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sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Cartas de Lenine sobre a questão nacional

58. Não quero reproduzir aqui a carta mais importante de Lenine contra Estaline sobre a questão nacional. Está incluída na estenografia da assembleia de Julho de 1926 e, além disso, dela circularam cópias de mão em mão. É impossível ocultar esta carta. Mas existem ainda, sobre o mesmo assunto, outros documentos completamente desconhecidos do Partido. Os arquivistas e os historiadores da escola estalinista tomam e tomarão todas as medidas para que estes documentos continuem ocultos. São até capazes dum outro procedimento: destruí-los.
É por isso que julgo necessário reproduzir os extractos mais importantes duma carta de Lenine, muito anterior, e a resposta de Estaline, sobre a constituição da URSS. A carta de Lenine, datada de 27 de Setembro de 1922, é dirigida a Kamenev e cópia dela foi enviada a todos os membros do Buró político. Eis o começo dessa carta:
«Provavelmente já receberam de Estaline a resolução da sua Comissão acerca do ingresso das repúblicas independentes na R. S. F. S. R.
»Se ainda não a receberam, peçam-na ao secretário e leiam-na em seguida. Ontem falei dela a Sokolnikov e hoje a Estaline. Amanhã verei Mdivani (suspeito de «independência»).
»Na minha opinião, a questão é muito importante. Estaline tem tendência a apressar-se demasiado. Medite bem você sobre isso. Penso que outrora era vossa intenção ocupar-vos do assunto e haveis-vos ocupado já um pouco. Zinoviev também.
»Estaline está disposto já a fazer uma concessão. No parágrafo primeiro, em vez de «adesão» à R. S. F. S. R, pretende dizer «união formal» com a R. S. F. S. R. em União das Repúblicas Soviéticas da Europa e da Ásia.
»Acho que o sentido desta concessão está claro: reconhecemo-nos como tendo os mesmos direitos que a R. S. S. ucraniana e outras Repúblicas, e em conjunto, com iguais direitos, ingressamos todos na nova União, a nova Federação, a “União das R. S. S. da Europa e da Ásia”».
Toda uma série de modificações estão penetradas do mesmo espírito. No final da sua carta, Lenine dizia:
«Estaline está de acordo em adiar a apresentação duma resolução ao Buró Político do Comitê Central até à minha chegada. Chegarei segunda-feira, dia 2 de Outubro. Desejaria ver-vos, bem como a Rikov, durante duas horas, digamos uma a três horas e, se necessário à noite, digamos das 5 às 7 ou das 6 às 8.
»Eis de momento a minha proposta. Combaterei e mudarei sobre a base da discussão com Mdivani e outros camaradas. Peço-lhe que faça outro tanto e que me responda.
»Seu»Lenine.
PS — As cópias devem ser enviadas a todos os membros do Buró político.»
No mesmo dia, Estaline enviou cópia a todos os membros do Buró político da sua resposta a Lenine (27.9.1922). Eis as passagens mais importantes:
«2. — A modificação proposta por Lenine do parágrafo 4, sobre a criação dum Comitê Central Executivo da Federação, ao lado do Comitê da R. S. F. S. R., é, na minha opinião, inaceitável. A coexistência de dous Comitês Centrais Executivos em Moscovo, um dos quais será indubitavelmente a «Câmara Alta» e outro a «Câmara Baixa», engendrará desavenças e conflitos».
E mais adiante:
»4. — No parágrafo 4, a meu ver, o camarada Lenine «apressou-se demasiado» ao reclamar a fusão dos Comissariados das Finanças, dos Abastecimentos, do Trabalho e da Economia pública, com os Comissariados federativos. Quase não se pode pôr em dúvida que esta «pressa» vai servir aos «independentes», em detrimento do liberalismo nacional de Lenine.
»5. — No parágrafo 5, a modificação de Lenine é, a meu ver, supérflua.
»I. Estaline»
Esta correspondência, além de mais, muito característica, que se oculta ao Partido como tantos outros documentos do mesmo gênero, precedeu a carta de Lenine sobre a questão nacional. Nas suas objeções sobre o projecto de Estaline, Lenine escolheu expressões ainda muito moderadas, delicadas. Esperava, nessa época, poder resolver a questão sem demasiadas controvérsias. Reprova discretamente a «pressa» de Estaline. Coloca entre aspas o qualificativo de «independente» que Estaline censura a Mdivani, e dessolidariza-se resolutamente desta censura. Sublinha, polo contrário, o facto de apresentar as suas modificações após a discussão com Mdivani e outros camaradas.
A resposta de Estaline distingue-se, polo contrário, pola grosseria. A última frase do 4.º ponto é particularmente característica:
«Quase não se pode pôr em dúvida que esta «pressa» (a pressa de Lenine!) vai servir aos «independentes», em detrimento do liberalismo nacional (!) de Lenine
Lenine era, já que logo, suspeitoso de liberalismo nacional.
O desenvolvimento ulterior da luita sobre a questão nacional mostrou a Lenine que se tinha tornado impossível agir sobre Estaline num pequeno comitê e que se impunha recorrer ao Congresso do Partido. Foi com este fim que Lenine escreveu a célebre carta sobre a questão nacional.
59. Vladimir Ilitch ligava uma importância considerável à questão «georgiana», não só porque receava as conseqüências da errada política nacional na Geórgia — os seus temores viram-se afinal inteiramente confirmados —, mas também porque, a propósito desta questão, lhe surgiu de forma iniludível a falsidade da política de Estaline na questão nacional, por melhor dizer, não somente nesta. Ainda se oculta ao Partido uma longa carta que Lenine escreveu sobre a questão nacional. O argumento de que Lenine não teria destinado esta carta ao Partido é completamente falso. Acaso Lenine destinava à publicidade as anotações que fazia nos seus blocos de notas ou à margem dos livros que lia? Ora, tudo quanto, directa ou indirectamente, atinge a oposição, é publicado. Mas a carta-programa de Lenine sobre a questão nacional, ninguém tem o direito de vê-la.
Eis dous extractos desta carta:
«Penso que, pola sua pressa e a sua injustificada obsessão administrativa, ao mesmo tempo que polo seu arrebatamento contra o famoso «social-nacionalismo», Estaline desempenhou neste caso um papel fatal. Geralmente, em política, o arrebatamento tem a pior conseqüência.»(Extracto das notas de Lenine de 30 Dezembro de 1922.)
Eis o que é exacto!
«É evidente que se deve tornar politicamente responsáveis Estaline e Dzerjinski por toda esta campanha de verdadeiro nacionalismo russo.»(Extracto da carta de Lenine de 31 Dezembro de 1922.)
Vladimir Ilitch enviou-me esta carta ao sentir que pessoalmente não poderia tomar a palavra no XII Congresso. Eis as missivas suas que recebi a este respeito durante os dous últimos dias em que participou na vida política:
«Rigorosamente secreto. Pessoal.
»Caro camarada Trotski:
Peço-lhe instantemente que se encarregue da defesa da questão georgiana perante o Comitê Central do Partido.
Esta questão é actualmente o alvo dos ataques de Estaline e de Dzerjinski e não me posso fiar na imparcialidade deles. Muito polo contrário. Se consentir em tomar a seu cargo esta defesa, poderei estar tranqüilo. Se, por qualquer motivo, não aceitar, devolva-me todo o dossier. Interpretarei isso como sinal da sua recusa.
»Com as minhas melhores saudações de camarada.
Lenine».Por cópia conforme: M. Voloditcheva.
* * *
«Camarada Trotski:
»À carta que lhe foi telefonicamente transmitida Vladimir Ilitch pediu de juntar, para a sua informação, que o camarada Kamenev estará quarta-feira na Geórgia. Vladimir Ilitch desejaria saber se quer enviar alguma cousa para lá.
M. Voloditcheva.5.3.1923».
* * *
«Aos camaradas Mdivani, Makaradzé e outros.
»Cópia aos camaradas Trotski e Kamenev.
Sigo apaixonadamente o vosso assunto. Estou revoltado pola brutalidade de Ordjonikidzé e polas incitações de Estaline e de Dzerjinski. Preparo-lhes algumas notas e um discurso.
Com a minha consideração.
Lenine.6 Março de 1923».
* * *
«Ao camarada Kamenev.
»Cópia para o camarada Trotski.
»Leão Borissovitch:
»Em seguimento à nossa conversa telefónica, na qualidade de Presidente do Buró Político, comunico-lhe o seguinte:
»Como já lhe disse, no dia 31 de Dezembro de 1922, ditou um artigo Vladimir Ilitch sobre a questão nacional. Esta questão atormentava-o muito e preparava-se para intervir a este respeito no Congresso do Partido.
»Pouco antes da sua última recaída, informou-me que pensava publicar esse artigo, mas mais tarde. Depois disso caiu doente sem me ter dado ordem definitiva.
»Vladimir Ilitch considerava o seu artigo como devendo servir de directiva e ligava-lhe grande importância. Pola sua ordem foi comunicado ao camarada Trotski que Vladimir Ilitch tinha encarregado da defesa do seu ponto de vista no Congresso do Partido, visto as unidades de vistas de ambos acerca desta questão.
»O único exemplar que possuo desse artigo está guardado, por ordem de Vladimir Ilitch, nos seus arquivos secretos.
»Traio isso ao seu conhecimento. Não o pude fazer mais cedo, porque, por razoes de saúde, só hoje retomei o trabalho.
A secretária particular do camarada Lenine,
L. Fotieva.16 Abril de 1923».
Após todas as calúnias com que se tentou ensombrar a atitude de Lenine a meu respeito, não podo deixar de realçar o final da primeira carta de Lenine: «Com as minhas melhores saudações de camarada». Aqueles que sabem até que ponto era Lenine avaro de palavras, e que conhecem a sua maneira de falar e de escrever, compreenderão que não empregou estas palavras por acaso. Por alguma razão Estaline, quando se viu obrigado a dar conhecimento desta correspondência à sessão de Julho de 1926, substituiu as palavras «Com as minhas melhores saudações de camarada» pola expressão oficial «Com as minhas saudações comunistas». Nisto também Estaline se mostrou fiel a si mesmo.
60. Estas cartas precisam ser explicadas. Lenine estava enfermo. Eu também não passava bem. As secretárias de Lenine, Glasser e Fotieva foram me ver várias vezes no decurso do dia anterior ao da definitiva crise de Lenine. Quando Fotieva me trouxe a carta sobre a questão nacional, disse-lhe: «Kamenev parte hoje mesmo para a Geórgia por causa do Congresso; não seria conveniente mostrar-lhe a carta, para que possa fazer as apropriadas diligências?» Fotieva respondeu-me: «Não sei. Vladimir Ilitch não me encarregou de entregar a carta a Kamenev, mas podo perguntar-lhe». Passados alguns minutos voltou e disse-me: «Em caso algum. Vladimir Ilitch disse que Kamenev mostrará a carta a Estaline, que estabelecerá um compromisso «coxo» e o atraiçoará depois».
Todavia, alguns minutos depois, talvez meia hora, Fotieva voltava da casa de Lenine com novas instruções. Segundo ela, Lenine tinha decidido agir imediatamente. Redigiu a carta acima reproduzida, para Mdivani e Makharadzé, com cópias para mim e Kamenev.
«Como se explica esta reviravolta?» — perguntei a Fotieva.
«Provavelmente, respondeu-me ela, porque Lenine está pior e se apressa a fazer quanto lhe é possível.»
61. A proposta de Lenine sobre a reorganização da Inspecção Obreira e Camponesa foi acolhida muito hostilmente polo grupo de Estaline. Escrevi isso, em termos muitos comedidos, numa das minhas anteriores cartas aos membros do Comitê Central. Reproduzo esse relato:
«Qual foi, no entanto, o acolhimento que o Buró político dispensou ao projecto de reorganização da Inspecção Operária e Camponesa, proposto polo camarada Lenine? O camarada Bukharine não se decidiu a publicar o artigo de Lenine, enquanto que este insistia pola sua publicação imediata. N. K. Krupskaia informou-me da existência deste artigo por telefone e pediu-me que interviesse, a fim de se apressar a sua publicação. No Buró político, convocado a meu pedido imediatamente, todos os presentes: camaradas Estaline, Molotov, Kuibichev, Rikov, Kalinine e Bukharine, pronunciaram-se não só contra o plano do camarada Lenine, mas mesmo contra a publicação do seu artigo. Os membros do Secretariado levantaram objecções particularmente vivas e categóricas. Visto os prementes pedidos do camarada Lenine para que lhe apresentassem o artigo impresso, o camarada Kuibichev, futuro comissário do povo para a Inspecção Operária e Camponesa, propôs na sessão que se imprimisse um único número especial do Pravda com o artigo do camarada Lenine, a fim de tranqüilizá-lo, mas ocultando dessa maneira o artigo ao Partido. Eu demonstrei que a reforma radical proposta polo camarada Lenine era em si progressiva, com a condição naturalmente de ser aplicada racionalmente, mas que, mesmo se devesse ter, em relação a esta proposta, uma atitude negativa, seria ridículo e absurdo manter o Partido na ignorância das propostas de Lenine. Responderam-me com argumentos impregnados do mesmo espírito formalista: «Nós somos o Comitê Central; nós temos as responsabilidades, nós decidimos». Kamenev, que chegou à sessão do Buró político com mais duma hora de atraso, foi o único a apoiar-me. O principal argumento a favor da publicação da carta era que, de todos os modos, não se conseguiria ocultar ao Partido o artigo de Lenine. Mais tarde, esta carta tornou-se, nas mãos daqueles que não queriam publicá-la, numa arma que se tentou voltar... contra mim. O camarada Kuibichev, ex-membro do Secretariado, foi colocado à frente da Comissão Central de Controle. Em vez de combater o plano do camarada Lenine, tornaram-no numa arma inofensiva. Nestas condições, pode-se afirmar que a Comissão Central de Controle reveste acaso o carácter duma instituição independente e imparcial do Partido, defendendo e confirmando os direitos e a unidade do Partido contra os excessos de todo o género que se produzam no seu interior e na administração? Não quero entrar na análise desta questão, pois suponho que está já suficientemente clara».
(Estracto da carta (31) aos membros do Comitê Central e da Comissão Central de Controle de 23 de Outubro de 1923.)
A conduta de Estaline, nesta questão, revelou-me pola primeira vez com evidente clareza que a reorganização da Comissão Central de Controle e do Comitê Central era dirigida de modo íntrego por Lenine contra o poder excessivo de que Estaline dispunha no aparelho. Velaí a razão da resistência tão obstinada de Estaline ao plano do camarada Lenine.
62. Descrevi a última conversação que tive com Vladimir Ilitch no Buró da Comissão Central de Controle, pouco antes da sua segunda recaída. Este é o relato:
«Chamou-me Lenine ao seu quarto no Kremlin, falou-me do pavoroso desenvolvimento do burocratismo no nosso aparelho soviético e da necessidade de encontrar uma alavanca para abordar seriamente a questão. Propôs a criação duma comissão especial junto do Comitê Central e convidou-me a tomar uma parte activa neste trabalho. Respondi-lhe: «Vladimir Ilitch, a minha convicção é que não se deve esquecer que actualmente, na luita contra o burocratrismo do aparelho soviético, tanto na província como no centro, à volta de certos grupos e personalidades dirigentes do Partido, na província, no distrito, na região, no centro, quer dizer, no Comitê Central, etc., se criou uma selecção de funcionários e especialistas, membros do Partido, sem partido e semimembros do Partido. Exercendo uma pressão sobre o funcionário, esbarrar-se-á com o dirigente do Partido, a cujo séqüito pertence o especialista e, na situação actual, eu não desejaria encarregar-me de semelhante tarefa». Vladimir Ilitch reflectiu um instante e disse (refiro as suas palavras quase literalmente): «Digo pois que é preciso combater o burocratismo soviético, e você propõe-me de lhe juntar também o Buró de Organização do Comitê Central?» Surpreendido por esta resposta, desatei a rir, pois não me tinha passado pola cabeça uma fórmula tão perfeita. Respondi: «É caso para ver». Vladimir Ilitch disse-me então: «Pois bem, proponho-lhe que formemos um bloco.» Respondi: «Com um homem honrado sempre é agradável formar um bloco.» Em definitivo, Vladimir Ilitch disse-me que propunha a criação duma comissão junto do Comitê Central, para a luita contra o burocratismo «em geral», e que através dela abordaríamos também a questão do Buró de Organização do Comitê Central. Prometia ainda «reflectir» sobre o modo de organizá-la. Separámo-nos. Durante duas semanas aguardei que me telefonasse; mas o estado de saúde de Ilitch empiorava cada vez mais e ficou de cama pouco depois. Depois disso, Vladimir Ilitch enviava-me as suas cartas sobre a questão nacional por intermédio das suas secretárias, e por isso a questão não teve continuidade.
No fundo, o plano de Lenine era dirigido inteiramente contra Estaline.
63. Sim, aconteceu-me às vezes, estar em desacordo com Lenine. Mas quando Estaline tenta apoiar-se nessas incidências para deformar o carácter geral das nossas relações, estilhaça-se contra os factos relacionados com o período em que, como já disse, as questões se resolviam, não através de conversações ou de votos, de que não ficam acta, mas através de correspondência, isto é, no período compreendido entre a primeira e a segunda parte da enfermidade de Lenine.
Resumindo:
a) Sobre a questão nacional, Vladimir Ilitch tinha preparado, para quando do XII Congresso uma ofensiva decisiva contra Estaline. No seu nome, e a seu pedido, as suas secretárias tinham-me ao corrente. A expressão que mais se repetia era: «Vladimir Ilitch prepara uma bomba contra Estaline
b) O artigo de Lenine sobre a Inspeção Obreira e Campesina dizia:
«O Comissariado da Inspeção Operária e Camponesa não tem neste momento a menor autoridade. Toda a gente sabe que não existe instituição pior organizada do que a nossa Inspecção Operária e Camponesa, e que, no estado actual deste Comissariado, nada se lhe pode pedir... Com efeito, para quê constituir um Comissariado que trabalharia de qualquer modo, que não inspiraria a menor confiança e cuja voz apenas usufruiria duma autoridade grandemente reduzida?...
Peço a qualquer dirigente actual da Inspecção Operária e Camponesa, ou às pessoas que têm relações com ela, que honradamente digam que necessidade prática há da existência dum Comissariado como a Inspecção Operária e Camponesa...»(LENINE: «Antes menos, mas melhor», 4 de Março de 1923.)
Durante os primeiros anos da Revolução, Estaline esteve à frente da Inspecção Obreira e Campesina. Na circunstância, o ataque de Lenine era-lhe directamente dirigido.
c) Neste mesmo artigo diz-se:
«Entre nós, a burocracia não só existe nas instituições soviéticas, mas mesmo nas instituições do Partido.»
Estas palavras, suficientemente claras, adquirem um sentido particularmente destacado à luz da última conversação — já descrita precedentemente— que teve com Vladimir Ilitch, durante a qual se tratou do «bloco» contra o Buró de Organização do Comitê Central, considerado por nós os dous, como a fonte do burocratismo. A discreta reflexão de Ilitch, a que está entre aspas, dirige-se inteiramente contra Estaline.
d) Quanto ao «Testamento», não há necessidade de comentários. Está impregnado de desconfiança a respeito de Estaline, a respeito da sua grosseria e da sua deslealdade. Fala do abuso eventual que pode fazer dos seus poderes e do perigo de cisão que disso pode derivar para o Partido. De todas as considerações que nele são feitas, a única conclusão sugerida quanto à organização é que é preciso destituir Estaline do cargo de Secretário-Geral.
e) Finalmente, a derradeira carta que Lenine escreveu em vida ou, mais exactamente, ditou, é uma carta dirigida a Estaline significando-lhe que cortava com ele todas as relações de camaradagem. O camarada Kamenev falou-me desta carta na mesma noite em que foi escrita (a de 5 para 6 de Março de 1923). O camarada Zinoviev referiu-se-lhe na sessão ampliada do Comitê Central e da Comissão Central de Controle. A existência desta carta tem confirmação numa acta estenográfica polo testemunho de M. I. Ulianova. («Existem documentos a respeito deste incidente» — extracto da declaração da M. Ulianova ao Buró da sessão). Este facto, por si mesmo, anula todas as manobras para lhe enfraquecerem a importância moral.
Enumerando as advertências de Lenine a Estaline, Zinoviev disse perante a Assembléia de Julho de 1926:
«E a terceira advertência consistiu na ruptura por Vladimir Ilitch de toda relação de camaradagem, através duma carta pessoal.»(Acta estenografada, fasc. IV, pg. 32).
A este respeito, Maria Ulianova esforçou-se por apresentar a cousa como se tivesse cortado as relações de camaradagem por motivos pessoais e não por motivos políticos. (Acta estenografada, fasc. IV, pg. 104). Ainda será preciso recordar que, em Lenine, os motivos pessoais derivavam sempre dos motivos revolucionários relacionados com o Partido? A «grosseria» e a «deslealdade» também são traços pessoais. Mas se Lenine punha de sobreaviso o Partido contra isso, não era por motivos pessoais, mas por motivos políticos. A carta de Lenine sobre a ruptura de toda relação de camaradagem com Estaline tinha precisamente esse carácter. Esta derradeira carta foi escrita depois da carta sobre a questão nacional e depois do «Testamento». São vãos os esforços visando reduzir o peso moral da última carta de Lenine. O Partido tem o direito de conhecer também esta carta! Eis a linguagem dos factos. E eis como engana Estaline o Partido!
A discussão de 1923 – 1927
64. Durante a vida de Lenine, especialmente na época dos desacordos, hoje tão ampliados e tão desfigurados, sobre Brest-Litovsk e sobre os sindicatos, o termo «trotskismo» de modo nenhum existia.(8*) O Partido considerava que estes desacordos se desenvolviam sobre a base dos fundamentos históricos do bolchevismo. Os piores adversários de Lenine na questão de Brest-Litovsk foram Bukharine, Iaroslavski, Kuibichev, Soltz, Saforov e uma dúzia de outros velhos bolcheviques que constituíam a fracção dos «comunistas de esquerda». Estes teriam tido razão para se surpreenderem se daquela alguém se tivesse lembrado de chamar «trotskista» à sua posição, tanto mais que eu próprio estava do lado de Lenine a propósito de todas as questões principais sobre as quais combatiam Lenine os comunistas de esquerda.
O mesmo se passava sobre a questão sindical. O exagero administrativo nascera de toda a prática do comunismo de guerra e influíra numerosos quadros de velhos bolcheviques. Se alguém tivesse falado de «trotskismo» a este respeito, simplesmente teria sido considerado como louco. O espantalho do «trotskismo» só foi agitado quando Lenine se retirou definitivamente do trabalho, isto é, durante a discussão de 1923. Foi então que se começou a «criticar» a teoria da revolução permanente, com o propósito de para aí fazer ressuscitar todas as divergências nascidas duma nova etapa do desenvolvimento histórico. Não se combateu Trotski por ter apresentado uma nova teoria, o «trotskismo»; polo contrário, os críticos artificiosamente arquitectaram a teoria do «trotskismo» para luitar contra Trotski. Alguns o confessaram quando a configuração dos agrupamentos se modificou, ao irromper a tendência ZinovievKamenev.
65. Será conveniente falar noutra ocasião e detalhadamente da teoria da revolução permanente. Esta questão, liquidada há muito pola história, deve ser abordada historicamente e não com fins de baseamentos de intrigas.
Chegará dizer que se deve considerar dous lados da teoria da revolução permanente: um lado forte e outro débil. O lado forte consiste no esclarecimento do facto, bastante importante, que, graças à situação internacional e à configuração das forças sociais determinadas por esta situação, a Revolução russa, tendo começado como revolução burguesa, pôde conduzir o proletariado à ditadura antes da classe obreira da Europa Occidental subir ao poder. Esta idéia, defendida por mim em 1905, aparecia como cúmulo da heresia em 1917, não só aos olhos dos mencheviques, mas também a dúzias e centenas de bolcheviques, e em especial a Estaline e Rikov.
O lado débil da teoria da revolução permanente consistia na determinação insuficientemente clara e concreta das etapas de evolução e especialmente do reagrupamento das classes quando da passagem da revolução burguesa à revolução socialista. Mais duma vez disse que a exposição de Lenine era muito mais concreta. Mas unicamente a exposição de Lenine. Quando às críticas toscas dos anos 1913-27 contra a teoria da revolução permanente, nove décimos não passam de escolástica estéril, duma desvergonhada fabricação de «trotskismo», contra Trotski.
66. Não quero analisar agora a discussão de 1923. A luita iniciada então ainda hoje continua. As questões fundamentais da discussão foram:
a) As relações entre a cidade e o campo («tesouras»; desproporções; a ameaça que poderá surgir no próximo período; a indústria atrasar-se-á sobre a agricultura ou ultrapassá-la-á?);
b) A razão do papel do plano económico sob a égide da luita das tendências socialistas e capitalistas;
c) O regime do Partido;
d) Os problemas da estratégia revolucionária (Alemanha, Bulgária, Estónia).
As questões litigiosas concretizaram-se desde então e expressaram-se em numerosos documentos da oposição. Ao mesmo tempo, a linha fundamental, esboçada pola oposição em 1923, encontra-se confirmada plenamente.
Numa declaração de 1926, assinada por Kamenev e Zinoviev, diz-se:
«Não se pode duvidar, no presente, que o núcleo da oposição de 1923 não tenha tido razão ao pormos de sobreaviso contra a ameaça de abandono da linha proletária e contra o perigo do desenvolvimento do regime do aparelho. Continuam ainda hoje afastados do trabalho no Partido dezenas e centenas de dirigentes da oposição de 1923, e entre eles há velhos operários bolcheviques, temperados na luita, estranhos ao «carreirismo» e ao arrivismo — e isso a despeito da disciplina e da resistência de que deram provas».
Esta declaração, por si só, basta para demonstrar quanto pesa pouco na balança da teoria o espectro do «trotskismo», esse espectro criado e mantido para sufocar o Partido.
O que se chama «trotskismo» depois de 1923 e, sobretudo, depois de 1924, é a aplicação correcta do Marxismo à nova etapa da Revolução de Outubro e do nosso Partido.
Algumas deduções
Aqui temos uma pequena parte dos factos, dos testemunhos e das citações que podo trazer para refutar a história destes dez últimos anos, tal como foi falsificada por Estaline, Iaroslavski e C.ª
É preciso acrescentar que a falsificação não se limita apenas a estes dez anos, mas que se estende a toda a história precedente do Partido, transformada em ininterrupta luita do bolchevismo contra o «trotskismo». Os falsificadores sentem-se particularmente à vontade neste domínio, polo facto de que os acontecimentos se referem a um passado relativamente remoto e que os documentos que se editam são escolhidos arbitrariamente. Para conseguir isso, é falseado o pensamento de Lenine por uma unilateral escolha de citações. No entanto não falarei, desta vez, do primeiro período da minha actividade revolucionária (1897-1917), visto que a razão desta carta é o vosso inquérito sobre a minha participação na Revolução de Outubro, sobre os meus contactos e as minhas relações com Lenine.
Limitar-me-ei a dedicar algumas linhas aos vinte anos que precederam a Revolução de Outubro.
Fiz parte da «minoria» do II Congresso, minoria donde veio a nascer o menchevismo mais tarde. Permaneci filiado e politicamente ligado a esta minoria até Outono de 1904, mais ou menos até o momento da chamada «campanha provincial da nova ISKRA», altura em que se precisou o meu desacordo absoluto e irredutível com o menchevismo nas questões do liberalismo burguês e das perspectivas da revolução. Em 1904, isto é, vinte e três anos há, rompi com o menchevismo, tanto no domínio da política, como na da organização. Eu nunca me chamei menchevique, nem jamais me considerei como tal.
Em 19 de Dezembro de 1926, perante o Executivo da Internacional Comunista, exprimi-me como segue sobre a questão do «trotskismo»:
«Eu não creio, em geral, que o método biográfico possa conduzir-nos à decisão de questões de princípio. Sem dúvida que cometi erros em muitos problemas de princípio, sobretudo na época da minha luita contra o bolchevismo. Mas não será doado concluir daí que, longe de estudar o conteúdo, se deva julgar das questões políticas segundo a biografia, pois nesse caso seria necessário pedir a biografia de todos e cada um dos delegados... Eu próprio podo referir-me a um precedente. Na Alemanha, viveu e luitou um homem que se chamava Franz Mehring e que só aderiu à social-democracia depois duma longa e enérgica luita contra esta (até estes últimos anos, nós chamavámo-nos social-democratas). De início escreveu Mehring a história da social-democracia alemã na qualidade de adversário, não como lacaio do capitalismo, mas como adversário de idéias e foi só mais tarde, convertido em amigo fiel, que escreveu a sua excelente obra sobre a social-democracia. Por outro lado, Kautsky e Bernstein nunca combateram Marx abertamente e ambos os dous estiveram muito tempo sob a férula de Frederico Engels. Bernstein, além disso, era conhecido como o executor testamentário de Engels. No entanto, Franz Mehring morreu Marxista, comunista, enquanto que os dous outros, Kautsky e Bernstein, são ainda hoje os cães fieis do reformismo. O elemento biográfico tem, naturalmente, a sua importância; mas não é, em si, de maneira nenhuma decisivo».
Como o declarei muitas vezes, nos desacordos que teve com o bolchevismo sobre uma série de questões de princípio, as sem-razões estavam do meu lado. Mas para definir nalgumas palavras, que mais não seja duma forma aproximada, o conteúdo e a amplidão dos meus desacordos passados com o bolchevismo, devo dizer o seguinte:
«Na época em que eu não era membro do Partido bolchevique, nos momentos em que os meus desacordos com o bolchevismo atingiam o máximo de acritude, a distância que me separava das concepções de Lenine nunca foi tão grande como a que separa actualmente EstalineBukharine dos próprios princípios do Marxismo-leninismo.»
Cada nova etapa do desenvolvimento do Partido e da Revolução, cada novo livro, cada nova teoria de moda, suscitaram um novo «ziguezague» e um novo erro da parte de Bukharine. Toda a sua biografia política e teórica é um encadeado de erros do ponto de vista do bolchevismo. As faltas que Bukharine cometeu depois da morte de Lenine, ultrapassaram de longe — pola sua amplitude e, sobretudo, polas suas conseqüências — todas as suas anteriores. Este escolástico que esteriliza o Marxismo, que o converte num jogo de idéias e, com freqüência, numa sofística verbal, revelou-se como o «teórico» qualificado deste período de deslize político da direcção do Partido, isto é, da via proletária para o caminho pequeno-burguês. A isso não se pode chegar sem sofística. Daí deriva o papel «teórico» actual desempenhado por Bukharine.
Em todas as questões - pouco numerosas, de certo — em que Estaline procurou ocupar uma posição pessoal ou, muito simplesmente, dar a sua própria resposta às grandes questões, sem a direcção imediata de Lenine, constante e invariavelmente — organicamente, por assim dizer— adoptou uma posição oportunista.
Numa carta que escreveu quando do seu desterro, Estaline qualifica a luita de Lenine contra o menchevismo, a gente de Vperiod e os conciliadores, de «tempestade num copo de água» (ver a Zaria Vostoka de 23.12.1925.)
Tanto quanto sei, se se abstrair de artigos mais ou menos justos, mas simplesmente elementares, sobre a questão nacional, não existe nenhum documento político reflectindo o pensamento de Estaline antes de 1917.
A posição pessoal de Estaline (antes da chegada de Lenine), no começo da Revolução de Fevereiro era, de modo manifesto, oportunista.
A posição pessoal de Estaline a respeito da Revolução alemã de 1923 é, de princípio ao fim, a dum conciliador arrastando-se a reboque dos acontecimentos.
A posição pessoal de Estaline nas questões da Revolução chinesa não passa duma reedição, para pior, do «martinovismo» de 1903-1905.
A posição pessoal de Estaline nas questões do movimento operário inglês constitui uma capitulação centrista perante o menchevismo.
Podem-se amanhar as citações. Podem-se dissimular os estenogramas. Pode-se proibir a difusão das cartas e artigos de Lenine. Podem-se fabricar séries de citações tendenciosas. Pode-se interditar, ocultar e queimar os documentos históricos. Até se pode estender a censura aos documentos fotográficos e cinematográficos dos acontecimentos revolucionários.(9*) Estaline encarrega-se de tudo isso. Mas os resultados não justificam nem corresponderão às suas esperanças. É necessária toda a estreiteza de espírito de Estaline para crer que é possível fazer esquecer, por meio de maquinações burocráticas da pior espécie, os gigantescos acontecimentos da História.
Em 1918, na primeira fase da sua luita contra mim, Estaline viu-se, no entanto, obrigado a escrever, como já vimos, as seguintes palavras:
«Todo o trabalho da organização prática da insurreição efectuou-se sob a direcção imediata de Trotski, presidente do Soviete de Petrogrado. Pode-se dizer com segurança que a adesão da guarnição ao Soviete e a hábil organização do trabalho do Comitê de guerra revolucionário deve-as o Partido, antes de tudo e sobretudo, ao camarada Trotski».(Estaline, Pravda, 6 de Novembro de 1918)
Assumindo a inteira responsabilidade das minhas palavras, são obrigado a dizer: O selvagem esmagamento do proletariado chinês e da Revolução chinesa nas suas três principais etapas; o reforço da posição dos agentes trade-unionistas do imperialismo inglês após a greve geral de 1926, enfim, o enfraquecimento geral da posição da Internacional Comunista e da URSS, deve-o o Partido, antes de tudo e, sobretudo, a Estaline.