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sábado, 21 de novembro de 2015

"Jogo da direita" e "linha auxiliar": duas faces do mesmo discurso...


Babá, membro da Corrente Socialista dos Trabalhadores (CST) e vereador pelo PSOL-RJ
  
Por Jorge Nogueira*


Vou começar tratando o tema da impopularidade recorde do governo do PT e de algumas figuras tais como Bolsonaro, Danilo Gentili, Rachel Sheherazade, Silas Malafaia, Marcos Feliciano, Alexandre Frota, Wanderlei Silva e outras figuras deploráveis que tentam ganhar audiência em cima disso.

É fato que o povo brasileiro não aguenta mais o governo do PT. Contudo, a indignação popular nada tem a ver com o que propagam estas "personalidades". A população está insatisfeita com o governo porque os salários estão defasados diante da inflação; estão mais caros os alimentos, as contas de luz e as tarifas de transporte; as verbas da saúde e educação sofrem cortes brutais; direitos trabalhistas históricos foram retirados e restringidos; as empreiteiras faturam com a corrupção e os bancos faturam ainda mais com ajuste fiscal.

O desgaste do governo da Dilma não tem qualquer relação com implantação do comunismo, da revolução bolivariana, com haitianos vivendo no país, com Cuba ou Bolívia. Isso tudo é bobagem desqualificada de quinta categoria para tentar ludibriar a população, como tentam fazer crer estas "celebridades" efêmeras, algumas delas decadentes tentando reaparecer a todo custo.

O governo da Dilma tem um ministro da Economia ultra-liberal, agente direto do sistema financeiro, uma ministra da Agricultura representante do agronegócio (não gente, não é um sem-terra que é ministro), velhos corruptos e filhotes da ditadura, como Maluf e Collor, na base aliada.

As pesquisas mostram que a impopularidade do governo é bastante uniforme, independente de faixa de renda, idade, região e escolaridade. Ou seja, a insatisfação com o governo não é algo restrito a setores ditos abastados, como sugerem os petistas. As mesmas pesquisas mostram que as pessoas de baixa renda, mais jovens e da classe trabalhadora não se identificam com as manifestações pelo impeachment convocadas pela velha direita. E certamente, não é porque elas gostem do governo. Simplesmente, essas pessoas não veem suas pautas representadas nessas manifestações e desconfiam das alternativas de poder propostas nestes atos.

Não por acaso, as pesquisas também mostram que milhões de pessoas não votariam em Lula para presidente, assim como não votariam em Aécio, Marina e José Serra, por exemplo. Os que defendem a volta do regime militar (a tal da intervenção militar constitucional, prevista em lugar nenhum), promovem atos que reúnem meia dúzia de gatos pingados, em geral lunáticos raivosos, histéricos e desinformados que compartilham diariamente toneladas de informações falsas sem qualquer credibilidade. As pesquisas dizem que mesmo nas manifestações convocadas pela direita por impeachment, a esmagadora maioria não defende retorno ao regime militar e quer serviços públicos, gratuitos e de qualidade (nada de "Estado Mínimo", antes que os liberais se animem).

Essa gente, que fala em volta dos militares ao poder, faz o jogo do governo inclusive. Eles facilitam a vida para o governismo se dizer perseguido pelas "elites", falar em ameaça de "golpe" e tentar posar de esquerda, mesmo governando com medidas reacionárias, umas após outras, e não havendo qualquer setor importante das elites tentando derrubar o governo. A política econômica ultra-conservadora de Dilma e Levy tem apoio da Globo, da FIESP, da FIRJAN, do sistema financeiro e do agronegócio, com todos estes agentes já havendo se manifestado pela governabilidade.

Trata-se aqui de um caso de "inimigos" que se ajudam, que complementam o falso discurso um do outro. Os caricatos representantes do extremo conservadorismo, ao levantar, por exemplo, a bandeira da "intervenção militar" e outras consignas ultra-reacionárias, ajudam o governismo a propagar o medo de uma suposta "onda conservadora" e da instalação de um regime ditatorial fascista de direita. Por outro lado, o apoio ao governo das velhas burocracias da UNE, da CUT e de outros movimentos sociais, adotando de forma oportunista esse discurso do medo, da defesa da democracia e da legalidade (burguesas e que não estão sob qualquer ameaça real), cria o ambiente simbólico (o chamado "verniz de esquerda") para os reacionários propagarem que se trata de um governo "comunista", com velhos chavões do tipo "vai pra Cuba".

Por um lado, os governistas acusam qualquer pessoa que lhes critique de "fazer o jogo da direita". Por outro, a velha direita diz que quem não marcha com eles é "linha auxiliar" do PT. Basicamente, "jogo da direita" e "linha auxiliar" são dois mantras repetidos a exaustão para impedir que surja qualquer outra alternativa aos mesmos de sempre, ainda mais com tanta rejeição a todos os tradicionais atores da política brasileira.

Pois bem, existem inúmeros motivos para a Dilma cair. Há insatisfação popular generalizada e as medidas do governo são um estelionato eleitoral. Dilma aplica tudo aquilo que acusava Aécio e Marina de pretenderem fazer. Dilma dizia que Marina governaria para os banqueiros, que agora somam lucros recordes, em plena recessão. E acusava que Aécio iria privatizar e o governo petista anuncia pacotes e mais pacotes de privatizações.

Os motivos reais para a queda de Dilma não são pauta de qualquer destas manifestações pelo impeachment, seja nas ruas, seja nas redes sociais. É irônico ver estes setores reacionários manifestarem indignação, plausível, com a corrupção do governo petista, mas defenderem com unhas e dentes o corrupto Eduardo Cunha, por óbvia afinidade ideológica e na ilusão de que ele encaminhará o impeachment de Dilma. Na (in)coerência deles, para derrubar um governo corrupto vale se aliar a um corrupto que ganhou dinheiro nos mesmos esquemas de corrupção do governo que eles querem derrubar. Vai entender.

Há razões para Dilma cair, mas isso não tem serventia se em seu lugar retomarem o poder os tucanos e o PMDB, que quando governam praticam a mesma política econômica conservadora e a mesma corrupção (inclusive com as mesmas empreiteiras e os mesmos sistemas de compra de votos). Mais ridícula e anacrônica ainda é a ideia de volta da ditadura militar, mas essa não tem qualquer sustentação na realidade, a não ser na mente de lunáticos (e também de governistas que tentam se aproveitar da surreal situação para fingir que estão sob iminente ameaça do fascismo).

Qualquer saída para a crise está em mobilizar a classe trabalhadora, a juventude e o povo pobre contra o governo, para defender as demandas reais da população. Longe tanto do governismo, que tenta se apropriar da simbologia de esquerda para defender um governo de direita, quanto do velho conservadorismo, que tenta usurpar a insatisfação popular em prol de suas pautas mesquinhas, reacionárias e preconceituosas, incapazes de produzir qualquer melhoria na vida do povo (ao contrário, só servem ao retrocesso). A saída é pela esquerda, com a construção nas ruas, nas lutas e nas greves, de uma alternativa dos trabalhadores para governar o país.


Extraído do Facebook do referido vereador:
https://www.facebook.com/babapsol/posts/867020910034349

(*) Professor da rede pública. Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).