de debate, 15 minutos eram para Dilma, e 45 minutos eram contra ela.

 Nos poupamos de considerações sobre o discurso de Plínio Arruda Sampaio, que por analogia ao de Marina Silva, mais cinicamente se apresentou pois se o modelo autossustentável 'aos moldes da Noruega' é impossível diante das relações de produção capitalista no país, mas inimaginável é um modelo socialista contra o capital. A palavra concedida a Plínio Arruda Sampaio só foi permitida pela mídia nazifascista por sua origem de classe nas famílias quatrocentonas paulistanas, pois como Eduardo Suplicy, funciona como um rebelde que não sai da adolescência mas que deve ser tolerado.

Serra em seu discurso de comemoração do êxito estratégico de usar Marina e Plínio para chegar ao segundo turno, justificou: “vamos vencer as eleições pelas nossas tradições e crenças, pelas nossas famílias, pelos nossos filhos e pelos nossos netos, pelo Brasil verde e amarelo”. E cinicamente começou seu discurso dizendo que só tinha uma cara; o jovem radical da esquerda católica é agora o radical da direita católica, na mais completa sintonia com a organização Trabalho, Família e Propriedade e a Opus Dei.

Na verdade, o conceito de 'cara' utilizado por Serra deve ser entendido na lógica hegeliana: antes a cara da esquerda católica, agora a cara da direita católica e ao fim, ao meio e ao cabo a unidade da cara de pau em afirmar que tinha uma única cara, quando se sabe que ela personifica muitos conteúdos e significados distintos, isto é, o agronegócio, os monopólios industriais, as oligarquias financeiras, em síntese, a cara do capital.

Por que votar em Dilma? Dilma Roussef embora tenha adaptado suas ideias de transformação brasileira de acordo com a nova situação vivida pelo país, diante da atual correlação de forças e desenvolvimento da consciência revolucionária do povo brasileiro, por sua trajetória de vida, de origem humilde e revolucionária, chegou ao limite máximo de moral e idealismo revolucionário combatendo em armas a ditadura militar do capital no Brasil.

Foi presa e torturada, sobreviveu e foi coerente com suas posições até os dias atuais; sua passagem pelo PDT aos tempos da liderança de Leonel Brizola deveu-se a uma posição política adotada por uma parte do egresso grupo de esquerda liderado por Carlos Lamarca, cuja análise das mudanças da realidade mundiais e do Brasil compreendia o espaço para a construção de partido de massas capaz de assegurar a democracia no país e o conjunto de liberdades contidas nesse conceito que propiciasse o desenvolvimento do país, permitindo que o povo trabalhador saísse das amarras da opressão, da miséria absoluta, e da situação de analfabetismo extremas, fortalecendo a sua consciência e acumulação de forças para um posterior momento de lutas e transformações mais decisivas rumo à sua libertação.

A morte de Brizola e a estrutura orgânica dos quadros do PDT – como projeto político – romperam-se sobre o fenômeno político do surgimento da liderança de Lula e do Partido dos Trabalhadores. Sua passagem a esta organização partidária constituiu uma posição coerente para com seu objetivos historicamente assumidos com o povo brasileiro.

Sua formação política e técnica se deu no curso da luta sem abandonar seus pontos de vista e sofrendo todas as discriminações relativas à mulher de esquerda e ex-guerrilheira. No PT, com a vitória de Lula, assumiu responsabilidades em ministérios que envolveram visão estratégica, técnica e política, como ministra das Minas e Energias e posteriormente como ministra da Casa Civil; ministério profundamente abalado moralmente pelos escândalos de corrupção e o show da mídia nazifascista. Seu caráter a frente da Casa Civil superou todo o processo desmoralizante a que sucumbiu José Dirceu; promoveu de forma clara a moralização de toda a estrutura administrativa.

Assumiu tarefas especiais dos grandes programas voltados diretamente para os seus objetivos e compromissos assumidos com o povo brasileiro: o emprego e desenvolvimento econômico através da construção de moradias para o povo pobre e outras obras de infraestrutura, mantendo a gestão estratégica de energia no país, traduzidas no forte desempenho e prestígio atingidos pela Petrobras. Sem dúvida, Dilma no governo Lula foi o contrapeso consciente às contradições de uma administração que herda a estrutura de quadros de FHC, do compadrio coronelista do período da ditadura militar no país. E que diante de tudo isto, fez valer sua integridade moral e respeito aos compromissos que desde cedo assumiu em sua militância.

Votar em Dilma não é apenas assegurar as mínimas conquistas neste período de 8 anos de mandatos consecutivos de Lula, mas a certeza da continuidade do caminho democrático do país, sua relação de respeito político com os demais países da América Latina e não permitir o retrocesso e a aventura imperialista das oligarquias, que dominam a economia e as estruturas arcaicas da sociedade.

É garantir a continuidade da luta do povo brasileiro e latino-americano à sua libertação que se fará inexoravelmente diante das difíceis decisões e dramáticas ações decorrentes da crise do capital no país e no mundo. Por isso nosso voto continua em Dilma Roussef!

Isto não significa um apoio acrítico ou que nos iludimos com as possibilidades de conquistar os objetivos históricos da classe operária e do povo pobre no país através do processo eleitoral e de governos dentro das regras do capital, mas a clara análise que diante da correlação de forças do momento histórico esta via de luta cumpre importância fundamental para o prosseguimento da luta sob novas condições que necessariamente estão por vir.

Nestes termos, nossas palavras de ordem são:
Defender o povo brasileiro!

Votar em Dilma Roussef!
Derrotar Serra e o plano reacionário das oligarquias!

P.I.Bvilla
OC do PCML

O desespero faz coisas...

Em visita à cidade de Maringá, no Norte do Paraná, o presidenciável tucano José Serra criticou o resultado da pesquisa Ibope, que apontou liderança da sua adversária, com 51% da preferência dos votos, contra 40% do tucano.


Vox Populi: Dilma tem 51%, Serra tem 39% e indecisos somam 4%
Ibope: Dilma amplia vantagem sobre Serra para 11 pontos

Sensus: Dilma está 5 pontos à frente de Serra


De acordo com Serra, “essa pesquisa do Ibope é estranha porque não há registro dos questionários, como a legislação exige. Segundo, porque o resultado já havia sido divulgado antes que a pesquisa estivesse pronta”, afirmou. O tucano disse que o resultado da pesquisa já havia sido divulgado por um “blog bem informado”.


O candidato tucano voltou a criticar o Vox Populi, que apontou 51% para Dilma e 39% para Serra na sua mais recente medição.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

"Tijoladas do Mosquito" Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura!

Tiraram o Tijoladas do Mosquito do ar


Então...


O cara faz uma mistureba gigantona sem medir as conseqüências.


É criativo, arrojado, mas teimoso. Além disso, precisa rever suas posições em relação ao vicio manezês-xenófobo de tratar as pessoas de outros estados (aqui em Santa Catarina) como forasteiros.

Tem de sua aversão a outras religiões, principalmente ao judaísmo, atitudes essas que se caracterizam como crimes hediondos, e de racismo.


Com toda a popularidade que tem, não precisava apelar para o sensacionalismo utilizando-se de imagens que ridicularizam as pessoas. Por exemplo: colocar a foto da Senadora Ideli dentro de uma latrina (montagem), do prefeito Dário Berger "nú" sentado num sofá etc.

Eu não estou aqui defendendo estes personagens, embora conheça pessoalmente a Ideli, o Dário Berger e outros que aparecem nas suas postagens.

 É obvio que o público em geral gosta de ver essas coisas, acha engraçado e, cá entre nós, quem não gostaria de dizer poucas e boas para determinados políticos?

Acontece que esta atitude entra no campo jurídico legal e não tem nada a ver com o direito de expressão, de opinião etc. Trata-se na verdade de ridicularizar, de constranger e difamar as pessoas que são objetos de suas postagens.

Usa uma estratégia de achincalhamento desmedido e sistemático, não olha as caras (tem gente que não dá a mínima pra isso, outros...), e ainda acha que isso tem de ser aceito na marra. Agora está sendo penalizado pela justiça e diz que isso é censura?


Todos nós sabemos as contradições da justiça burguesa e a quem realmente servem.


Eu não quero ensinar o padre a rezar a missa, mas convenhamos, não custaria nada para o blogueiro se ater minimamente ao código de ética do jornalismo, ao ECA e as leis civis sem que isso representa-se prejuízo na inserção dos seus blogs.

Ninguém de sã consciência é a favor de censuras aos blogs.

Na verdade os blogs representam uma fonte alternativa de informações, uma nova ferramenta que veio pra estancar a hegemonia da imprensa convencional.

Hoje os blogs são lidos aos milhares por um público ávido por informações de todos os níveis.

Está aí um nicho mercadológico que tem uma possibilidade gigantona a ser explorado, principalmente por aqueles que se profissionalizam neste segmento.

























































No que está “pegando” a decisão da justiça?

Significado de Constrangimento

s.m. Estado de quem está constrangido.
Violência física ou moral exercida contra alguém.
Embaraço, acanhamento.


Significado de calunia, difamação e injúria


A calúnia consiste em atribuir, falsamente, à alguém a responsabilidade pela prática de um fato determinado definido como crime . Na jurisprudência temos : “a calúnia pede dolo específico e exige três requisitos : imputação de um fato + qualificado como crime + falsidade da imputação” ( RT 483/371 ) . Assim, se “A” dizer que “B” roubou a moto de “C” , sendo tal imputação verdadeira , constitui crime de calúnia .

 
A difamação , por sua vez , consiste em atribuir à alguém fato determinado ofensivo à sua reputação . Assim, se “A” diz que “B” foi trabalhar embriagado semana passada , constitui crime de difamação . A injúria, de outro lado, consiste em atribuir à alguém qualidade negativa , que ofenda sua dignidade ou decoro . Assim, se “A” chama “B” de ladrão, imbecil etc., constitui crime de injúria .


A calúnia se aproxima da difamação por atingirem a honra objetiva de alguém, por meio da imputação de um fato, por se consumarem quando terceiros tomarem conhecimento de tal imputação e por permitirem a retratação total , até a sentença de 1a Instância , do querelado ( como a lei se refere apenas a querelado , a retratação somente gera efeitos nos crimes de calúnia e difamação que se apurem mediante queixa , assim , quando a ação for pública , como no caso de ofensa contra funcionário público , a retração não gera efeito algum ) .

Porém se diferenciam pelo fato da calúnia exigir que a imputação do fato seja falsa, e , além disso , que este seja definido como crime , o que não ocorre na difamação . Assim, se “A” diz que “B” foi trabalhar embriagado semana passada, pouco importa , se tal fato é verdadeiro ou não , afinal , o legislador quis deixar claro que as pessoas não devem fazer comentários com outros acerca de fatos desabonadores de que tenham conhecimento sobre essa ou aquela pessoa .

Da mesma forma, se “A” diz que “B” roubou a moto de “C” e tal fato realmente ocorreu o crime de calúnia não existe, pois o fato é atípico.
 A difamação se destingue da injúria, pois a primeira é a imputação à alguém de fato determinado , ofensivo à sua reputação – honra objetiva - , e se consuma , quando um terceiro toma conhecimento do fato , diferentemente da segunda em que não se imputa fato , mas qualidade negativa , que ofende a dignidade ou o decoro de alguém – honra subjetiva -, além de se consumar com o simples conhecimento da vítima .


Seminário Direito e Ditadura – PET Direito


De 25 a 29 de outubro de 2010 no Auditório do Fórum do Norte da Ilha, na UFSC.


Está ai uma grande oportunidade de debater essa questão


Dos debatedores eu conheço pessoalmente a professora e jornalista Elaine Tavares, a professora e Doutora em Sociologia Bernadete Aued (ex presidente do Sindicato dos Professores da UFSC e Presidente do PCB de Santa Catarina). Além de Celso Martins e outros.


Esta turma ai vai dar uma aula inesquecível de historia, direito e cidadania.


Este evento dos estudantes da UFSC vai bombar legal.

 
http://petdireito.ufsc.br/direitoeditadura/

http://petdireito.ufsc.br/direitoeditadura/programacao/

 Mosquito, não adianta ter participado da novembrada e ficar puxando o badalo dos algozes.

Isso ai não tem nada a ver com ideologia de esquerda.

sábado, 16 de outubro de 2010

Tijoladas do Mosquito

O cara dizia:

Adeus terrinha da fome
Nunca mais verei tu
Criei ferrugem nos dentes
E teias de aranha no cú!





Na verdade, esta paródia é pra simbolizar a ausência na web (esperamos que seja definitiva), do blog fascista "Tijoladas do Mosquito".

Conta outra porque esta não cola!

Qual a diferença do ponto de vista moral entre um nazi-xenófobo e uma ratazana de esgoto?


Esse papo doidão na busca insana de um "nicho mercadológico" que se propõe a escancarar moralmente as pesssoas por sua origem, etnia ou religião, realmente é uma patologia incurável.

Querer se utilizar da "cultura manezinha" (dos nascidos na ilha de Santa Catarina), distorcendo-a e abrigar-se dentro, é no mínimo burrice.

Não existe diferenças entre gauchos, paulistas, nordestinos, manézinhos da ilha, cariocas, judeus, católicos, evangélicos, Baháis, espíritas ou Krishnas.




Fazer a noticia é uma coisa, embutir no seu contéúdo toda forma de discriminação e bairrismo são outros quinhentos.

Deu pra ti
Baixo astral!

terça-feira, 12 de outubro de 2010

UM TROTSKISTA PODE “SIM”, VOTAR EM DILMA ROUSSEF


"Ser trotskista hoje não significa estar de acordo com tudo aquilo que escreveu ou o que disse Trotsky, mas sim saber fazer-lhe críticas ou superá-lo, como a Marx, a Engels ou Lênin, porque o marxismo pretende ser científico e a ciência ensina que não há verdades absolutas. Em primeiro lugar, ser trotskista é ser crítico, inclusive ao próprio trotskismo".

 (NAHUEL MORENO)



Então...


Com este entendimento, eu fico a pensar e, sinceramente, faço uma profunda reflexão que me leva ao passado, tanto aquele da minha juventude, quanto aquele já mais maduro por volta dos meus 40 anos. Apesar disso, responsabilidade política numa conjuntura confusa é algo que requer uma análise também profunda.

Ora, eu faço esta distinção no tempo por um motivo que incomoda o meu subconsciente e o gene mental da minha consciência política.

Com todas as contrariedades que ocorreram, e que ainda ocorrem no governo de Lula/PT, e, também, com tudo que vivi durante minha militância desde os anos 70, fico a pensar se devemos esquartejar e entregar aos Urubus/Algozes do povo a possibilidade concreta de sonharem a governança do Brasil. Este momento histórico me remete as eleições de 1989.

Naquele ano e muitos outros antes, era um sonho conseguirmos algum dia elegermos um trabalhador Presidente do Brasil.

Lembro-me como se fosse hoje, a luta que vivíamos nos movimentos sociais para avançarmos no mínimo possível em conquistas sociais.

Cada avanço, cada passo, eram todos exaustivamente discutidos e planejados, cada conquista, era comemorada e ainda servia de exemplo na formação de novos quadros que iam surgindo nos movimentos sociais. Na verdade, estou me referindo ao período já mais maduro que comentei acima.

Desde 1987 quando assumi o comando da Associação dos Moradores do bairro onde vivia (Areias do Campeche-Florianópolis) área de conflito urbano pela posse da terra.

Em vários momentos dessa luta, eu tive diferenças que me colocaram frente a frente com o projeto de algumas lideranças ligadas a chamada corrente petista e igrejeira “Teologia da Libertação.

Posso lembrar claramente, enquanto defendíamos a nossa permanência no local que ocupávamos, as lideranças petistas defendiam e lutavam para a criação de uma política habitacional para o município de Florianópolis, na época, então governada pela dinastia da família Amim.

Se por um lado politicamente era uma aspiração ou, uma estratégia que forçava aquilo, por outro, os nossos objetivos eram simplesmente a conquista e a permanência nas área que ocupávamos. A historia comprovou que estávamos certos.

O que o Movimento Sem Teto conseguiu até aquela data? Nada além da construção de um agrupamento de pouco mais de 50 casas minúsculas e geminadas que serviu de propaganda para eleger seguidamente a mesma dinastia.

Passado alguns meses, a política petista começa a defender a permanência de todos os moradores ocupantes de áreas em litígio em seu próprio local de ocupação.

Vale lembrar que isto representava um universo de milhares de famílias compostas por mais de uma dezena de comunidades na periferia de Florianópolis.

Eis ai a lição que o povo ensina a partidos políticos e as ONGs catapultas desses. Durante muitas lutas ligadas aos movimentos sociais de massa, tive a oportunidade de conhecer e acompanhar o crescimento político de várias lideranças.

Participei e contei também com o envolvimento direto de lideranças do MST, dos Sem Teto (do qual também fazia parte) da agricultura familiar, das mulheres colonas e de vários sindicatos, entre estes o SINTE/SC, dos bancários da grande Florianópolis, dos funcionários públicos municipais e estaduais, dos eletricitários, dos vigilantes, dos correios etc. Enfim, de varias entidades dos movimentos populares, e do qual nos permitíamos trabalhar a questão conjuntamente na representatividade destas entidades, incluindo ai a própria CUT.

No mesmo período eu integrei também o movimento cultural e profissional dos artesãos da capital, que aliás, também presidi o minúsculo sindicato da categoria que ajudara a fundar.

Tive um envolvimento continuado e umbilical com várias lideranças políticas aqui no estado que, ainda hoje, transitam ou fazem parte da esfera política do poder no país.

Conheço pessoalmente a Deputada Federal Luci Choinacki, a Senadora Ideli Salvati, (ainda como presidente do SINTE, o ex Deputado Federal Vanio dos Santos/PT, os ex Vereadores João Guizzoni/PC do B e Lázaro do PT (este meu companheiro nas lutas do Movimento Sem Teto), o ex Deputado Estadual e membro da coordenação estadual do MST Vilson Santin, que alias, encontrei-o a cerca de dois anos no terminal rodoviário Rita Maria em Florianópolis.



Enquanto Santin aguardava a chegada do Ônibus que o levaria até Ponte Alta do Meio (município catarinense) tivemos a oportunidade de conversarmos por mais de 30 minutos sobre os problemas da reforma agrária que andava emperrada no governo do PT e do qual Vilson Santin é um militante histórico.

Pra mim ficou bastante claro a franqueza no relato do Líder dos Sem Terra.

A esperança que demonstrava pela combatividade do movimento do campo e daquilo que poderia repercutir nas cidades, era algo que todos nós sempre esperávamos, ou seja, a justiça social no campo e na cidade.

Para aqueles que durante anos militam nos movimentos sociais, passa a ser comum este relacionamento, mesmo sendo integrantes de outros partidos daquilo que chamamos de campo popular e democrático.


Militei no PCB de 1989 a 1998. Em 1992 fui delegado no congresso do racha e candidato derrotado ao Comitê Central do PCB, ainda em 1992 fui candidato a Vereador pelo “Partidão” com o nº. 79666.

Em 1998 sai do partido e me filiei no PSTU.











Continuando...


Fui convidado pelo lider dos Sem Terra a me incorporar no movimento e participar desta luta histórica.

Sei que hoje os tempos são outros, mas sei ainda, que a luta é permanente, porém, as estratégias na busca de uma sociedade socialista, justa e igualitária, nos permitiu ainda num passado recente, que a dispersão vista hoje era unidade comum abrigada sob o manto eleitoral da Frente Popular que foi vitoriosa na eleição de Lula.

Todo este arco de alianças supra ideológico possibilitou o rompimento do exercício continuado de décadas de candidatos burgueses, na sua essência, pela eleição de um trabalhador para presidente do Brasil.

Lula mudou? Mudou sim, mas isso não significa que tenhamos de entregar a rapadura para os verdadeiros filhos da burguesia.

Eu não estou pretendendo desmistificar a validade do “cruzar os braços” (voto nulo) e permitir que aqueles que no passado nos escamotearam (em todos os sentidos) vislumbrem a menor possibilidade de chegarem ao poder através da eleição de José Serra.

 Eu também não estou pretendendo justificar uma tomada de posição referendada num relacionamento puro e simples, apenas por ter participado dessa historia.

 Sei, e acompanhei várias votações defendidas pela bancada petista e por seus aliados no congresso nacional, que inclusive, culminaram com a retirada de direitos trabalhistas e dos aposentados.

Acompanhei também os fluxos e contra-fluxos das categorias organizadas e as varias tentativas de se criar uma entidade sindical que centraliza-se as verdadeiras aspirações dos trabalhadores.

Eu diria que a CUT perdeu o foco desde os primórdios de sua fundação e sua caminhada na defesa da CIOLS (Confederação Internacional das Organizações dos Sindicatos Livres) veja matéria publicada neste blog: http://revolucaovietnamita.blogspot.com/2009/10/para-burguesada-do-pt-e-seus-aceclas.html  Houve várias mudanças como a da flexibilização nas relações capital e trabalho.

Mas não entra na minha cabeça e, já começo a ficar preocupado, a eleição de José Serra para Presidente do Brasil. Alguém ai está fora de sintonia com a realidade histórica das lutas sociais.

Queremos sim, queremos um Brasil Socialista, um Brasil verdadeiramente para os trabalhadores e governado pelos trabalhadores.

Esta possibilidade remota da eleição de Serra está nascendo sob a égide do desvio e da irresponsabilidade política daqueles que teriam tudo para honrarem a ascensão de um trabalhador no mais alto cargo político do país. Neste caso, os meios não justificam os fins.

Este comentário nos remete as dezenas de denuncias sobre corrupção durante o governo do PT que é hoje a “carta na manga” dos também corruptos ligados ao PSDB.

Há um fator determinante pra mim, que, mesmo que na contramão da lógica atual, e trata-se na verdade do passado de Dilma Roussef (não vamos comparar com o de Serra), que na sua juventude estudantil participou de corpo presente da resistência armada contra a Ditadura militar.

 O que me faz pensar e refletir é exatamente a diferença nos ideais que se estabeleceu entre os candidatos em questão.

Dilma Roussef, mesmo com a pecha da representatividade burguesa, é pra mim a possibilidade concreta de luta e de espaços democraticamente falando para os movimentos sociais em todas as suas vertentes. Alguém consegue imaginar algo mais assustador do que a ascensão do PSDB ao Palácio do Planalto?


Sem estar pretendendo justificar, a minha história de lutas dos anos 70, eu tento relatar nesta postagem que fiz neste blog: http://revolucaoeluta.blogspot.com/2009/09/aconteceu-no-dia-7-de-setembro_5694.html  

Por tudo que vivencie, por tudo sofri e lutei, por tudo que representa esta eleição, eu não vou ficar indiferente. Eu confio muito mais em uma ex revolucionaria do que em almofadinha de discurso fácil. Eu vou votar em Dilma Roussef, e, mesmo que lá na frente nos encontrarmos em barricadas diferentes. ...


Ousar Lutar, Ousar Vencer!


















“Ser trotskista hoje não significa estar de acordo com tudo aquilo que escreveu ou o que disse Trotsky, mas sim saber fazer-lhe críticas ou superá-lo, como a Marx, a Engels ou Lênin, porque o marxismo pretende ser científico e a ciência ensina que não há verdades absolutas. Em primeiro lugar, ser trotskista é ser crítico, inclusive ao próprio trotskismo”. (NAHUEL MORENO)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

SÓ A MILITÂNCIA IDEALISTA DO PT SALVARÁ ESTA ELEIÇÃO

      Celso Lungaretti*    

O day after foi melancólico.

De um lado, os demotucanos estão sendo bem persuasivos nas tentativas para convencer Marina Silva a suicidar-se politicamente.

Tomara que ela não ouça o canto dessas sereias -- como as mitológicas, carnívoras.


Se fizer uma composição com os representantes da ganância capitalista exacerbada e sem limites, ajudará a devolver o poder à pior direita brasileira.

Em termos ambientais, será um desastre.

E, claro, isto lhe seria cobrado adiante: sua responsabilidade pessoal num grave retrocesso histórico.

Iria virar uma morta sem sepultura, como o ex-Gabeira.

Voltar à esfera de influência do PT para receber um Ministério mais importante desta vez? É pouco para a dimensão que ela atingiu. Só se lhe oferecerem bem mais.

O pior é que seu partido já não é mais verde: amadureceu e apodreceu. Está traindo o compromisso assumido de combater as práticas ambientais predatórias, ao aliar-se com quem as encarna.

Então, Marina está numa sinuca de bico.

Como a decisão de a quem apoiar no 2º turno é impostergável, a sabedoria política manda que fique neutra, liberando o voto do seu eleitorado.

Assim, conservará intacto o patrimônio político que acumulou como terceira via, preservando-se para passos mais ambiciosos no futuro.

Depois, com mais vagar, vai ter de escolher um partido para o projeto 2014, já que o PV virou mera linha auxiliar da direitona.

Aliás, a única afirmação reveladora de Marina nesta 2ª feira, desconsiderado o blablablá convencional sobre as consultas que fará antes de anunciar sua decisão, foi esta:

"O resultado que tivemos de aprovação ao projeto meu e do [vice] Guilherme [Leal] é muito maior que o nosso partido".

Corretíssimo. Ela precisará de um partido mais adequado para suas pretensões vindouras, nem que tenha de criar um, como Fernando Collor fez (PRN).

Suas próximas decisões determinarão se ela é uma estrela que veio para ficar ou uma supernova que logo irá perdendo o brilho, como Heloísa Helena.

FASCINADOS PELO ABISMO

Já as avaliações que petistas fizeram do resultado frustrante foi mais frustrante ainda: aconselharam a campanha de Dilma a perseverar nos erros.

Uns falam em esclarecer melhor a questão do aborto, no sentido de tentar iludir o eleitorado, martelando sem parar que, desde criancinha, ela nega às mulheres o direito de opção.

Cogitam até a retirada da descriminalização do aborto do plano de governo de Dilma.

Então, estamos conversados: se filmes repulsivos como Tropa de Elite conseguirem convencer contingente expressivo do eleitorado de que a tortura é válida, o PT correrá a apoiar a tortura...

O recuo em questão só servirá para fazê-la parecer oportunista e falsa, pois o que disse no passado está publicado e será relembrado ad nauseam pelos antagonistas.

Outros dirigentes petistas recomendam a insistência nas comparações entre os governos de Lula e de FHC, quando a comparação a ser feita é bem outra: entre um projeto político esquerdista, sintonizado com a justiça social, e um projeto político direitista, sintonizado com a desigualdade e a exclusão inerentes ao capitalismo.

Caso seja necessário, ilustrarei com desenhos: O PT NÃO VAI GANHAR ESTA ELEIÇÃO SEM SUA MILITÂNCIA IDEALISTA, AQUELA QUE SÓ SE MOBILIZARÁ POR MUDANÇAS EM PROFUNDIDADE E NÃO POR RETOQUES COSMÉTICOS NA FACE MONSTRUOSA DO CAPITALISMO.

Para esvaziar a ofensiva ideológica direitista, terá de guinar à esquerda.

Se continuar em cima do muro, ambíguo e cauteloso, alienará seus apoios naturais e nem sequer vai conquistar o eleitorado conservador de classe média, que sempre se colocará na trincheira contrária.

Trata-se da receita infalível para ser inapelavelmente batido, jogando no ralo uma eleição que estava 99% ganha.

(*) Jornalista e escritor

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Então táh...

Pesquisas realizadas dão conta que o presidente Lula ostenta mais de 80% com ótimo/bom de aprovação popular.

Cá com meus botões eu fico pensando: O que leva certos institutos de pesquisas a mascararem números relativos à atuação do governo federal?

Será a interdependência entre ambos?

Se por um lado existe está estupenda aprovação, por outro,  os números das urnas mostraram exatamente o contrário. Pela lógica este percentual de aprovação deveria ter sido refletido nas urnas.

Ora, Dilma recebeu quase 47% dos votos e Serra os outros 33%.

Então táh... Está aí a matemática das pesquisas.

Por curiosidade eu fiz uma pequena pesquisa no entorno de meu trabalho, na verdade com amigos e conhecidos de diversas correntes de pensamentos que me comentaram e, eu reproduzo em palavras. O governo de lula está mais ou menos assim: É corrupto, não atende a demanda na educação (lembraram das criticas feitas ao Pró UNI pelo Candidato do PSOL Plínio Sampaio referentes à transferência de dinheiro público para a Educação privada), e os números do emprego também são mentirosos.

Outro fato que foi comentado durante a pesquisa que fiz foi sobre o alto índice de violência que assola o país de ponta a ponta, e isto não escapa nem mesmo as cidades mais longínquas e do interior do Brasil. A violência urbana e rural é tanta que por si soterra qualquer argumento de avanços nas áreas sociais.

A educação é o setor social que mais tem a desejar uma ação revolucionaria e de investimentos massivos. Se realmente os números sociais maquiados nos debates fossem verdadeiros nós teríamos o pais mais tranqüilo socialmente falando. A reforma agrária ficou somente nos discursos. Nem mesmo o chamado projeto de cunho burguês petista e igrejeiro (Pastoral da Terra) chamado de “Nacional Desenvolvimentismo” foi colocado em prática.


E, incrivelmente (ou já esperado), para o PT, estar no poder é na verdade uma chance única, uma fonte de enriquecimento ilícito de suas lideranças, ou seja, é um governo capacho a serviço da elite econômica, e que está comprometido até a medula com todas as formas de corrupção. Governa em causa própria por interesse de classe.


Apenas lembrando que o PT é o representante mor da burguesia no poder.


Nunca nesse país os banqueiros ganharam tanto dinheiro à custa da miséria do povo.


O segundo turno das eleições presidênciais é visto como uma briga pelo poder entre irmãos siameses.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

PARA A NOMENKLATURA CUBANA, A CULPA É DOS TRABALHADORES

Texto de: Celso Lungaretti*

Logo que foi noticiado o plano cubano de demitir 500 mil funcionários do setor estatal, equivalentes a quase 10% dos trabalhadores do país, eu já lamentei a sorte dos coitadezas que não têm "sequer um sindicato que os defenda da guilhotina, digo, do enxugamento de quadros".




Exatamente uma semana depois, a enviada especial da Folha de S. Paulo a Havana bate na mesmíssima tecla, qualificando de "fenômeno original" o papel assumido pela entidade sindical, a Central dos Trabalhadores de Cuba, de anunciar e administrar o passaralho: "em vez de defender a manutenção dos empregos, é quem apresenta as propostas de cortes".


Pior ainda é a realidade que a retórica dos dirigentes nos permite vislumbrar:

"Não é possível manter três motoristas por equipe, pagando salários que não têm respaldo na produção" (Salvador Valdés Mesa, secretário-geral da CTC).


"[a reestruturação visa coibir] a baixa produtividade, as indisciplinas, as violações do estabelecido, o roubo, a falta de ética e atuações ilícitas por falta de exigência e rigor" (jornal Trabalhadores).

Para Valdés Mesa, a degola é necessária para a defesa da Revolução. "E, defendendo a Revolução, defendemos os trabalhadores."


Primeiramente, o óbvio: é repulsivo estarem apresentando medidas de ordem macroeconômica como se fossem tão somente um castigo para os trabalhadores relapsos.

Já não basta atirá-los na rua da amargura? Ainda têm de expô-los à execração dos demais, ao trombetearem que a culpa é deles mesmos?

O certo é que, por diversos motivos, dentre os quais o embargo estadunidense, o modelo cubano não estava funcionando e se decidiu admitir que os investimentos privados tenham maior peso na atividade econômica (hoje, sua participação está na casa de 5%).

Era isto que deveria ser exposto, honestamente, ao povo cubano. A verdade é revolucionária, lembram?


Mas, este poderia concluir que, afinal, os dirigentes não são infalíveis, errando como qualquer humano erra.

Então, para que não pairasse dúvida acerca da divindade da nomenklatura, o jeito foi vilificar os demitidos, erigindo-os em bodes expiatórios.
Que cada companheiro decida de que lado está, quando se chocam os trabalhadores e o Estado que deveria a eles pertencer. Eu me alinharei sempre com os trabalhadores.


De resto, fica mais uma vez evidenciado que eles não estão encarando o trabalho como sua contribuição para a sociedade. Têm a mesma má vontade e os mesmos desígnios individualistas de quem está submetido ao capitalismo.

Para não alongar esta discussão, constatarei que, se isto ocorre após cinco décadas de Revolução, só podemos depreender que:

ou os trabalhadores querem mesmo é melhora material, consumismo, lixando-se para a libertação da sociedade como um todo -- o que implicaria a inexistência de esperança para a humanidade;

ou o que pegou foi só a tentativa de se construir o socialismo num país isolado e atrasado.

Fico com Marx: nosso objetivo não é a igualdade na penúria, mas sim a distribuição equânime das riquezas.

As que já são geradas e as que o seriam caso o labor dos homens priorizasse o socialmente útil, descartando o suntuário e o parasitário (cujo peso é cada vez maior, à medida que se aprofunda a degenerescência do capitalismo).

A mudança de foco -- da ganância e da busca do privilégio para a solidariedade e o bem comum -- ou se dará em escala mundial, puxada pelos países de economia mais avançada, ou vai abortar, gerando modelos híbridos como o soviético, o chinês e o cubano, que fracassam e acabam reintroduzindo o capitalismo.

Estou sendo herético?

Não, estou apenas resgatando o Marx original, que pouca gente leu.
 
Disponível em: http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/2010/09/para-nomenklatura-cubana-culpa-e-dos.html
 
(*) Celso Lungaretti
 Jornalista e escritor

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O ALERTA DO DIA DO SOLDADO


Só não vê quem não quer!

Publicado no “Jornal do Comércio de Porto Alegre”


Autor: Paulo Ricardo da Rocha Paiva


Coronel de Infantaria e Estado-Maior


Para o Plano Brasil


O ALERTA DO DIA DO SOLDADO
Nada contra negociar caças, helicópteros e submarinos com a França ou outro país qualquer. Afinal de contas, não produzimos nada mesmo em termos de armamento convencional que seja capaz de fazer frente ao aparato bélico, de última geração, dos atores com potencial para representar alguma ameaça ao País, o que nos impede tiranicamente de partir do zero.


Todavia, os invejáveis recursos naturais do País: riquezas minerais, mananciais hídricos, energéticos, flora, fauna, biodiversidade enfim aí estão, esbanjando fartura sem par, incomensurável mesmo, em um mundo cada vez mais carente, sem que disponhamos das mínimas condições de seu repasse incólume para as novas gerações de brasileiros.


Que não se duvide, os caprichos dos cinco grandes encastelados no Conselho de Segurança da ONU são cada vez mais imprevisíveis. Uma tendência natural, entretanto, já está a se delinear, não escapando à percepção do observador mais arguto. Um desiderato acomodatício está envolvendo o grupelho de poderosos, ganhando contornos de um “colegiado ditatorial” de molde a mantê-los, de comum acordo, ad eternum, impondo as regras do jogo.


Governantes, políticos, intelectuais, o povo deste País como um todo, porém, ainda não se deu conta de que os butins para o regalo daquele “quinteto de leviatãs” são os pisados pelos nossos pés! Ninguém ainda atinou que necessitamos, para ontem, de um poder de dissuasão definitivo e imediato.





As impertinências do tão propalado “eixo do mal” não são nada se comparadas à mortandade das duas guerras do Iraque e a do Afeganistão. Afinal de contas, quem matou mais até agora, Bush ou Sadam, Barak ou Ahmadinejad?



Deve ser dito, só a 4ª Frota/USA: dispõe de 60 helicópteros e queremos negociar 50 com os franceses; conta com mais de 100 caças em seus porta-aviões e se pretende adquirir 36 na mesma fonte.




Em sendo assim, a única arma capaz de evitar desatinos por parte da “santa aliança” é um artefato bélico definitivo, por mais rudimentar que seja, com capacidade para desencorajar a concentração de forças de uma “coalizão de soldados universais imbuídos de desígnios humanitários e em nome da tão invocada comunidade de internacional”.


















A Coréia do Norte sabe disso e o Irã está correndo atrás, só o Brasil continua “dormindo em berço esplêndido”.


Paulo Ricardo da Rocha Paiva


Coronel de Infantaria e Estado-Maior


Disponível em: http://pbrasil.wordpress.com

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Os bolcheviques e Lenin

História da Revolução Russa
Léon Trotsky


No 3 de Abril, Lenine chegava a Petrogrado, vindo da emigração. É somente a partir desse momento que o partido bolchevique assume toda sua força e, o que é mais importante, a sua própria voz.

O primeiro mês da revolução tinha sido, para o bolchevismo, em tempos perturbados e de hesitações. No «Manifesto» do Comité central dos bolcheviques, redigido logo após a vitória da insurreição, dizia-se que «os operários das oficinas e das fábricas, assim como as tropas revoltadas, devem imediatamente eleger seus representantes no governo revolucionário provisório». O manifesto foi imprimido no órgão oficial do Soviete sem comentários nem objectivos, como se não se tratasse senão de uma questão académica. Mas mesmo os dirigentes bolcheviques davam à sua palavra de ordem um significado puramente demonstrativo. Eles agiam não tanto como representantes de um partido proletário que se prepara a abrir por sua própria iniciativa a luta pelo poder, mas como ala esquerda da democracia que, ao proclamar os seus princípios, dispôs-se, por um tempo indeterminado, a interpretar o papel de uma oposição leal.

Sokhanov afirma que na sessão do comité executivo do primeiro de Março o centro da discussão versa somente sobre as condições da transmissão do poder: contra o próprio facto da formação de um governo burguês, nem uma só voz se ouve, ainda se houvesse então no comité executivo, sobre trinta e nove membros, onze bolcheviques e simpatizantes cujos três membros do centro, Zalotsky, Chliapnikov, e Molotov, estavam presentes na sessão.

No dia seguinte, no Soviete, segundo a própria narração de Chliapnikov, sobre quatrocentos deputados, votaram contra a transmissão do poder à burguesia somente dezanove delegados, enquanto que a fracção bolchevique contava já quarenta delegados. Esse voto passou completamente despercebido, num procedimento formalmente parlamentar, sem claras contra-proposições do lado dos bolcheviques, sem luta e sem agitação qualquer na imprensa bolchevique.

No 4 de Março, o Bureau do comité central adoptou uma resolução sobre o carácter contra-revolucionário do governo provisório e sobre a necessidade de se orientar para a ditadura democrática do proletariado e dos camponeses. O comité de Petrogrado, reconhecendo não sem razão que esta resolução era puramente académica, dado que ela não indicava de forma nenhuma o que era necessário fazer no próprio dia, abordou o problema do lado oposto. Tendo conta da resolução sobre o governo provisório adaptada pelo Soviete, declarou que «não se opunha ao poder do governo provisório na medida que...» No fundo, era a posição dos mencheviques e dos socialistas-revolucionários, relatada somente na segunda linha das trincheiras. A resolução abertamente oportunista do comité de Petrogrado contradizia só na forma a posição do comité central cujo carácter académico não significava outra coisa senão a resignação política diante do facto consumado.

A disposição a inclinar-se, tácitamente ou com reservas, diante do governo da burguesia não obtinha de forma nenhuma um consentimento indiviso no partido. Os operários bolcheviques chocaram com o governo provisório, como uma fortaleza inimiga surgida de repente no caminho. O comité de Vyborg juntou numa reunião política milhares de operários e de soldados que, quase unanimemente, adoptaram uma resolução sobre a necessidade da tomada do poder pelo Soviete. Participando activamente nesta agitação, Dingelstedt testemunha o seguinte: «Não houve uma só reunião, uma só reunião operária que tivesse rejeitado a nossa resolução nesse sentido, no momento que se encontrava alguém para a propor.» Os mencheviques e os socialistas-revolucionários, não ousavam, nos primeiros tempos, declarar francamente como eles colocavam a questão do poder diante dos auditórios de operários e de soldados. A resolução de Vyborg, por causa do seu sucesso, foi imprimida e colada em cartazes. Mas o comité de Petrogrado proibiu essa resolução e Vyborg foi obrigada a ceder.

Sobre o conteúdo social da revolução e das perspectivas do seu desenvolvimento, a posição dos dirigentes bolcheviques não deixava de ser confusa. Chliapnikov conta que: «Nós estávamos de acordo com os mencheviques sobre a questão da fase da demolição revolucionária das relações feudalistas e de servidão, às quais se substituiriam todas as especies de «liberdades», particulares aos regimes burgueses.» A Pravda escrevia no seu primeiro número: «A tarefa essencial é... de instituir um reino republicano democrático.» Nas suas instruções aos deputados operários, o comité de Moscovo declarava: «O proletariado visa obter a liberdade afim de lutar pelo socialismo que é o seu objectivo final.» A alegação tradicional de um «objectivo final» sublinha suficientemente a distância histórica em relação ao socialismo. Ninguém passava esse ponto. O temor de passar as fronteiras da revolução democrática ditava uma política de temporização, de adaptação e recuo efectivo diante dos conciliadores.



Não é difícil compreender a penosa influência da sua política que a falta de carácter do centro tinha sobre a província. Limitemo-nos ao testemunho de um dos dirigentes da organização de Saratov: «O nosso partido, que tinha activamente participado na insurreição, deixa visivelmente escapar a sua influência sobre a massa, e esta influência foi interceptada pelos mencheviques e os socialistas-revolucionários. Quais eram as palavras de ordem dos bolcheviques, ninguém sabia nada... O quadro era muito desagradável.»

Os bolcheviques de esquerda, antes de mais os operários, esforçavam-se em romper a quarentena. Mas eles também não sabiam como fazer frente aos argumentos sobre o carácter burguês da revolução e os perigos do isolamento do proletariado. A contra-luz, eles submetiam-se às instruções dos dirigentes. Diversos correntes no bolchevismo, desde do primeiro dia, chocaram violentamente entre si, mas nem um deles não desenvolvia as suas ideias até ao fim. A Pravda reflectia este estado confuso e instável das ideias do partido sem contribuir para a unidade. A situação complicou-se mais em meados de Março, quando regressaram da deportação Kamenev e Estaline que deram uma brusca guinada à direita na política oficial do partido.»

Bolchevique desde do nascimento do bolchevismo, Kamenev manteve-se sempre na ala direita do partido. Não desprovido de preparação teórica e de faro político, possuía uma grande experiência da luta de fracções na Rússia e uma provisão de observações políticas feitas no Ocidente, Kamenev, melhor que muitos outros bolcheviques, compreendia as ideias gerais de Lenine, mas somente para lhe dar na prática uma interpretação tão pacífica que possível. Não se podia esperar dele nem independência na decisão, nem de iniciativa na acção. Notável propagandista, orador, jornalista, pouco brilhante mas reflectido, Kamenev era particularmente precioso nas conversações com os outros partidos e também como iniciador nos outros meios sociais, onde, de tais excursões, ele trazia sempre, à sua conta, algumas parcelas da mentalidade dos diferentes partidos. Esses traços de Kamenev eram de tal forma evidentes que quase ninguém se enganava sobre a sua fisionomia política. Sokhanov nota nele a ausência de «ângulos agudos»: é preciso «sempre rebocá-lo e se ele resiste um pouco, é de pouca duração.» No mesmo sentido pronunciou-se também Stankevitch: as atitudes de Kamenev em relação aos adversários «eram tão moles que, parece, ele próprio tinha vergonha da intransigência da sua posição; no comité ele era, indubitavelmente, não um inimigo, mas somente uma oposição». A isso não há nada a acrescentar.

Estaline representava um outro tipo de bolchevique, tanto pela sua formação mental, como pelo carácter do seu trabalho no partido: sólido organizador primitivo para a teoria e política. Se Kamenev, na qualidade de publicista, viveu um certo número de anos com Lenine na emigração onde se encontrava o foco do trabalho teórico do partido, Estaline, na qualidade do que se chama um activista, sem largos conhecimentos teóricos, sem grandes interesses políticos e sem conhecimento das línguas estrangeiras, era inseparável do chão russo. Tais militantes não iam ao estrangeiro senão em curtas viagens, para receber instruções, combinar tarefas a encetar e voltar à Rússia. Estaline distingui-se entre os activistas pela sua energia, sua teimosia e sua ingenuidade nas manobras nos bastidores. Se Kamenev, por natureza, «intimidava-se» diante das deduções práticas do bolchevismo, Estaline, em contrapartida, tendia a manter deduções práticas que ele assimilava sem qualquer moderação, combinando obstinação e rudeza.

Qualquer que seja a oposição de seus caracteres, não é por acaso que Kamenev e Estaline tomaram, no início da revolução, uma oposição comum: eles completavam-se mutuamente. Uma concepção revolucionária sem vontade revolucionária vale tanto como um relógio cuja mola está quebrada: a agulha política de Kamenev estava sempre atrasada nos problemas revolucionários. Mas a ausência de uma grande concepção política condena o político mais dotado de vontade a irresolução quando surgem acontecimentos grandes e complicados. O empirismo de Estaline está aberto às influências do exterior não do lado da vontade mas do lado do pensamento. É assim que um publicista sem volição e um organizador sem horizonte levaram, em Março, o seu bolchevismo até aos limites do menchevismo. Estaline, nas circunstâncias, encontrou-se ainda menos que Kamenev capaz de ocupar uma posição deliberada no comité executivo onde ele entrou como representante do partido. Não subsiste nos processos verbais ou na imprensa nenhuma proposição, declaração, protesto, pelos quais Estaline teria exprimido o ponto de vista bolchevique em contrapartida da atitude rastejante da «democracia» diante do liberalismo.

Sokhanov disse nas suas Memórias: «Entre os bolcheviques nessa época, além de Kamenev, surgiu, no comité executivo, Estaline... Durante todo o tempo da sua modesta actividade no comité executivo, (ele) produzia – não somente sobre mim – a impressão de uma mancha cinzenta que, por vezes, saltitava, terno e rápidamente apagado. Na verdade, não há nada a acrescentar sobre ele.» Se Sokhanov subestima evidentemente Estaline no conjunto, pelo menos caracteriza exactamente a sua impersonalidade política no comité executivo conciliador.


No 14 de Março, o manifesto «Aos povos do mundo inteiro», que interpretava a vitória da Revolução de Fevereiro segundo os interesses da Entente e significava o triunfo de um novo social patriotismo republicano de marca francesa, foi adoptado unanimemente pelo Soviete. Isso marcava um sucesso indubitável para Kamenev—Estaline, sucesso obtido, aparentemente, sem grande luta. A Pravda escrevia sobre isso que tinha um «compromisso consciente entre as diversas tendências representadas no Soviete». Convinha acrescentar que o compromisso marcava um nítida ruptura com a corrente de Lenine que, no Soviete, não se encontrava de forma nenhuma representado.

O membro da redacção do órgão central no estrangeiro Kamenev, o membro do comité central Estaline e o deputado na Duma, Moranov, igualmente regressado da Sibéria, afastaram a antiga redacção da Pravda demasiado «à esquerda» e, apoiando-se sobre os seus direitos problemáticos, meteram a mão no jornal a partir do 15 de Março. No artigo/programa da nova redacção, declararam que os bolcheviques apoiavam o governo provisório, «na medida onde este combate a reacção e a contra-revolução». Sobre a questão da guerra, os novos dirigentes não se pronunciavam categóricamente: enquanto que o exército alemão obedecesse ao imperador, o soldado russo devia «ficar no seu posto, ripostar a todas as balas e aos obuses». «Nós não adoptamos a palavra de ordem inconsistente «Abaixo a guerra!» Nossa palavra de ordem consiste em exercer uma pressão sobre o governo provisório para o obrigar... a fazer uma tentativa com o objectivo de dispor todos os países beligerantes a abrir imediatamente conversações... Mas, até lá, cada um fica no seu posto de combate!»

As ideias, tal como as formulas, vão totalmente no sentido da defesa nacional. O programa de pressão sobre o governo imperialista com o objectivo de o «dispor» a procedimentos de acção pacífica era o programa de Kautsky na Alemanha, de Jean Longuet em França, de MacDonald na Inglaterra, mas não era de forma nenhuma o programa de Lenine que incitava ao derrube da dominação imperialista. Ao ripostar à imprensa patriótica, a Pravda ia ainda mais longe: «Todo «derrotismo» - escrevia-se nela, ou mais exactamente o que uma imprensa pouco delicada, sob a vigilância da censura czarista, estigmatizava desse nome, morreu no momento onde, nas ruas de Petrogrado, se mostrou o primeiro regimento revolucionário.» Era separar-se nitidamente de Lenine. O «derrotismo» não tinha sido inventado pela imprensa inimiga sob a vigilância da censura, era Lenine que a tinha formulado assim: «A derrota da Rússia, é o mal menor.» A aparição do primeiro regimento revolucionário e mesmo a queda da monarquia não mudava em nada o carácter imperialista da guerra. «No dia da saída do primeiro número da Pravda transformada, no 15 de Março – conta Chliapnikov – foi um dia de jubilação entre os partidários da defesa nacional. Todo o palácio Tauride, desde de gente de negócios do comité da Duma do Estado, até ao próprio centro da democracia revolucionária – o comité executivo retinia uma notícia: a vitória dos bolcheviques moderados, razoáveis, sobre os extremistas. No próprio comité executivo, receberam-nos com sorrisos venenosos... Quando esse número da Pravda chegou nas fábricas, causou uma profunda estupefacção entre os membros do nosso partido e nos simpatizantes, assim que a satisfação sarcástica entre os nossos adversários... A indignação nos bairros foi enorme, e quando os proletários souberam que a Pravda tinha caído nas mãos de três dos seus antigos dirigentes, regressados da Sibéria, exigiram a sua exclusão do partido.»

A Pravda logo foi obrigada a imprimir um veemente protesto dos militantes de Vyborg: «Se o jornal não quer perder a confiança dos bairros operários, ele deve trazer e trará a luz da consciência revolucionária, qualquer que seja a dor para as corujas da burguesia.» Os protestos da base obrigaram a redacção a tornar-se mais circunspecta nas suas expressões, mas a não mudar de política. Mesmo o primeiro artigo de Lenine que pôde intervir do estrangeiro não mudou a consciência da redacção. A orientação ia completamente para a direita. «Na nossa agitação – conta Dingelstedt, representante da ala esquerda – é necessário contar sobre o princípio do duplo poder... e demonstrar a o carácter inelutável desta via contornada a essa massa de operários e de soldados que, durante quinze dias de vida política intensa, era educada na compreensão completamente diferente das suas tarefas.»

A política do partido em todo o país regulava-se naturalmente sobre a Pravda. Nos numerosos sovietes, resoluções sobre questões essenciais eram agora adoptadas unanimemente: os bolcheviques inclinavam-se muito simplesmente diante da maioria soviética. Na conferência de Moscovo, os bolcheviques juntaram-se à resolução dos sociais patriotas sobre a guerra. Enfim, na Conferência pan-russa dos representantes de oitenta e dois sovietes que teve lugar em Petrogrado, no fim de Março e no princípio de Abril, os bolcheviques votaram pela resolução oficial sobre o poder defendida por Dan. Essa aproximação política extremamente pronunciado com os mencheviques situava-se na base das tendências unitárias que se tinham largamente desenvolvidas. Na província, os bolcheviques e os mencheviques unificavam-se nas organizações comuns. A fracção Kamenev—Estaline transformava-se cada vez mais numa ala esquerda da dita democracia revolucionária e incorporava-se no mecanismo de «pressão», nos bastidores parlamentares, sobre a burguesia, que ela completava por uma pressão, nos bastidores, sobre a democracia.

Os membros do comité central que residiam no estrangeiro e a redacção do órgão central, o Social-democrata, constituía o centro espiritual do partido. Lenine, com Zinoviev na qualidade de auxiliar, fazia todo o trabalho de direcção. As obrigações do secretariado, extremamente cheias de responsabilidades, eram cumpridas pela mulher de Lenine, Krupskaia. Nesse trabalho prático, esse pequeno centro apoiava-se na ajuda de algumas dezenas de bolcheviques emigrados. O afastamento da Rússia tornava-se, no decurso da guerra, tanto mais insuportável que a polícia da Entente apertava cada vez mais os entraves. A explosão da revolução, há muito esperada, foi imprevista. A Inglaterra recusou categóricamente aos imigrados internacionalistas, dos quais ela mantinha metódicamente em dia as listas, de os deixar passar para a Rússia. Lenine exasperava-se, numa gaiola de Zurique, a procurar um saída. Numa centena de planos elaborados um após outro, teve que atravessar com o passaporte de um escandinavo surdo-mudo.

Ao mesmo tempo, Lenine não perde uma ocasião de ouvir, da Suíça, a sua voz. Desde do 6 de Março, telegrafou, por Estocolmo, para Petrogrado: «Nossa táctica: desafio completo, nenhum apoio ao novo governo: desconfiemos de Kerensky: armamento do proletariado – única garantia: eleições imediatas à Duma de Petrogrado: nenhuma aproximação com outros partidos.» Só a exigência de eleições à Duma, e não ao Soviete, tinha nesta primeira directiva um carácter episódico e foi logo rejeitada: os outros pontos, formulados nos temos categóricos de um telegrama, desenham já inteiramente a direcção geral da política. Além disso, Lenine começa a enviar à Pravda as suas Cartas de longe que, continham uma análise inacabada da situação revolucionária. Os notícias dadas pelos jornais do estrangeiro permitiram-lhe logo concluir que o governo provisório, com a assistência directa não somente de Kerensky, mas também de Tschkheidze, engana não sem sucesso os operários, ao apresentar a guerra imperialista como uma guerra de defesa nacional. No 17 de Março, ele expediu por intermediário de amigos em Estocolmo uma carta cheia de apreensões. «O nosso partido se desonraria para sempre, se suicidaria políticamente, se ele admitisse semelhante impostura... Eu preferia mesmo uma cisão imediata com qualquer um do nosso partido em vez de ceder ao social-patriotismo...» Após esta ameaça, aparentemente impessoal, portanto calculada para atingir certas pessoas, Lenine esconjura: «Kamenev deve compreender que em cima dele cai uma responsabilidade histórica de importância mundial.» Kamenev é designado porque se trata de questões de princípio da política. Se Lenine tivesse como perspectiva uma tarefa prática de combate, ele ter-se-ia lembrado logo de Estaline. Mas justamente no momento onde Lenine se esforçava de transmitir, através da Europa fumegante, para Petrogrado, a tensão da sua vontade, Kamenev, com o concurso de Estaline, voltava bruscamente para o social-patriotismo.

Diversos planos – perucas, maquilhagem, passaportes falsos ou emprestados – caiam uns após outros, irrealizáveis. Ao mesmo tempo afirmava-se cada vez mais concretamente a ideia da passagem pela Alemanha. Esse plano assustava a maior parte dos emigrados e não somente os patriotas. Martov e os outros mencheviques não ousaram juntar-se à audaciosa iniciativa de Lenine e continuaram a bater inutilmente às portas da Entente. Recriminações sobre a passagem pela Alemanha foram feitas por numerosos bolcheviques, por causa das dificuldades que o «vagão blindado» suscitou no domínio da agitação. Lenine, desde do início não tinha esquecido as dificuldades futuras. Krupskaia escrevia ao mesmo tempo antes da partida de Zurique: «Bem entendido, na Rússia, os patriotas irão gritar, mas somos forçados a estar preparados.» A questão colocava-se assim: ou ficar em Suíça, ou passar pela Alemanha. Nenhuma outra via não estava aberta. Lenine poderia hesitar mais um minuto? Exactamente um mês mais tarde, Martov, Axelrod e outro tiveram que se comprometer a seguir Lenine.



Na organização dessa viagem insólita através de um país inimigo em tempo de guerra afirmava-se os traços essenciais de Lenine como homem político: a ousadia do projecto e uma meticulosa circunspecção no exercício. Nesse grande revolucionário vivia um notário pretencioso que, portanto, conhecia o seu lugar e empreendia a redacção do seu acto no momento onde isso podia ajudar à destruição de todos os actos notariais. As condições da passagem através da Alemanha, elaboradas com o máximo cuidado, deram lugar a um tratado original internacional entre a redacção de um jornal de emigrados e o império do Hohenzollern. Lenine exigia para o transito um direito absoluto de extraterritorialidade: nenhum controlo sobre o contingente dos viajantes, seus passaportes e sua bagagens, ninguém tem o direito de entrar no meio do percurso no vagão (daí a legenda do vagão «blindado»). Pelo seu lado, o grupo de emigrados comprometia-se a reclamar que se libertasse da Rússia um número correspondente de prisioneiros civis, alemãs e austro-húngaros.

Em colaboração com alguns revolucionários estrangeiros uma declaração foi elaborada: «Os internacionalistas russos que... regressam agora à Rússia para servir a revolução ajudar-nos-ão ao levantamento dos proletários dos outros países, em particular os proletários da Alemanha e da Áustria, contra seus governos.» Assim falava o processo verbal assinado por Loriot e Guilbeaux pela França, por Paul Lévy pela Alemanha, por Patten pela Suíça, pelos deputados suecos de esquerda, etc.. Nessas condições e com essas precauções, partiram da Suíça, no fim do mês de Março, trinta emigrados russos, no meio de vagões de munições – eles próprios sendo um cargamento explosivo de extraordinária potência.

Na sua Carta de adeus aos operários suíços, Lenine lembrava a declaração feita pelo órgão central dos bolcheviques durante o Outono de 1915: se a revolução leva na Rússia ao poder um governo republicano desejando continuar a guerra imperialista, os bolcheviques opor-se-ão à defesa da pátria republicana. Actualmente, apresenta-se esta situação. «A nossa palavra de ordem: nenhum apoio ao governo Gotchkov—Miliokov.» Falando assim, Lenine colocava o pé no território da revolução.

Os membros do governo provisório não se aperceberam portanto de qualquer motivo para se alarmarem. Nabokov conta isto: «Numa sessão do governo provisório, em Março, durante uma suspensão, então que se continuava a discutir a propaganda bolchevique que se desenvolvia cada vez mais, Kerensky declarou com um riso histérico que lhe era habitual: «Esperai um pouco, o próprio Lenine vem aí, e então isso vai tornar-se sério...» Kerensky tinha razão: esperava-se ainda que isso se tornasse sério. Todavia, os ministro, segundo Nabokov, não viam razão de se inquietar: «O facto que Lenine se tenha dirigido à Alemanha enfraquecerá a sua autoridade que não há razão a temer.» Como era do seu género, os ministros eram bastante perspicazes.

Os amigos e disciplos foram ao encontro de Lenine na Finlandia. «Logo após ter entrado no compartimento e de se ter assentado no banco – conta Raskolnikov, jovem oficial da marinha e bolchevique – Vladimir Illitch caiu logo sobre Kamenev: - O que é que você escreve na Pravda? Nós vimos alguns números e injuriámos você...» Tal foi o reencontro após vários anos de separação. O que não impediu que ele fosse cordial.

O comité de Petrogrado, com a ajuda da organização militar, tinha mobilizado vários milhares de operários e soldados para receber solenemente Lenine. Uma divisão amigável disposta, a dos autos blindados, tinha enviado para a ocasião todas as suas máquinas. O comité decidiu ir à gare com as tripulações de guerra: a revolução tinha já despertado uma paixão por esses monstros obtuses que é tão vantajoso ter do seu lado nas ruas de uma cidade.

A descrição do encontro oficial que teve lugar na sala dita «imperial» da gare da Finlandia constitui uma página muito viva nas Memórias de numerosos tomos espessos de Sokhanov. «Na sala imperial entrou, ou melhor, acorreu Lenine, trajando um chapéu melão, de rosto imóvel, tendo na mão um magnífico ramo de flores. Parando sua marcha no meio da sala, colocou-se diante de Tchkheidze como se tivesse chocado com um obstáculo inesperado. E aí, Tchkheidze, sem abandonar o seu ar triste, pronunciou o «saudação» seguinte, mantendo não somente no espírito, não somente à redacção, mas ao tom de uma lição de moral: «Camarada Lenine, em nome do Soviete de Petrogrado e de toda a Revolução, saudamos a sua chegada à Rússia... Mas consideramos que a tarefa principal da democracia revolucionária é agora defender a nossa revolução de todos os atentados que poderiam lhe ser feitos contra ela, tanto do interior como do exterior... Nós esperamos que com nós você continuará esses objectivos.» Tchkheidze calou-se. Diante deste discurso inesperado, eu fiquei desconcertado... Mas Lenine, evidentemente, sabia muito bem como se comportar diante de tudo isso. A sua atitude era a de um homem que nada toca do que se passa à volta dele: ele olha de um lado e de outro, examinou os rostos, levou o olhar até ao tecto da sala «imperial», compondo o seu ramo (que não concordava nada com o conjunto da sua pessoa, e, seguidamente, voltando as costas à delegação do comité executivo, «respondeu» assim: «Caros camaradas, soldados, marinheiros e operários, estou feliz ao saudar em vocês a revolução russa vitoriosa, saudá-los como a vanguarda do exército proletário mundial... A hora não estará longe onde, ao apelo do nosso camarada Karl Liebknecht, os povos voltarão as armas contra os capitalistas exploradores... A revolução russa realizado por vós abriu uma nova época. Viva a revolução socialista mundial!...»

Sokhanov tem razão, - o ramo de flores concordava mal com o conjunto da fisionomia de Lenine, estorva-o indubitavelmente e incomodava-o como um objecto sem sentido no ambiente severo. E, além disso, Lenine não gostava de flores em ramo. Mas devia ser de estar ainda mais incomodado por esta recepção oficial e hipocritamente moralizadora num sala de aparato da gare. Tchkheidze valia melhor que o seu discurso de recepção. Ele tinha um pouco medo de Lenine. Mas tinha-no persuadido que era preciso metê-lo na ordem logo à chegada, «o sectário». Para completar o discurso de Tchkheidze, que provava o nível lamentável da direcção, um jovem oficial das tripulações da frota, falando em nome dos marinheiros, teve essa boa ideia de desejar que Lenine se tornasse membro do governo provisório. Foi assim que a Revolução de Fevereiro, frouxa, prolixa e ainda ingénua, recebia um homem que tinha vindo com a firme intenção de lhe impor pensamento e vontade. Já, essas primeiras impressões de Lenine, aumentando muito a inquietude que ele tinha ao chegar, provocaria um sentimento de protesto dificilmente contida. Mais valia arregaçar as mangas depressa. Ao apelar a Tchkheidze, aos marinheiros e aos soldados, à defesa da pátria, à revolução internacional, do governo provisório a Liebknecht, Lenine só fazia, na gare, uma pequena repetição de toda a sua política ulterior.

E, portanto, esta revolução pacóvia adoptou no primeiro momento e sólidamente o líder no seu seio. Os soldados exigiram que Lenine tomasse lugar sobre um dos autos blindados e ele obedeceu. A noite que caía deu ao cortejo um carácter particularmente imponente. As luzes dos outros auto blindados estando apagadas, as trevas eram furadas pela luz clara dos faróis da viatura na qual viajava Lenine. A luz projectada destacava na escuridão das ruas grupos agitados de operários, de marinheiros, desses mesmos que tinham realizado a maior das insurreições, mas que tinham deixado o poder escapar-se entre seus dedos. A fanfara militar deixou de tocar, várias vezes, durante o percurso, para dar a Lenine a possibilidade de repetir, com variantes, o discurso pronunciado na gare diante de novos auditores. «O triunfo foi espantoso – dise Sokhanov – e mesmo bastante simbólico.»

No palácio de Kszesinka, quartel general bolchevique no ninho sedoso da bailarina da Corte - esta justaposição devia divertir a ironia de Lenine sempre desperta – recomeçaram os cumprimentos. Era demasiado. Lenine aguentou chuvas de elogios de forma que um peão impaciente suporta a chuva debaixo do limiar de um portão de garagem. Ele sentia que se alegravam com a sua chegada, mas irritava-o esta alegre grande eloquência. O próprio tom das felicitações oficiais parecia imitado, fingido, numa palavra emprestada à democracia pequeno-burguesa, declamadora, sentimental e falaciosa. Ele via que a revolução, não tendo ainda determinado as suas tarefas e o seu caminho, tinha já instituido a sua etiqueta aborrecida. Ele sorria com uma bonomia zangada, consultando seu relógio, e por instantes, não se incomodava provavelmente de bocejar. As palavras do último arengo tinham apenas deixado de entoar quando o insólito aconteceu vazando sobre o auditório uma cascata de ideias apaixonantes que ressoavam demasiadas vezes como chicotadas.

Nesse tempo, a arte da estenografia ainda não tinha sido descoberta pelos bolcheviques. Ninguém tomava notas, todos estavam absorvidos por aquilo que se passava. O discurso não subsistia, só ficou uma impressão geral nas lembranças dos auditores, mas esta mesma impressão geral foi modificada pelo tempo: o entusiasmo foi crescendo, o pavor diminui. Portanto, a impressão principal, mesmo entre os mais próximos de Lenine, era precisamente este terror. Toda as formulas habituais que, parecia, tinha adquirido num mês uma solidez inquebrável graças aos inumeráveis repetições, caíam uns após outros diante do auditório. A curta réplica de Lenine, na gare, enviada por cima da cabeça de Tchkhedze embaraçado, foi aqui desenvolvida num discurso de duas horas dirigido directamente aos quadros bolcheviques de Petrogrado.

Por acaso, a título de convidado, admitido graças à boa vontade de Kamenev – Lenine tinha horror dessas indulgencias – assistia a essa sessão o sem partido Sokhanov. Foi assim que nós temos uma descrição, feita por um observador do lado, meio hostil, meio entusiasta, do primeiro encontro de Lenine com os bolcheviques de Petrogrado.

«Nunca mais esquecerei esse discurso trovejante, que fez tremer e deixou estupefactos não só a mim, herético chegado lá por acaso, mas também todos os ortodoxos. Afirmo que ninguém não esperava nada igual. Parecia que, das suas tocas, se levantassem todos os elementos e que o espírito da destruição universal, não conhecia limites, nem dúvidas, nem dificuldades humanas, nem cálculos humanos, planava no salão de Kszesinska sobre as cabeças dos disciples embruxados.»

Dificuldades e cálculos humanos, para Sokhanov, são principalmente as hesitações do pequeno círculo da redacção da Novaia Jisn, ao tomar o chá na casa de Máximo Gorki. Os cálculos de Lenine eram mais profundos. Não eram elementos que rondavam sala, era um pensamento humano que não intimidavam os elementos que se esforçavam por os compreender para os dominar. Mas, pouco importa: a impressão está dada de forma viva.

«Quando meus camaradas e eu chegámos aqui – dizia Lenine, segundo Sokhanov – pensei que nos conduzissem directamente da gare à fortaleza de Pedro e Paulo. Como se vê, estamos longe disso. Mas nós não perdemos esperança de escapar a isso ainda e de a evitar.» No momento onde, para outros, o desenvolvimento da revolução equivalia à consolidação da democracia, para Lenine a perspectiva mais imediata era de voltar para a fortaleza de Pedro e Paulo. Disseram que era uma sinistra piada. Mas Lenine não se dispunha de forma nenhuma a brincar, e a revolução menos que ele.

Sokhanov queixou-se: «Ele rejeitou a reforma agrária pela via legislativa assim como o resto da política do Soviete. Ele proclama a confiscação organizada da terra pelos camponeses, sem demora... qualquer que fosse o poder do Estado.»

 
«Nós não necessitamos de uma república parlamentar, nós não precisamos de uma democracia burguesa, nem de nenhum governo fora dos sovietes de deputados operários, soldados e operários agrícolas!»

Ao mesmo tempo, Lenine afastava-se claramente da maioria soviética, rejeitando-a no campo dos adversários. «Nesse período, não era necessário muito para o auditor ter vertigem!»

«Só, a esquerda de Zimmerwald preside a defesa dos interesses proletários e da revolução mundial – exclamava Sokhanov, traduzindo com indignação as ideias de Lenine. Os outros, são sempre os mesmos oportunistas que pronunciam belos discursos, mas, na realidade,... atraiçoam a causa do socialismo e das massas operárias.»

«Ele cai resolutamente sobre a táctica precedente aplicada pelos grupos dirigentes do partido e certos camaradas antes da sua chegada», acrescenta Rskolnikov às palavras de Sokhanov. «Aqui estavam presentes o maiores militantes responsáveis do partido. Mas, para eles também, o discurso de Illitch era uma verdadeira revelação. Ele traçou o Rubicão entre a táctica da véspera e a do dia.» O Rubicão, como veremos, não foi traçado de uma só vez.

Não houve debates sobre o relatório: todos estavam demasiado atordoados e cada um tinha vontade de juntar pelo menos os seus pensamentos. «Saí para a rua – termina Sokhanov: a minha sensação era de ter recebido, nessa noite, pancadas na cabeça. Uma só coisa era clara: não, eu, selvagem, não caminharei com Lenine!» Acreditamos!

No dia seguinte, Lenine apresentou ao partido uma breve exposição escrita das suas ideias que se tornaram um dos mais importantes documentos da revolução, sob a denominação de «Teses de Abril». As teses exprimiam pensamentos simples, em termos simples e acessíveis a todos. «A república que saiu da insurreição de Fevereiro não é a nossa república, e a guerra que trava não é a nossa guerra. A tarefa para os bolcheviques é de derrubar o governo imperialista. Mas este mantém-se graças ao apoio dos socialistas-revolucionários e dos mencheviques, os quais se apoiam na confiança das massas populares. Estamos em minoria. Nessa condições, está fora de questão um acto de força da nossa parte. É necessário ensinar às massas a não se fiar nos conciliadores e nos partidários da defesa nacional. «É preciso dar pacientemente explicações.» O sucesso de uma tal política, imposta pelo conjunto das circunstâncias, é garantido e nos levará à ditadura do proletariado, consequentemente nos conduzirá para além do regime burguês. Nós queremos romper totalmente com o capital, publicar seus tratados secretos e incitar os operários do mundo inteiro a quebrar com a burguesia e a liquidar a guerra. Nós começamos a revolução internacional. Só o sucesso desta revolução consolidará a nossa, e assegurará a passagem ao regime socialista.

As teses de Lenine foram publicadas em seu nome, e somente em seu próprio nome. As instituições centrais do partido acolheram-as com um hostilidade que misturava estupefacção. Ninguém – nem organização nem grupo, nem nenhum militante – não juntou a sua assinatura. Mesmo Zinoviev, que tinha chegado com Lenine do estrangeiro onde o seu pensamento se tinha formado, durante dez anos sob a influência directa e diária de Lenine, afastou-se em silêncio. E esse afastamento não foi surpreendente para o mestre que conhecia demasiado bem o seu próximo disciple. Se Kamenev era um propagandista divulgador, Zinoviev era um agitador, e mesmo, segundo a expressão de Lenine, era só isso. Par era um líder, faltava-lhe demasiado sentimento da responsabilidade. Mas não era só isso que lhe faltava. Desprovido de disciplina interior, seu pensamento era completamente incapaz d trabalho teórico e dissolveu-se na instituição informe do agitador. Graças à um faro excepcionalmente subtil, ele apanhava tudo no ar, as formulas que ele necessitava, isto é as que lhe ajudavam a mais efectiva acção sobre as massas. E como jornalista, e como orador, era invariavelmente um agitador, com a diferença que, nos seus artigos, mostra-se sobretudo pelos seus lados fracos, enquanto que nos seus discursos os lados fortes ganham. Muito mais audacioso e desenfreado na agitação que qualquer outro bolchevique, Zinoviev é ainda menos capaz que Kamenev de uma iniciativa revolucionária. É irresoluto, como todos os demagogos. Tendo trocado a arena dos conflitos de fracções pelas lutas de classes imediatas, Zinoviev separava-se quase involuntariamente do seu mestre.

Nesses últimos anos, as tentativas não foram numerosas para demonstra que a crise de Abril do partido tinha sido um deslize passageiro e quase acidental. Tudo isso afundou-se no primeiro contacto com os factos.
Já, o que nós sabemos da actividade do partido no decurso de Março, nos mostra uma contradição muito profunda entre Lenine, a contradição tinha atingido a sua mais alta tensão. Ao mesmo tempo que a conferência pan-russa dos representantes dos oitenta e dois sovietes, onde Kamenev e Estaline votavam por uma resolução sobre o poder deposta pelos socialistas-revolucionários e mencheviques, teve lugar em Petrogrado a conferência do Partido, composta de bolcheviques vindos de todos os pontos da Rússia. Para caracterizar as tendências e as opiniões do partido, ou mais exactamente da sua camada superior, tal como ela saiu da guerra, a conferência à qual compareceu Lenine como ela terminava, apresentando um interesse completamente excepcional. A leitura dos processos verbais, não publicados até a esse dia, suscita mais que uma vez a admiração: era o partido representado por esses delegados que em sete meses mais tarde deveria tomar o poder com mão de ferro?

Desde da insurreição, um mês tinha passado – um longo período para uma revolução como para uma guerra, todavia, no partido, as opiniões não se tinham ainda clarificado sobre as questões mais essenciais da revolução. De patriotas extremos, tais que Voitinsky, Eliav, e outro participavam na conferência ao lado dos que se consideravam como internacionalistas. A percentagem de patriotas declarados incomparavelmente menor que entre os mencheviques, era contudo importante. A conferência, no seu conjunto, não resolveu a questão: cisões com os seus próprios patriotas ou união com os patriotas do menchevismo. No decurso de uma interrupção de sessão da conferência bolchevique, teve lugar uma reunião comum de bolcheviques e de mencheviques, delegados da conferência dos sovietes, para discutir a questão da guerra. O mais fogoso menchevique patriota, Liber, declarou nessa assembleia: «A distinção feita há pouco entre bolcheviques e mencheviques deve ser afastada e é preciso somente falar da nossa atitude em relação à guerra.» O bolchevique Voitinsky não tardou a proclamar que ele estava pronto a apoia as palavras de Liver. Todos juntos, bolcheviques e mencheviques, patriotas e internacionalistas, procuravam uma formula comum exprimindo a sua atitude em relação à guerra.

As opiniões da conferência bolchevique encontraram indubitavelmente a sua expressão mais adequada no relatório de Estaline sobre a atitude em relação do governo provisório. É indispensável citar aqui a ideia central do relatório que, até ao presente, não tinha sido publicado em parte alguma, nem mais que os processos verbais no seu conjunto. «O poder é partilhado ente dois órgãos cujo todo o poder ninguém possui. Fricções e uma luta entre eles existem e devem ser. Os papeis são partilhados. O Soviete tomou a iniciativa das transformações revolucionárias: o Soviete é o líder revolucionário do povo rebelado, órgão controlando o governo provisório. Mas o governo provisório tomou de facto o papel de consolidar as conquistas do povo revolucionário. O Soviete mobiliza as forças, exerce um controlo. O governo provisório, resistente, atrapalhado, pretende consolidar as conquistas que o povo efectivamente fez. Esta situação tem lados negativos, mas ela também tem positivos: nós não temos mais por agora que forçar a marcha dos acontecimentos ao acelerar o processo de expulsão das camadas burguesas que inevitavelmente, deverão se desligar de nós.»

As relações entre a burguesia e o proletariado desenham-se pelo relator, que se situou acima das classes, como uma simples divisão de trabalho. Os operários e os soldados realizam a revolução, Gotchkov e Miliokov «consolidam-na». Nós reconhecemos aqui a concepção tradicional do menchevismo, inexactamente copiada nos acontecimentos de 1789. São precisamente os líderes do menchevismo que caracterizam esta atitude de inspectores diante do proceso histórico, esta maneira de distribuir as tarefas às classes diversas e de criticar com um tom protector a sua execução. Esta ideia que seria desvantajoso de levar à disjunção entre a burguesia e a revolução foi sempre o critério mais elevado de toda a política dos mencheviques. Na realidade, isso significava: embotar e enfraquecer o movimento de massas para não assustar os liberais aliados. Enfim, a conclusão de Estaline sobre o governo provisório liga-se inteiramente à formula equívoca dos conciliadores: «Na mediada onde o governo provisório consolide os progressos da revolução, é necessário apoiá-lo: na medida onde esse governo é contra-revolucionário, é inadmissível que seja apoiado.»

O relatório de Estaline foi lido no dia 29 de Março. No dia seguinte, o relator oficial da conferência soviética, os social democrata sem partido Stieklov, preconizava a mesma assistência condicional ao governo provisório, traçou, no calor do entusiasmo, um tal quadro da actividade dos que «consolidam» a revolução – resistência às reformas sociais, objectivos monárquicos, protecção cedida às forças contra-revolucionárias, apetites de anexação – que a conferência bolchevique, alarmada, rejeitou a formula de apoio. O bolchevique de direita Noguine declarou: O relatório de Stieklov trouxe uma ideia nova: é claro que presentemente deve-se falar não do apoio mas da oposição.» Skrynik concluiu igualmente que segundo o relatório de Stieklov «muito tinha mudado: impossível falar de um apoio ao governo. Há conspiração do governo provisório contra o povo e a revolução.» Estaline que, na véspera esboçava um quadro idílico da «divisão do trabalho» entre o governo e o Soviete, considerou-se obrigado a suprimir o artigo relativo ao apoio.

Debates curtos e pouco profundos continuaram à volta da questão de saber se apoiava o governo provisório «na medida onde...» ou somente os actos revolucionários do governo provisório. Um delegado de Saratov, Vassiliev, declarava não sem razão: «A atitude em relação ao governo provisório é a mesma em todos.» Kerensky formulou a situação ainda mais cruamente: «Não há desacordos sobre as acções práticas de Estaline e Voitinsky.» Ainda que Voitinsky tivesse, logo após a conferência, passado para os mencheviques, Krestinsky não estava errado completamente: ao retirar a menção explicita de apoio, Estaline não suprimia o próprio apoio. Tentou colocar a questão de princípio a Krassikov, um desses velhos bolcheviques que se tinham afastado do partido durante numerosos anos e que, agora, cheio de experiências da vida, tentava voltar às suas fileiras. Krassikov não tinha medo de tomar o boi pelos cornos: vocês não têm intenção de estabelecer a ditadura do proletariado? Perguntava ironicamente. Mas a conferência deixou a ironia de lado, e a questão ao mesmo tempo, como não merecendo atenção. A resolução da conferência pedia à democracia revolucionária de exortar o governo provisório «à luta mais enérgica pela completa liquidação do antigo regime», isto é reservava ao partido proletário um papel de dama de companhia junto da burguesia.

No dia seguinte foi discutida uma proposição de Tsertelli sobre a fusão dos bolcheviques e mencheviques. Estaline considerou este convite com inteira simpatia: «Devemos marchar. É indispensável fixar as nossas proposições sobre a linha de unificação. A unificação é possível sobre a linha Zimmerwald-Kienthal.» Molotov, que tinha sido expulso por Kamenev e Estaline da redacção da Pravda por ter dado uma direcção demasiado radical ao jornal, formulou objecções: Tseretelli deseja unificar elementos de toda a especie, ele próprio também se diz Zimmerwaldiano, a fusão sobre esta linha é um erro mas Estaline teimava na sua ideia: «Não convém, dizia, antecipar e de prevenir os diferendos. Sem acordo, não há vida de partido. No interior do partido, nós eliminaremos os pequenos desacordos.»

Toda a luta que Lenine tinha travado, durante os anos de guerra, conta o social patriotismo e a sua camuflagem pacifista, era reduzida a nada. Em Setembro de 1916, Lenine escrevia com particular insistência por intermediário de Chliapnikov, em Petrogrado: «O espírito de conciliação e de unificação que é o que existe de mais nocivo para um partido operário na Rússia: não somente é uma idiotia, mas é a perca do partido... Nós não podemos contar senão sobre os que compreenderam o engodo da ideia de unidade e toda a necessidade de uma cisão com essa confraria (os Tchkheidze e companhia) na Rússia.» Este aviso não tinha sido compreendido. As dissensões com Tseretelli líder do bloc soviético dirigente, eram apresentados por Estaline como pequenos desacordos que se poderiam «eliminar» do interior de um partido comum. Esse critério deu a melhor avaliação das opiniões de então do próprio Estaline.

No 4 de Abril, no Congresso do partido, apareceu Lenine. O seu discurso, comentando as «teses», passa sobre os trabalhos da Conferência como a esponja húmida do mestre que apaga o quadro o que escreve o aluno embaraçado.

«Porque não se tomou o poder? Pergunta Lenine.

Na Conferência dos sovietes, Stieklov, um pouco antes, tinha explicado em termos confusos os motivos evocados para se abster do poder: a revolução burguesa é uma primeira etapa, - há a guerra, etc.. «São imbecilidades, declarou Lenine. O assunto reside nisto que o proletariado não é suficientemente consciente nem suficientemente organizado. É necessário reconhecer. A potência material está nas mãos do proletariado, mas a burguesia encontrava-se lá, consciente e preparada. É um facto monstruoso, mas é indispensável reconhecê-lo abertamente e francamente e declarar ao povo que não tomámos o poder porque não estávamos organizados, nem conscientes.»

O plano da objectividade mentirosa, atrás da qual escondiam-se os cobardes da política, Lenine transpunha todas as questões sobre o plano subjectivo. O proletariado não tomou o poder em Fevereiro porque o partido dos bolcheviques não esteve à altura das tarefas objectivas e não tinha podido impedir os conciliadores de expropriar politicamente as massas populares em proveito da burguesia.

Na véspera, o advogado Krassikov lançava o desafío: «Se estimamos que o momento chegou para realizar a ditadura do proletariado, é portanto assim que é necessários meter a questão. A força física, no sentido da tomada do poder, nós a temos indubitavelmente.» O presidente retirou então a palavra a Krassilov, alegando que se ocupariam das tarefas práticas e que a questão da ditadura não tinha lugar nesse debate. Mas Lenine considerando que a única tarefa prática era precisamente a questão de preparar a ditadura do proletariado. «A particularidade do momento actual na Rússia- dizia ele nas teses – é marcar uma transição entre a primeira etapa da revolução que deu o poder à burguesia no seguimento da insuficiência de pensamento consciente e de organização do proletariado, e a sua segunda etapa que deve trazer o poder às mãos do proletariado e das camadas mais pobres do campesinato.»

A Conferência, seguindo a Pravda, limitava as tarefas da revolução às reformas democráticas, realizáveis pela Assembleia constituinte. Em contrapartida, Lenine declarou: «A vida e a revolução rejeitam a Assembleia constituinte para último lugar. A ditadura do proletariado existe, mas não sabem o que fazer com isso.»

Os delegados interrogavam-se, se olhando. Eles diziam entre eles que Illitch, eternizando-se no estrangeiro, não tinha visto as coisas bastante de perto, não as tinha discernido. Mas o relatório de Estaline sobre uma sábia decisão do trabalho entre o governo e o Soviete caiu logo e para sempre no insondável passado. O próprio Estaline calou-se. Doravante ele deveria calar-se por muito tempo. Só Kamenev continuará a defender-se.

Já, de Genebra, Lenine avisava por carta que ele estava pronto a romper com qualquer um que aceitasse as concessões sobre as questões da guerra, do chauvinismo e de uma conciliação com a burguesia. Agora, frente a frente com a camada dirigente do partido, ele desencadeia o ataque sobre toda a linha. Mas, inicialmente, ele não nomeia ninguém entre os bolcheviques. Se for necessário um exemplo vivo de falsidade e de equívoco, ele indica com o dedo os sem partido, Stieklov ou Tchkheidze. É o procedimento habitual de Lenine: nunca colar ninguém prematuramente à sua posição para lhe dar a possibilidade aos mais prudentes de se retirarem antes da batalha e, assim, enfraquecer os futuros adversários declarados. Kamenev e Estaline consideravam que participando na guerra após a revolução de Fevereiro, o soldado e o operário defendiam a revolução. Lenine considera que o soldado e o operário, como antes, participam na guerra como escravos submetidos ao capital. «Mesmo os nossos bolcheviques – diz ele, restringindo o círculo à volta dos adversários – manifestam confiança ao governo. Isso só se pode explicar pelo delírio da revolução. É correr para a perca do socialismo... Se assim é não caminharemos juntamente. Gosto mais ficar em minoria.» Não é uma simples ameaça do orador. É uma diligência claramente meditada até às suas consequência.

Sem nomear Kamenev nem Estaline, Lenine é portanto forçado a nomear o jornal: «A Pravda exige do governo que ele renuncie às anexações, é uma inépcia, uma gritante derisão...» Uma indignação contida trai-se aqui por uma nota alta. Mas o orador reprende-se logo: ele quer dizer nada mais do que o mínimo indispensável, nada de mais. De passagem, deslizando, Lenine dá inigualáveis regras de política revolucionária: «Quando as massas declaram que elas não querem conquistas, acredito-as. Quando Gotchkov e Lvov declaram que não querem conquista, eles mentem. Quando o operário diz que quer a defesa do país, o que fala nele, é o instinto do oprimido.» Esse critério, para o designar pelo seu nome, parece simples como a própria vida. Mas a dificuldade é designá-lo no proprio tempo pelo seu nome.

A propósito do Manifesto do Soviete «Aos povos do mundo inteiro», que forneceu o pretexto à Rietch liberal de declarar no seu tempo que o tema do pacifismo se desenvolvia entre nós numa ideologia comum com a dos nossos aliados, Lenine exprimiu-se com mais precisão e vivacidade: «O que é particular à Rússia, é uma transição a passo de gigante de uma opressão selvagem a mais subtil impostura.»

«Este apelo – escrevia Estaline sobre o Manifesto – se ele atinge as largas massas (do Ocidente), trazer-à sem dúvida centenas e milhares de operários à palavra de ordem esquecida: «Proletários de todos os países, uni-vos.»

«O apelo do Soviete – respondeu Lenine: não há uma só palavra com sentido da consciência de classe. Só há lá fraseologia.» O documento do qual estavam muito orgulhosos os zimmerwaldianos que nunca tinham saído de casa era aos olhos de Lenine um dos instrumentos da «mais subtil impostura».

Antes da chegada de Lenine, a Pravda não mencionava geralmente a esquerda de Zimmerwald. Falando da internacional, ela não indicava qual. É o que Lenine chamava o «kautskysmo» da Pravda. «Em Zimmerwald e Kienthal declara na conferência do partido – o centro obteve a preponderância... Existe uma corrente da esquerda de Zimmerwald em todos os países do mundo. As massas devem discernir que o socialismo está dividida no mundo inteiro...»

Três dias antes, Estaline proclamava-se, nessa mesma conferência, completamente disposto a eliminar os desacordos com Tseretelli, na base de Zimmerwald-Kienthal, isto é sobre as bases do kautskysmo. «Soube que na Rússia manifesta-se uma tendência unificadora – dizia Lenine: unir-se com os partidários da defesa nacional, é trair o socialismo. Penso que é melhor ficar só como Liebknecht. Só contra cento e dez». A acusação de trair o socialismo, por enquanto ainda sem designação de pessoas, não é simplesmente uma palavra dura: ela exprime integralmente a atitude de Lenine em relação aos bolcheviques que estendem um dedo aos sociais-patriotas. Em oposição a Estaline, que julga possível fusionar com os mencheviques, Lenine considera intolerável que se mantenha em comum com eles o nome de social-democracia. «Falando em meu nome pessoal - declara – proponho mudar a denominação do partido, de nos nomearmos Partido comunista.» «Em meu nome pessoal», isso significa que ninguém, nem um membro da Conferência, não consentia a esse gesto simbólico de uma ruptura com a II internacional.

«Temem trair as vossas lembranças?» Diz o orador aos delegados desconcertados, embaraçados, parcialmente indignados. Mas chegou o momento «de mudar de linha, é preciso retirar a camisa suja e meter uma lavada». E insiste de novo: «Não vos agarreis a uma velha palavra de ordem que está completamente podre. Se vós quereis edificar um novo partido... todos os oprimidos virão a vós.»

Diante da grandiosa tarefa a iniciar, diante dos problemas das ideias nas suas próprias fileiras, o pensamento do tempo estúpidamente perdido em recepções, em felicitações, em resoluções rituais arranca ao orador esta queixa: «Basta de felicitações, de resoluções, é tempo de se meter ao trabalho, de empreender um trabalho eficaz e reflectido.»

Uma hora depois, Lenine foi obrigado a repetir o seu discurso numa reunião geral, fixada previamente, dos bolcheviques e dos mencheviques, e o seu arengo pareceu à maioria dos auditores ser qualquer coisa entre o delírio e a zombaria. Os mais indulgentes encolhiam os ombros. Este homem tinha evidentemente caído da Lua: após a ausência de dez anos, apenas desceu os degraus do patamar da gare de Finlandia, eis que prega a tomada do poder pelo proletariado. Os menos complacentes dos patriotas lembravam o vagão blindado. Stankenvitch testemunha que o discurso de Lenine contenta muito os seus adversários: «Um homem que diz tais asneiras não é perigoso. Ainda bem que ele chegou: agora, só temos que o ver:... agora, é ele próprio que se refuta.»

E portanto, com toda a ousadia da sua empresa revolucionária, inflexivelmente decidido em romper mesmo com os antigos partidários do seu pensamento e camarada de combate se eles fossem incapazes de acertar o passo com a revolução, o discurso de Lenine, cujas partes são equilibradas entre elas, é penetrado de um profundo realismo e de um infalível sentimento de massa. Mas é precisamente por isso que ele parecia fantasioso aos democratas que patinavam à superficie.

Os bolchevique são uma pequena minoria nos sovietes, e Lenine medita na tomada do poder. Não é espírito de aventura? Não há sombra na maneira que Lenine colocava a questão. Nem um minuto ele fechou os olhos sobre a existência de uma «honesta» mentalidade de defesa nacional nas largas massas. Sem se absorver por elas, ele não se dispõe portanto a agir nas suas costas. «Nos não somos charlatães, - dirige-se em direcção às futuras objecções e acusações, - nós devemos nos basear somente na consciência da massas. Mesmo se devemos ficar em minoria, é bom. Vale a pena renunciar por um tempo a uma situação dirigente, não tememos ficar em minoria.» Não temer ficar em minoria, um só, como Liebknecht contra cento e dez! Tal é o motivo condutor do discurso.

«O verdadeiro governo é o Soviete dos deputados operários... No Soviete, nosso partido está em minoria... Nada a fazer! Só nos resta explicar pacientemente, perseverantemente, sistemáticamente, a aberração da sua táctica. Enquanto estamos em minoria realizamos um trabalho de crítica para libertar as massas da impostura. Nós não queremos que as massas nos acreditem cegamente. Não somos charlatães. Nós queremos que as massas se libertem pela experiência dos seus erros.» Não temer ficar em minoria, não para sempre, mas temporariamente. A hora do bolchevismo soará. «Nossa linha mostrar-se-à justa... Todo o oprimido virá connosco porque a guerra o trará. Não outra saída há para ele.»

«A Conferência de unificação – conta Sokhanov – Lenine mostrou-se como a incarnação própria da cisão... Lembro-me de Bogdanov (menchevique notável), sentado a dois passos da tribuna dos oradores. Mas enfim é delirante, - gritou, interrompendo Lenine, - é o delírio de um louco. É vergonhoso aplaudir essa trapalhada – grita ele, voltando-se para o auditório, vermelho de cólera e de desprezo – você desonra-se? Marxista?»

Um antigo membro do Comité central bolchevique, Goldenberg, que se mantinha nessa época fora do partido, apreciou nos debates as teses de Lenine nestes termes desprezíveis: «Durante muitos anos, o lugar de Bakunine na revolução russa ficou livre: agora, ela foi tomada por Lenine.»

«O seu programa – contou mais tarde o socialista-revolucionário Zenzinov – levantou então mais zombaria que indignação, tanto ele parecia a todos estúpido e quimérico.»

Na noite do mesmo dia, numa conversa entre dois socialistas, e Miliokov, antecedente à Comissão de contacto, falaram de Lenine. Skobeliev considerou-o como «um homem absolutamente acabado, situado fora, situado fora do movimento». Sokhanov deu a seu apoio ao julgamento de Skobelev e acrescentou que Lenine «era até tal ponto indesejável para todos que nesse momento que era inofensivo para o interlocutor Miliokov». A distribuição das tarefas, nessa conversa, apareceu todavia tal como Lenine tinha previsto: os socialistas queriam preservar a tranquilidade do liberal contra as preocupações que lhe podia dar o bolchevismo.

Mesmo o embaixador da Inglaterra ouvi rumor das histórias segundo as quais Lenine era reconhecido mau marxista. «Entre os anarquistas recém chegados – notou Buchanan – se encontrava Lenine, vindo da Alemanha em vagão blindado. Mostrou-se publicamente pela primeira vez numa reunião do partido social-democrata e foi mal recebido.»

Mais indulgente que os outros para Lenine foi talvez nesses dias Kerensky, o qual declara inesperadamente, num círculo dos membros do governo provisório, que tinha a intenção de visitar Lenine, e explicou, em resposta às questões surpreendentes, assim: «Mas ele vive verdadeiramente numa atmosfera completamente isolada, ele não sabe nada, ele vê tudo através de lentes deformada pelo seu fanatismo, ele não tem perto dele ninguém que o ajude um pouco a orientar-se no que se passa.» Tal é o testemunho de Nabokov. Mas Kerensky mesmo assim não teve um momento livre para orientar Lenine do que se passava.

As teses de Abril de Lenine não provocaram somente a indignação estupefacta dos inimigos e adversários. Eles rejeitaram um certo número de velhos bolcheviques no campo do menchevismo ou no grupo intermediário que se agregava à volta do jornal de Gorki. Esta evasão não teve importância política séria. Infinitamente mais grave foi a impressão que produziu a atitude de Lenine sobre toda a camada dirigente do partido». Nos primeiros dias seguintes à sua chegada, escreve Sokhanov – seu isolamento completo no meio de todos os camaradas do partido conscientes não faz a menor dúvida.» «Mesmo os seus camaradas de partido – confirma o socialista-revolucionário Zenzinov – os bolcheviques pasmados, desviaram-se dele.» Os autores dessas opiniões encontravam-se todos os dias com os dirigentes bolcheviques, no comité executivo, e tinham informações de primeira mão.

Mas idênticos testemunhos não faltam, mesmo nas fileiras bolcheviques. «Quando apareceram as teses de Lenine – lembrava mais tarde Tsikhon, atenuando muito as cores como a maioria dos velhos bolcheviques que tropeçaram na Revolução de Fevereiro – sentia-se no nosso partido certas oscilações. Vários camaradas indicaram que Lenine tinha um desvio sindicalista, que se tinha afastado da Rússia, que não considerava o momento presente, etc..» Um dos militantes bolchevique notáveis na província, Lebediev, escreveu: «Após a chegada de Lenine à Rússia, a sua agitação – no início não era completamente compreensível para nós, bolcheviques – que parecia utópico e explicava-se pelo seu longo afastamento da vida russa, foi pouco a pouco assimilada por nós e entra por assim dizer no nossa carne e nosso sangue. Zalejsky, membro do Comité de Petrogrado e um dos organizadores da recepção, exprimiu-se mais claramente: «As teses de Lenine não encontrou partidário declarado, mesmo nas nossas fileiras.»

Mais importante é todavia o testemunho do Pravda. No dia 8 de Abril, quatro dias após a publicação das teses, quando se podia já explicar e compreender entre si de uma maneira suficiente, a redacção da Pravda escrevia: «No que diz respeito ao esquema geral do camarada Lenine, parece-nos inaceitável na medida onde ele apresenta como acabada a revolução democrática burguesa e conta sobre a transformação imediata desta revolução em revolução socialista.» O órgão central do partido declarava assim, abertamente, diante da classe operária e dos seus inimigos, seu desacordo com o líder unanimemente reconhecido sobre a questão crucial da revolução a qual os quadros bolcheviques se tinham preparado durante longos anos. Esta divergência foi suficiente para apreciar toda a profundidade da crise do partido em Abril proveniente de um conflito entre duas linhas inconciliáveis. Se esta crise não fosse ultrapassada, a revolução não podia fazer um passo em frente.