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terça-feira, 1 de junho de 2010

QUEIMA DE ARQUIVOS NA CASERNA

Em dezembro de 2004, agentes da Base Aérea de Salvador BA, atearam fogo em dezenas de documentos referentes as ações clandestinas das Forças Armadas brasileiras no período da ditadura militar.
A rede Globo (oficialista) noticiou no programa fantástico o acontecido.
Dias após o episódio, eu publiquei e assino a seguinte nota abaixo transcrita:

JORNAL AN/CAPITAL - FLORIANÓPOLIS/SC, 05 de janeiro de 2005   Pág. 2

PONTO DE VISTA

QUEIMA DE ARQUIVOS NA CASERNA

Carlos Alberto Bento da Silva*

Em 1970, aos 15 anos de idade, me alistei no serviço militar obrigatório e em 1971 já estava servindo no Exército. Entrei para o PELOTAR do 22° Grupo de Artilharia de Campanha, em Uruguaiana RS. O comandante daquela unidade militar era o Ten Cel Dickson Melges Grael, um pára-quedista. Em 1972 dei Baixa do 22° GAC.

Em janeiro de 1973 fui reincluido no Exército e designado a servir no 18° BIMtz. Era integrante da 2ª Cia Op (Companhia de Operações Especiais), unidade especializada em contraguerrilha e de assalto. A unidade era formada por vários pára-quedistas e comandos de sobrevivência e guerra na selva. Da 2ª Cia de Operações Especiais, alguns militares participariam da guerrilha do Araguaia, mas não sei precisar o numero. O treinamento era bastante forte, faziam parte de uma coluna descaracterizada (a paisana, em atividades civis diversas). O que me deixava intrigado era o fluxo constantes de presos civis no quartel, era comum o translado de presos políticos de uma unidade militar para outra. As mais utilizadas eram a 1ª Cia. de Guardas e o 3º BPE, além de QG do 3º Exército. O objetivo era dificultar a sua localização. O fato de uma tropa de elite manter sob sua guarda prisioneiros políticos e civis já é motivo suficiente para se exigir à entrega de todos os documentos referentes a este período. A censura era uma constante até mesmo entre militares. Naquele momento e em varias partes do Brasil, as dependências do DOI-CODI (Departamentos de Operações Internas – Centro de Operações de Defesa Interna) e várias unidades do Exército estavam lotadas de pseudos subversivos. Muitos morreriam torturados, enquanto outros desapareceriam.


Contrariado com tudo que presenciei e passei a entender, decidi desertar. Saí de licença por uns dias e nunca mais retornei. A partir daí minha vida mudou por completo. Em 1975 e após ter fugido para a Argentina, retornei ao Brasil e perambulei por vários estados, levando uma vida esguia e anônima. No ano de 1981, em Porto Alegre, entrei numa lanchonete, deparei com o cabo Dias (armeiro da 2ª Cia Op) que avisou-me de que estava sendo procurado. Para o Exército, naquele período, deserção é traição. No meu caso, a lei de anistia de 1979 teria validade? Assustado, em outubro de 1982 tentei asilo na embaixada da França, foi uma decepção. Hoje fico abismado e indignado de ver documentos de importância vital para a história do Brasil, serem queimados e jogados no lixo e, o que é pior, ao arrepio da lei e do estado de direito. Aos generais detentores de comandos importantíssimos e, da segurança nacional, ficará o débito da cumplicidade e da autoria deste crime de lesa pátria, que é a queima da memória e da historia política recente.

Ao presidente Lula fica patenteado sua incompetência e fragilidade frente a uma questão moral e jurídica que assola o país. Existem alguns generais que ainda se comportam como no tempo da ditadura e da lei do mais forte. Recentemente o general brasileiro* das tropas invasoras do Haiti dirigiu-se aos governantes brasileiros com arrogância. Toda vez que autoridades do governo Lula comentam alguma coisa sobre o período da ditadura militar, são prontamente rotulados de revanchistas. Da mesma forma acontece o recuo destas autoridades que vacilam e temem alguma reação da parte de setores militares que em nenhum momento acataram ou cumpriram a lei de anistia engendrada por eles próprios.

A maior comprovação está na reação, no monitoramento e no fichamento de lideranças políticas e militantes dos movimentos populares em todo o Brasil. Recentemente, lideranças populares de São Paulo denunciaram esse tipo de ação patrocinada pelo governo Alckmin. Ao presidente Lula, caberá demitir e afastar todo e qualquer funcionário público envolvido nestas ações criminosas, incluindo aí os militares que são pagos com o dinheiro dos impostos recolhidos da população.

(*) General Heleno, comandante das tropas invasoras.
Texto de:
(*)Carlos Alberto Bento da Silva, militante do PSTU em Florianópolis.