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sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Lenine e o Velho Iskra

Primeira Parte

"A cisão de 19O3 foi, por assim dizer, uma antecipação..."
(Palavras de Lenine em 191O)
Sem dúvida alguma, para o futuro grande biógrafo de Lenine, o período do velho Iskra ("A Centelha") (19OO-19O3) apresentará um interesse psicológico excepcional e, também, grandes dificuldades: pois é precisamente durante esses breves anos que Lenine se torna Lenine. Tal não significa que ele vá deixar de crescer. Muito pelo contrário, cresce e em que medida! - até Outubro e mais ainda depois de Outubro. Porém o crescimento é de ora em diante mais orgânico. O salto foi imenso, da conspiração política ao poder do 2ã de Outubro de 1917; mas foi, por assim dizer, uma mudança toda ela material, toda exterior, do homem que já havia medido e pesado tudo quanto se podia pesar e medir. Entretanto, no crescimento que precedeu a cisão no II Congresso do Partido há um impulso, imperceptível exteriormente, mas tanto mais decisivo quanto todo ele era interior.
As presentes recordações destinam-se a fornecer ao futuro biógrafo alguns dados sobre este período extremamente memorável e significativo do desenvolvimento espiritual de Vladimir Ilitch. Desde então até ao momento em que se escrevem estas linhas, decorreram mais de duas dezenas de anos, que correspondem a períodos bem ricos para a memória humana. Poder-se-ão sentir também naturais apreensões: em que medida esta narrativa reproduzirá exactamente o que se passou? Diria que não deixei de sentir o mesmo temor, e isto durante todo o tempo do meu trabalho, sabendo que já existem demasiadas recordações incoerentes e testemunhos inexactos. Ao escrever este ensaio, não tinha à mão qualquer documento, nenhuma recolha de referências, nenhum dossier, etc. Penso, no entanto, que foi melhor assim. Tive de me apoiar unicamente na memória e espero que o meu trabalho espontâneo, em tais condições, tenha ficado mais bem protegido contra os involuntários retoques retrospectivos que tão dificilmente se evitam mesmo quando exercemos sobre nós próprios uma crítica das mais rigorosas. E, finalmente, para as pesquisas futuras, esta crítica até será mais fácil quando se pegar nos documentos e, em geral, em todos os dossiers que se reportam a esse tempo longínquo.
Em certas passagens, cito conversas e discussões de então, apresentando-as sob a forma de diálogo. É claro que seria impossível pretender-se uma reprodução exacta dos diálogos, decorridos que foram mais de vinte anos. Mas, quanto ao essencial, parece-me que a minha caneta me é fiel e, quanto a certas expressões mais vivas, é :literal a reprodução.
Como se trata de materiais para uma biografia de Lenine e, consequentemente, como isto tem uma importância excepcional, permitir-me-ão, espero, que diga algumas palavras sobre certas particularidades da minha memória. Recordo-me muito mal da topografia das cidades e mesmo das habitações. Em Londres, por exemplo, perdi-me mais de uma vez numa distância tão insignificante como a que separava a habitação de Lenine da minha. Durante muito tempo tive uma memória péssima para fisionomias, mas, neste aspecto, fiz progressos notáveis. Em contrapartida, lembrava-me e lembro-me muito bem das ideias, das suas com- binações e das conversas sobre as ideias. Este juízo que faço não é subjectivo, pude convencer-me disso e verificá-lo muitas vezes: outras pessoas que tinham assistido às mesmas conversas transmitiam-nas com menos exactidão do que eu e aceitavam as minhas correcções. Convém acrescentar a esta circunstância que, ao chegar a Londres, eu era um jovem provinciano que desejava fortemente conhecer tudo e tudo compreender o mais rapidamente possível. É portanto natural que as minhas conversas com Lenine e com outros membros da redacção do Iskra me tenham ficado vivamente gravadas na memória. Eis aqui motivos que o biógrafo deverá ter em conta quando quiser julgar do valor histórico das recordações que vão seguir-se.
Cheguei a Londres em 19O2, no Outono, creio que em Outubro, de manhã cedo. Gesticulando, consegui fazer-me compreender por um cocheiro e o trem conduziu-me a uma morada que eu trazia num papel e que era o meu lugar de destino. Esse local era a habitação de Vladimir Ilitch. Tinham-me ensinado antecipadamente a lição (deve ter sido em Zurique), tinham-me dito que batesse várias vezes com a aldraba da porta. Tanto quanto me lembro, foi Nadejda Konstantinovna(1) quem veio abrir; deve ter saltado da cama, creio, com o barulho que eu fazia. Era ainda muito cedo e qualquer homem mais experimentado do que eu, mais habituado aos bons costumes da civilização, teria esperado paulatinamente uma hora ou duas na gare, em vez de ir bater, por assim dizer de madrugada, à porta de outrem. Mas eu ainda, estava com o ímpeto da, minha evasão de Verkolensk. Da mesma maneira, ou quase, tinha invadido em Zurique o apartamento de Axelrod, não de madrugada, mas a meio da noite.
Vladimir Ilitch estava ainda na cama e o seu rosto tanto reflectia amabilidade como um espanto aliás compreensível. Foi nestas condições que tivemos a nossa primeira entrevista e que conversámos pela primeira vez. Vladimir Ilitch e Nadejda Konstantinovna já me conheciam através de uma carta de Clair (M. G. Krjijanovski), o qual, em Samara, me tinha, por assim dizer, introduzido oficialmente na organização do Iskra sob o pseudónimo de "Pero" (A Caneta). Foi assim que me receberam: "Pero" tinha chegado... Ofereceram-me chá, creio que na cozinha-sala de jantar. Lenine entretanto vestia-se. Eu relatava a minha evasão e queixava-me do mau estado da "fronteira" (organização de passagem para o estrangeiro) do Iskra: estava ela nas mãos de um "estudante de liceu", socialista-revolucionário que tratava os camaradas do Iskra sem grande simpatia, por causa de uma dura polémica que se tinha desencadeado; além disso, os contrabandistas tinham-me depenado impiedosamente, exagerando todos os preços e retribuições acordados. Entreguei a Nadejda Konstantinovna uma lista algo modesta de endereços e locais de encontro, ou, mais exactamente, informações sobre a necessidade de suprimir certos endereços que de nada valiam. Por incumbência do grupo de Samarra (de Clair e outros), tinha visitado Karkov, Poltava, Kiev, e quase em toda a parte ou, pelo menos, em Karkov e em Poltava, tivera ocasião de verificar o estado extremamente deficiente das ligações entre as organizações.
Não me lembro bem se foi nessa manhã ou no dia seguinte que dei um longo passeio em Londres com Vladimir Ilitch. Mostrou-me Westminster (por fora) e outros edifícios importantes. Não recordo como foi que ele disse, mas sei que meteu esta nuance na ,frase: "É o ,famoso Westminster deles". -É evidente que o "deles" dizia respeito não aos ingleses, mas aos inimigos. Esta nuance, nunca sublinhada, profundamente orgânica, traduzida sobretudo pelo timbre da voz, existia sempre em Lenine quando falava .de valores culturais, de progressos recentes, das instalações do British Museum, da riqueza das informações do Times ou, muitos anos mais tarde, da artilharia alemã ou da aviação francesa: "eles" sabem, "eles" têm, "eles" fizeram, "eles" obtiveram, - mas que inimigos! Uma sombra imperceptível, a da classe dos exploradores, parecia aos seus olhos estender-se sobre toda a cultura humana, e ele era sempre sensível a esta sombra, tão claramente visível como a luz do dia.
Tanto quanto me lembro, prestei dessa vez muito pouca atenção à arquitectura londrina. Atirado bruscamente de Verkolensk para o estrangeiro, onde de resto me encontrava pela primeira vez, tomava apenas umas primeiras impressões muito sumárias de Viena, de Paris e Londres, e não podia descer a "pormenores" tais como o Palácio de Westminster. Além do mais, como se compreende, não fora para isso que Vladimir Ilitch me tinha arrastado para esse longo passeio. O seu objectivo era conhecer-me e submeter-me a um exame.
E o exame versou efectivamente "todas as matérias do curso". Respondi às suas perguntas descrevendo a composição do contingente exilado no Lena e dos agrupamentos que no seu interior se desenhavam. A grande linha de separação das tendências definia-se então pelas opiniões que se professavam sobre a luta política activa, o centralismo de organização e o terror.
- Bem, mas há divergências teóricas sobre a doutrina de Bernstein? - perguntou Vladimir Ilitch.
Contei que tínhamos lido o livro de Bernstein e a réplica de Kautski - tínhamos lido isso na prisão de Moscovo e depois nos locais de deportação. Nem um só marxista, entre nós, havia elevado a voz em defesa de Bernstein. Achava-se, como coisa evidente, que Kautski tinha razão. Mas entre os debates teóricos que prosseguíamos então no plano internacional e nas discussões sobre organização política, nós não estabelecíamos qualquer relação, não pensávamos sequer na possibilidade de uma relação, pelo menos até ao momento em que, no Lena, apareceram os primeiros números do Iskra e a brochura de Lenine "Que fazer?"
Contei também que tínhamos lido com muito interesse os primeiros livrinhos filosóficos de Bogdanov. Lembro-me perfeitamente do sentido de uma observação de Vladimir Ilitch a este respeito: a pequena obra, que tratava da natureza considerada sob um ponto de vista histórico, parecia-lhe, também a ele, muito apreciável, mas - enfim! - Plekanov não a aprovava, dizia que aquilo não era materialismo. Nessa altura Vladimir Ilitch não tinha nenhuma opinião sobre o assunto, contentando-se em transmitir a opinião de Plekanov, cuja autoridade filosófica respeitava, mas não sem ficar um tanto desconcertado. A apreciação de Plekanov também me surpreendeu bastante.
Interroguei ainda Vladimir Ilitch sobre as questões económicas. Contei-lhe como na prisão de transferência de deportados, em Moscovo, tínhamos estudado colectivamente o seu livro O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia e como, na Sibéria, trabalháramos no livro O Capital, tendo ficado pelo Tomo II. Recordei a enorme quantidade de dados estatísticos que tinham sido trabalhados em O Desenvolvimento do Capitalismo.
- Na prisão de Moscovo, falámos mais de uma vez com admiração, deste trabalho gigantesco.
- Pudera! ele não se fez de uma só vez - respondeu Lenine.
Era-lhe visivelmente agradável verificar que camaradas jovens estudavam atentamente a mais importante das suas obras económicas.
Depois falámos da "doutrina" de Makhaiski, da impressão que causara aos deportados, daqueles que, em maior ou menor número, ela seduzira. Contei que o primeiro caderno policopiado de Makhaiski nos tinha chegado a Lena vindo "de cima" e que tinha produzido na maioria de nós uma forte impressão pela sua crítica violenta ao oportunismo social-democrata, no que havia coincidência com a marcha dos nossos próprios pensamentos, determinada pela polémica entre Kautski e Bernstein. O segundo caderno, onde Makhaiski "arrancava a máscara" às fórmulas marxistas sobre a produção, vendo aí uma justificação teórica da exploração do proletariado pelos intelectuais, esse tinha-nos indignado e desconcertado. Enfim, o terceiro caderno, que havíamos recebido mais tarde e que continha um programa positivo, no qual as sobrevivências do "economismo" se conciliavam com um embrião de sindicalismo, tinha-nos dado uma sensação de absoluta inconsistência.
Quando passámos a falar do meu trabalho futuro, a conversa limitou-se, é claro, a generalidades. Eu queria antes do mais tomar conhecimento do que tinha sido recentemente publicado e pensava regressar depois à Rússia ilegalmente. Ficou decidido que começaria por "olhar à minha volta".
Nadejda Konstantinovna, para me alojar, levou-me para outro bairro, a uma casa onde habitavam Zassulitch, Martov e Blumenfeld, que dirigia a tipografia do Iskra. Havia lá um quarto livre para mim. O apartamento, de acordo com a disposição habitual das habitações inglesas, estava dividido não em comprimento, mas verticalmente: no quarto de baixo morava a dona da casa e os locatários habitavam uns por cima dos outros. Havia ainda uma divisão livre, que servia de sala comum, à qual Plekanov, depois da sua primeira visita, tinha dado o nome de covil. Neste antro, um pouco por culpa de Vera Ivanovna Zassulitch, mas também com a cumplicidade de Martov, reinava a maior das desordens. Era ali que se tomava o café, que nos reuníamos para conversar, que se fumava, etc. Daí a alcunha.
Assim começou o curto período londrino da minha existência. Atirava-me avidamente aos números do Iskra e às brochuras do Zaria. É também a essa época que remonta a minha colaboração no Iskra.
Para o segundo centenário da fundação da fortaleza de Schlüsselburg redigi uma nota, que foi, creio, o meu primeiro trabalho para o Iskra. Esta nota terminava com uma citação de Homero, ou mais exactamente, do tradutor russo de Homero, Gneditch, falando eu das "mãos invencíveis" que a revolução lançaria sobre o csarismo (a caminho da Sibéria, de comboio, eu ,tinha devorado a Ilíada). A nota agradou a Lenine. Mas, a propósito das "mãos invencíveis", levantou uma dúvida legítima que me transmitiu com um sorriso bonacheirão. "Mas foi extraída dum verso de Homero", retorqui eu para me justificar; no entanto, confessei de bom grado que a citação clássica não era indispensáve1. Esta nota encontra-se no Iskra, mas sem as "mãos invencíveis".
Foi nessa altura que fiz as primeiras conferências em White-Chapel, onde "me media" com o velho Tchaikovski (já então ele era um velho) e com o anarquista Tcherkezov, que também não era novo. Como resultado, fiquei sinceramente espantado ao ver que famosos emigrados de barba grisalha eram capazes de debitar asneiras de grande quilate. A nossa ligação com White-Chapel era assegurada pelo velho "londrino" Alexeiev, um emigrado marxista que tinha relações com a redacção do Iskra. Foi ele que me iniciou na vida inglesa e, de uma maneira geral, constituiu para mim a fonte de toda a espécie de noções e conhecimentos. Lembro-me que, na sequência de uma conversa circunstanciada com Alexeiev a caminho de White-Chapel e depois no regresso, comuniquei duas opiniões suas a Vladimir Ilitch: uma respeitante à queda do regime russo, a outra sobre o último livro de Kautski. A mudança de regime, dizia Alexeiev, devia produzir-se não gradualmente, mas com uma enorme rapidez, por causa da rigidez da autocracia. Esta palavra rigidez ficou vivamente gravada na minha memória.
- Pois bem, mas ele pode ter razão - disse Lenine depois de ter escutado a narrativa.
A outra opinião de Alexeiev reportava-se ao livro de Kautski "O Amanhã da Revolução Social".
Eu sabia que esta brochura interessava muito a Lenine, brochura que, conforme ele próprio me disse, tinha lido duas vezes e na qual acabara então de pegar pela terceira vez. Suponho que foi ele quem me encarregou de ultimar a tradução russa. Quanto a mim, acabava de estudar atentamente a obra, seguindo o conselho de Vladimir Ilitch. Ora Alexeiev achava que era obra de um oportunista.
- Imbecil - disse Lenine de repente, e fez uma careta como sempre acontecia quando não estava satisfeito.
Quanto a Alexeiev, este tinha o maior respeito por Lenine: - Julgo - dizia ele - que, para a revolução, Lenine é mais importante do que Plekanov. Não repeti essas palavras diante de Lenine, claro, mas disse-as a Martov, que nada respondeu.
A redacção do Iskra e do Zaria era composta, como se sabe, por seis pessoas: três "velhos", Plekanov, Zassulitch e Axelrod, e três jovens, Lenine, Martov e Potressov. Plekanov e Axelrod viviam na Suíça. Zassulitch residia em Londres, com os jovens. Nessa época, Potressov encontrava-se algures no continente. Esta dispersão dos colaboradores tinha certos inconvenientes, mas Lenine não parecia preocupar-se com isso e até se sentia satisfeito. Antes de me deixar voltar a atravessar a Mancha, iniciou-me com prudência nos assuntos internos do jornal e disse-me, entre outras coisas, que Plekanov insistia em que toda a redacção fosse estabelecer-se na Suíça, mas que ele, Lenine, se opunha a tal transferência porque isso só poderia prejudicar o trabalho. Foi então que compreendi pela primeira vez, ou antes, adivinhei por indícios ténues, que a presença da redacção em Londres devia explicar-se por razões entre as quais a polícia, sem dúvida, tinha o seu papel, mas onde também a influência dos redactores alguma coisa tinha a ver. No trabalho corrente de organização política, Lenine desejava a máxima independência possível em relação aos "velhos" e, sobretudo, a Plekanov, com o qual já tivera graves conflitos, particularmente ao elaborar um projecto de programa do partido. Os mediadores eram, em casos destes, Zassulitch e Martov: Zassulitch desempenhava de algum modo o papel de testemunha de Plekanov nestes duelos, e Martov era a testemunha de Lenine. Os dois intermediários estavam de facto dispostos a conseguir a conciliação e, além disso, tinham muita amizade um pelo outro. Só a pouco e pouco consegui conhecer os diferendos verdadeiramente sérios que tinham surgido entre Lenine e Plekanov sobre a parte teórica do programa. Lembro-me que Vladimir Ilitch me perguntou o que pensava do programa que acabava de ser publicado (no nº2ã do Iskra, se não me engano) . Porém, eu tinha apenas assimilado o programa nas suas grandes linhas e, portanto, era incapaz de exprimir uma opinião sobre a questão interna que interessava Lenine. As divergências assentavam na necessidade de definir, segundo Lenine, mais clara e categoricamente as tendências essenciais do capitalismo, a concentração da produção, a decadência das classes intermediárias, a diferenciação das classes, etc.; nestas questões Plekanov exigia mais reserva e maior prudência. O programa, com se sabe, está todo semeado de "mais ou menos" que se devem a Plekanov. Tanto quanto me lembro, de acordo com o que nos contaram Martov e Zassulitch, o primeiro esboço de Lenine, em oposição ao de Plekanov, tinha merecido uma crítica muito dura por parte deste último, formulada em tom de mofa arrogante, com a qual, em casos destes, se distinguia Jorge Valentinovitch. Mas não era assim, claro está, que se podia desencorajar ou intimidar Lenine. O conflito tomou um carácter verdadeiramente dramático. Vera Ivanovna, segundo ela própria contou, dissera a Lenine: - Jorge (Plekanov) é um galgo: mordisca bem mas acaba sempre por largar; você é um buldogue: quando morde nunca mais larga.
Recordo-me perfeitamente desta frase, bem como da conclusão de Zassulitch: - Lenine ficou muito contente com esta comparação. -"Eu mordo e não largo mais?...É isso?", perguntou ele ainda, encantado. E Vera Ivanovna imitava com uma bonomia trocista a entoação.
Durante a minha estadia em Londres, Plekanov esteve lá alguns dias. Foi então que o vi pela primeira vez. Visitou a nossa habitação comum, passou pelo "covil", mas eu estava ausente.
- Jorge veio cá - disse-me Vera Ivanovna; como ele quer vê-lo, vá a casa dele.
- Que Jorge? - perguntei intrigado, pensando para comigo que existia mais um personagem famoso que eu não conhecia.
- Essa é boa! Plekanov... Nós chamamos-lhe Jorge. Fui à noite a casa dele. Num quarto pequeno estavam com Plekanov, o social-democrata alemão Beer, escritor bastante conhecido, e o inglês Askew. Não sabendo onde meter-me, porque todas as cadeiras estavam ocupadas, Plekanov, não sem ter hesitado, convidou-me a sentar na cama. Achei que era efectivamente natural, não adivinhando que Plekanov, europeu até às unhas dos pés, não podia decidir-se por uma medida tão excepcional a não ser num caso de extrema necessidade. A conversa era em alemão; Plekanov não dominava suficientemente esta língua e limitava-se a monossílabos. Primeiro Beer referiu-se à maneira como a burguesia inglesa sabia seduzir os operários dignos de atenção; depois falou-se dos predecessores ingleses do materialismo francês. Beer e Askew foram embora logo de seguida. Jorge Valentinovitch esperava, aliás com razão, ver-me partir com eles, pois já era tarde e não se devia incomodar os donos da casa com o barulho da conversa. Ora, muito pelo contrário, eu pensava nesse momento que a verdadeira conversa ainda mal havia começado.
- Foi muito interessante o que Beer disse - observei. - Sim, a propósito da política inglesa, é interessante; quanto à filosofia, são bagatelas - respondeu Plekanov. Vendo que eu não me dispunha a sair, Jorge Valentinovitch propôs-me ir beber cerveja ali perto. Fez algumas perguntas sem importância, foi amável, mas havia nessa amabilidade não sei que impaciência escondida. Sentia que a sua atenção estava dispersa. Talvez estivesse simplesmente fatigado de dia de trabalho. No entanto, eu saí pouco satisfeito, com um sentimento de amargura.
Durante este período em Londres, como depois em Genebra, encontrava muito mais vezes Zassulitch e Martov do que Lenine. Em Londres, na mesma habitação, em Genebra, almoçando e jantando habitualmente nos mesmos pequenos restaurantes, Martov, Zassulitch e eu víamo-nos várias vezes ao dia, enquanto Lenine vivia no seu ambiente familiar; por causa disso, cada encontro com ele, fora das sessões oficiais, adquiria a importância de um pequeno acontecimento.
Zassulitch era uma personagem singular e singularmente simpática. Escrevia muito lentamente, sofrendo verdadeiramente todos os tormentos da criação literária.
- O que Vera Ivanovna faz não é uma composição, é um mosaico - disse-me um dia, nessa época, Vladimir Ilitch.
E, de facto, ela aplicava o texto frase a frase sobre o papel, andando longamente no quarto de um lado para o outro, deslizando e martelando o chão com as pantufas, fumando sem parar cigarros que ela própria enrolava, atirando pontas ou meios cigarros para todos os lados, sobre os peitoris das janelas, sobre as mesas, espalhando cinza sobre a blusa, sobre os braços, sobre os manuscritos, no copo de chá e, se a ocasião se apresentasse, para cima do seu interlocutor. Era e manteve-se até ao fim uma velha intelectual radical, a quem o acaso tinha infligido a inoculação do marxismo. Os artigos de Zassulitch provam que ela tinha assimilado admiravelmente os elementos teóricos de Marx. Mas, ao mesmo tempo, a base moral e política de uma radical russa dos anos 7O-71 conservou-se nela intacta até ao fim. Na intimidade, permitia-se amuar contra certos processos ou deduções do marxismo. A palavra "revolucionário" continha para si um significado particular, independente da consciência de classe. Lembro-me de ter tido com ela uma conversa acerca dos seus Revolucionários nos meios burgueses. Servi-me da expressão: os revolucionários burgueses-democratas.
- Mas não - replicou Vera Ivanovna, com um toque de despeito ou, mais exactamente, de desgosto - nem burgueses, nem proletários, mas simplesmente revolucionários. Pode dizer-se, é claro, os revolucionários pequeno-burgueses - acrescentou - se se meter na pequena burguesia tudo o que não se pode encaixar noutro lado...
O local de concentração das ideias social-democratas era então a Alemanha, e nós seguíamos com extrema atenção a luta dos ortodoxos contra os revisionistas na social-democracia alemã. Mas sobre isso Vera Ivanovna pensava apenas o que muito bem entendia, dizendo de repente:
- Está bem!... Eles acabarão com o revisionismo, eles restabelecerão Marx, eles transformar-se-ão na maioria e, no entanto, viverão com o seu Kaiser.
- "Eles" quem, Vera Ivanovna?
- Os sociais-democratas alemães, claro.
Aliás, sobre este ponto, Vera Ivanovna não se enganava tanto quanto nessa altura parecia, muito embora tudo viesse a passar-se de outro modo, que ela não previa, e por razões diferentes...
Relativamente ao programa de repartição das terras, Zassulitch mostrava-se céptica - não que ela o recusasse formalmente, mas ria-se disso com bom humor.
Recordo-me doutro episódio. Pouco antes do Congresso, veio a Genebra Constantino Constantinovitch Bauer, um dos velhos marxistas, homem aliás pouco equilibrado, que durante certo tempo manteve, relações amigáveis com Struve, mas que, nessa altura, hesitava entre o grupo do Iskra e o do Osvobojdénie (A Emancipação). Em Genebra começou a pender para o Iskra, mas recusava-se a aceitar o princípio da repartição. Foi a casa de Lenine, a quem provavelmente já conhecia. No entanto, não voltou de lá convencido, sem dúvida porque Vladimir Ilitch, conhecendo a sua natureza de Hamlet não se deu ao trabalho de o persuadir. Eu conhecera Bauer durante a deportação: tive com ele uma conversa muito longa sobre aquela malfadada repartição. Não sem muito suor, expus-lhe todas as razões que tivera tempo de reunir ao longo de seis meses de intermináveis discussões com os socialistas-revolucionários e, em geral, com todos os adeptos do programa agrário do Iskra. E eis que, nessa mesma noite, Martov (lembro-me que foi ele) comunicou na reunião da redacção, na minha presença, que Bauer tinha ido a sua casa e se declarara definitivamente "partidário do Iskra". Trotski, dizia-se, ter-lhe-ia dissipado todas as dúvidas...
- E quanto à repartição, ele também está convencido?- perguntou Zassulitch, quase assustada.
- Muito particularmente quanto à repartição.
- O po-o-bre!... - exclamou Vera Ivanovna com um tom tão impagável que desatámos todos a rir.
Lenine disse-me um dia:
- Em Vera Ivanovna, muitas coisas assentam na moral, no sentimento.
E contou-me que ela e Martov tinham parecido inclinar-se para o terror individual quando Val, o governador de Vilna, mandou vergastar os manifestantes operários.
Vestígios deste "desvio" temporário, como hoje diríamos, podem encontrar-se num dos números do Iskra.
Eis, creio, o que se terá passado:
Martov e Zassulitch estavam a preparar o número sem o auxílio de Lenine, que se encontrava no continente. Recebeu-se um telegrama - sobre a aplicação da vergasta aos detidos de Vilna. Em Vera Ivanovna acordo heroína radical que atira sobre Trepov porque este mandava chicotear os detidos políticos. Martov apoiou-a nessa ocasião... Ao receber o último número do Iskra, Lenine ficou indignado:
- É o primeiro passo para a capitulação face ao socialismo-revolucionário - gritou.
Ao mesmo tempo recebeu-se um protesto de Plekanov.
Este episódio teve lugar antes da minha chegada a Londres, podendo muito bem acontecer que haja algumas inexactidões na minha narrativa; porém, da base do incidente lembro-me eu sem risco de erro.
- É certo que - dizia-me Vera Ivanovna à laia de explicação - não se trata aqui de maneira nenhuma do terror como sistema; mas eu penso que através do terror se pode ensinar essa gente a nunca mais chicotear...
Zassulitch nunca entrava em verdadeiras discussões; menos ainda sabia falar em público. Nunca respondia directamente aos argumentos do seu interlocutor, mas dentro dela gerava-se qualquer coisa, e depois, bruscamente, inflamava-se e lançava rapidamente, tão rapidamente que quase sufocava, uma série de frases, dirigindo-se não a quem dela esperava uma resposta, mas àquele que, assim o julgava, era capaz de a compreender.
Se os debates decorriam segundo um processo regulamentar, sob a direcção de um presidente, Vera Ivanovna nunca se inscrevia para tomar a palavra, pois para dizer qualquer coisa tinha necessidade de se excitar. Mas em tal caso, mesmo assim ela falava, sem ligar nenhuma às inscrições, formalidade que desprezava em absoluto, e interrompia sempre tanto o orador como o presidente, dizendo até ao fim o que tinha para dizer. Para a compreender era necessário entrar por reflexão no curso dos seus pensamentos. E os seus pensamentos - justos ou errados - eram sempre interessantes e só a ela pertenciam. Não é difícil imaginar o contraste que representava Vera Ivanovna, com o seu radicalismo difuso e o seu subjectivismo, com toda a sua desordem, em relação a Vladimir Ilitch. Não se pode dizer que não houvesse entre ambos simpatia, mas o que é certo é que também ali existia o sentimento profundo de uma incompatibilidade orgânica. Entretanto, Zassulitch, psicologicamente, sentia desde então, não sem um certo desagrado, a força de Lenine; era o que ela queria exprimir com a frase: "Ele morde e não larga mais".
A complexidade das relações existentes entre os membros da redacção só se me foi tornando inteligível a pouco e pouco, e não sem esforço. Tinha chegado a Londres, como já disse, como provinciano autêntico, em todos os sentidos da palavra. Não só me encontrava no estrangeiro pela primeira vez, como também nunca tinha visto Petersburgo! Em Moscovo, como em Kiev, vivera apenas na prisão de transferência. Só conhecia os escritores marxistas através dos seus artigos. Na Sibéria, tinha lido números do Iskra e o "Que fazer?", de Lenine. A respeito de Ilitch, autor do "Desenvolvimento do Capitalismo", ouvira vagamente falar na prisão de Moscovo (por Vanovski, creio), como sendo a estrela mais próxima da social-democracia. Sabia poucas coisas de Martov e nada sobre Potressov. Em Londres, estudando afanosamente o Iskra, o Zaria e, em geral, as nossas publicações no estrangeiro, encontrei um dos números do Zaria onde havia um brilhante artigo dirigido contra Prokopovitch sobre o papel e o significado dos sindicatos.
- Quem é este Molotov? - perguntei a Martov. - É Parvus.
Mas eu também nada sabia sobre Parvus. Tomava o Iskra como um todo e, durante esses meses, a ideia de ali procurar, no jornal ou na redacção, tendências diferentes, nuances, influências, etc., ,era-me ainda estranha e, diria mesmo interiormente hostil.
Lembro-me de ter notado que alguns editoriais e artigos do Iskra, se bem que não assinados, eram redigidos por alguém que falava de si próprio na primeira pessoa: "naquele número, eu disse", "já escrevi sobre este assunto", etc.. Tirei informações para conhecer o autor desses artigos. Acontece que tudo era de Lenine. Numa conversa fiz-lhe notar que, em minha opinião, do ponto de vista literário não vinha muito a propósito falar na primeira pessoa em artigos não assinados.
- Porque é que acha falta de propósito? - perguntou ele, intrigado, pensando talvez que nesse momento eu não estava de facto a falar por acaso e que não exprimia apenas uma opinião pessoal.
- Parece-me que é assim - respondi sem precisão, pois não tinha qualquer ideia nítida sobre o assunto.
- Não sou da sua opinião - disse Lenine com um riso enigmático.
Nessa época, este processo literário podia parecer imbuído de um certo "egocentrismo". Na realidade, dando aos seus artigos, mesmo aos não assinados, um carácter singular, Lenine imprimia uma garantia à sua :linha doutrinária, ;pois não estava lá muito seguro quanto à dos seus colaboradores mais próximos. Devemos aqui reconhecer, no mais ínfimo pormenor, esta obstinada tensão para o objectivo, perseverante, persistente, independente de todas as convenções, indiferente às formalidades, que caracteriza essencialmente Lenine como chefe.
O director político do Iskra era ele, mas Martov era o seu principal recurso como redactor. Escrevia fácil e interminavelmente, tal como falava. Quanto a Lenine, esse passava longas horas na biblioteca do British Museum, onde trabalhava nas questões teóricas.
Recordo-me que um dia, na sala de leitura, Lenine escreveu um artigo contra Nadejdine, o qual tinha então na Suíça a sua pequena casa editora, formando uma espécie de grupo intermédio entre os social-democratas e os socialistas-revolucionários. Entretanto, Martov, na noite anterior (ele trabalhava sobretudo de noite), tivera tempo de escrever um grande artigo sobre Nadejdine e enviara-o a Lenine.
- Você leu o artigo do Júlio? - perguntou-me Vladimir Ilitch no museu.
- Li.
- Que pensa dele?
- Parece-me bom.
- Bem, bem, pode ser bom, mas não é suficientemente claro. Não tira conclusões. Acabei de tomar aqui algumas notas, mas não sei de momento que lhes fazer: a menos que as acrescente como observações complementares ao artigo do Júlio...
Passou-me um caderninho cheio de notas escritas a lápis. No número seguinte do Iskra o artigo de Martov apareceu com as notas de Lenine em pé de página. Nem o artigo nem as notas estão assinados. Não sei se estas notas foram incluídas nas Obras Completas de Lenine. Garanto que o autor é ele.
Meses mais tarde, nas semanas que precederam o Congresso, houve na redacção um violento incidente entre Lenine e Martov, que estavam em desacordo sobre a táctica das manifestações de rua, mais exactamente sobre a questão da luta armada contra a polícia. Lenine dizia que era preciso criar pequenos grupos armados e treinar operários militantes para se baterem contra as forças da polícia. Martov opunha-se a esta ideia. O debate teve lugar perante a redacção.
- Mas não dará isso origem a qualquer coisa do género dum terrorismo de grupos? - perguntei eu a propósito.
(Devo lembrar que neste período a luta contra a táctica terrorista dos socialistas-revolucionários desempenhava um grande papel na nossa acção.)
Martov agarrou nesta observação e desenvolveu a ideia de que era preciso ensinar a proteger as manifestações de massa contra a polícia, mas não criar grupos de combate. Plekanov, de quem eu e, sem dúvida, os outros esperávamos alguma coisa, furtou-se a qualquer resposta, convidando somente Martov a esboçar um projecto de resolução que permitisse debater a questão sobre um texto determinado. Este episódio foi, aliás, abafado pelos acontecimentos que o Congresso nos trazia. Fora das reuniões e das conferências não tive muita oportunidade de observar Martov e Lenine em diálogo. As longas discussões, as conversas caóticas, que degeneravam constantemente em mexericos de emigrados e em tagarelices, género de ocupação pela qual Martov se sentia atraído, já então desagradavam a Lenine. Este prodigioso maquinista da revolução, fosse na política, ,fosse nos trabalhos teóricos, nos estudos filosóficos como no estudo das línguas estrangeiras ou nas conversações, tinha apenas uma e a mesma coisa em vista: o objectivo final. Era talvez o mais inflexível utilitarista que jamais terá saído do laboratório dos tempos. Mas como o seu utilitarismo se caracterizava pela mais ampla grandeza histórica, a sua personalidade nunca diminuiu nem empobreceu com isso: pelo contrário, desenvolvia-se e enriquecia incessantemente, à medida que cresciam a sua experiência da vida e a sua esfera de acção.
Ao lado de Lenine, Martov, nessa época seu mais próximo companheiro de luta, já não se sentia à vontade. Ainda se tratavam por tu, porém começava a sentir-se um pequeno esfriamento nas suas relações. Martov vivia muito mais do momento presente, das zangas, do trabalho corrente de publicista, das polémicas, últimas novidades e tagarelices. Lenine, mastigando os factos do dia-a-dia, penetrava profundamente, através do pensamento, no amanhã. Martov tinha inúmeras e por vezes brilhantes intuições, concebia hipóteses, fazia propostas que ele próprio depressa esquecia; Lenine, esse, retinha aquilo ,de que necessitava e somente no momento em que necessitava. A transparente fragilidade dos pensamentos de Martov obrigou, mais de uma vez Lenine a abanar a cabeça em sinal de apreensão. Ainda não tinha havido tempo de definir-se, nem mesmo de aparecer, qualquer diferença entre as respectivas linhas políticas; apenas se podem sentir as diferenças voltando ao passado, à luz do que depois aconteceu. Mais tarde, aquando da cisão no II Congresso, os colaboradores do Iskra dividiram-se em duros e brandos. Estas denominações, como se sabe, ocorreram nos primeiros tempos, o que provava que ainda não existia nenhuma linha de divisão, havendo no entanto uma diferença na maneira de abordar as questões, na decisão, na persistência para o objectivo final. Voltando às relações entre Lenine e Martov, pode dizer-se que, antes da cisão, antes do Congresso, Lenine já era um "duro", enquanto Martov era um "brando". E ambos bem o sabiam.
Lenine observava Martov, a quem muito estimava, com um olho crítico e ligeiramente desconfiado; Martov, sentindo esse olhar, ficava aborrecido e, em resultado de um tique nervoso, erguia os seus magros ombros. Quando se encontravam e conversavam, já não havia entre eles entoações amigáveis, brincadeiras - ou, pelo menos, eu não me apercebia disso. Lenine, ao falar, deixava escorregar o olhar para o lado de Martov, e os olhos deste vitrificavam-se sob as lunetas que nunca limpava. E quando Vladimir Ilitch falava comigo de Martov, havia na sua voz uma nuance particular: "O quê, foi o Júlio que disse isso?". E então o nome de Júlio era pronunciado de uma certa maneira, ligeiramente sublinhada, como se Lenine fizesse um aviso: "Ele é bom, sem dúvida, ele é bom, é mesmo notável, mas infelizmente é um brando".
Sem dúvida .alguma, Vera Ivanovna tinha também sobre Martov uma certa influência, não política, mas psicológica, conservando-o um pouco afastado de Lenine. É claro que o que eu aqui digo é mais uma generalização psicológica do que a constatação de um facto Imaterial; e isto reporta-se a coisa que se passaram já lá vão vinte e dois anos. Durante este tempo, muitas outras coisas vieram inscrever-se na minha memória e, na imagem que dou de momentos imponderáveis para caracterizar relações pessoais, pode haver inexactidões ou um desvio de perspectiva. Qual a parte da memória e qual a da imaginação que reconstrói involuntariamente à sua maneira o passado? Penso, contudo, que no essencial, a minha memória reproduz o que se passou e como se passou.
Depois das minhas conferências experimentais, por assim dizer, em White-Chapel (Alexeiev apresentou sobre isso um "relatório" à redacção), mandaram-me fazer conferências no continente, em Bruxelas, Liège e Paris. O tema destas conferências era o seguinte: "Do materialismo histórico e do modo como ele é compreendido pelos socialistas-revolucionários". Vladimir Ilitch mostrou muita curiosidade pelo assunto. Apresentei-lhe um resumo pormenorizado, acompanhado de citações. Aconselhou-me a trabalhar o tema e a fazer sobre ele um artigo para o número seguinte do Zaria, porém não tive tal audácia.
De Paris fui logo de seguida chamado por telegrama a Londres. Tratava-se de me enviarem ilegalmente à Rússia, de acordo com o esquema de Vladimir Ilitch: lá queixavam-se de carências, da falta de camaradas, e era Clair, creio, que reclamava o meu regresso. Mas, mal tivera tempo de chegar a Londres, já o plano estava modificado. L. G. Deutch, que então se encontrava em Londres e era muito bom para mim, contou-me mais tarde como "interviera a meu favor", demonstrando que "este adolescente" (nunca me chamava de outra maneira) tinha necessidade de viver no estrangeiro para completar a sua instrução; Lenine, após ter discutido um pouco, aceitou a ideia. Era muito sedutor trabalhar na organização russa do Iskra; no entanto, aceitei de bom grado ficar ainda mais um tempo no estrangeiro. Um domingo, fui com Vladimir Ilitch e Nadejda Konstantinovna à igreja socialista de Londres, onde um meeting social-democrata se fazia acompanhar do canto de salmos, piedosamente revolucionários. O orador era um compositor-tipógrafo que regressara, creio, da Austrália. Vladimir Ilitch traduzia-nos em voz baixa o seu discurso, o qual tinha um sentido bastante revolucionário, pelo menos para essa época. Em seguida, todos se levantaram e cantaram: "Deus todo-poderoso, faz com que não haja mais sobre a terra nem reis, nem ricos..." ou qualquer coisa ,do género.
- Há no proletariado inglês uma multidão de elementos revolucionários e socialistas que estão dispersos - disse a propósito Vladimir Ilitch, quando saímos da igreja; - mas tudo isso se combina com o conservadorismo, a religião, os preconceitos, e não consegue vingar e generalizar-se...
Interessa aqui fazer notar que Zassulitch e Martov viviam completamente à margem do movimento operário inglês, estando totalmente absorvidos pelo Iskra e por aquilo que o rodeava; enquanto Lenine, de tempos a tempos, fazia incursões nos meios operários ingleses.
É inútil dizer que Vladimir Ilitch, Nadejda Konstantinovna e a mãe desta viviam mais que modestamente. Regressados da igreja social democrata, almoçámos na pequena cozinha - sala de jantar da habitação composta por duas divisões. Vejo ainda os pequenos bocados de carne grelhada que foram servidos na frigideira. Tomou-se chá. Gracejaram, como sempre, acerca do meu regresso a casa, perguntando se eu seria capaz de encontrar sozinho o caminho: eu era muito desastrado a reconhecer as ruas e, com a minha tendência para a sistematização, chamava a este defeito "a minha cretinice topográfica".
Aproximava-se a data fixada para o Congresso e, finalmente, foi decidido transferir o centro do Iskra para Genebra: a vida lá I era incomparavelmente mais barata e as ligações com a Rússia mais fáceis. Lenine, contra vontade, consentiu. Endossaram-me para Paris, de onde, juntamente com Martov, deveria partir para Genebra. A preparação do Congresso intensificou-se. Pouco tempo depois também Lenine chegou a Paris. Deveria fazer três conferências sobre a questão agrária na Escola de Altos Estudos Sociais, escola fundada em Paris pelos professores que haviam sido escorraçados das universidades russas. Os estudantes marxistas tinham insistido para que Lenine fosse convidado, tanto mais que Tchernov já anteriormente tomara a palavra neste estabelecimento. Os professores estavam preocupados e suplicavam ao conferencista agressivo que, na medida do possível, não provocasse polémica. Mas Lenine recusou aceitar qualquer condição e começou a primeira conferência dizendo que o marxismo era uma teoria revolucionária, a qual, por consequência, provocava polémica, mas que esta combatividade não estava de modo algum em contradição com o seu carácter científico.
Lembro-me que antes desta primeira conferência Vladimir Ilitch estava muito excitado. Porém, na tribuna, dominou-se logo ou, pelo menos, tinha ar disso. O professor Gambarov, que viera para o ouvir, comunicou a Deutch a sua impressão em duas palavras: "Um verdadeiro professor!" Este homem amável julgava que fazia o maior dos elogios. Em todas as conferências entrou a polémica contra os Populistas e o social-reformista agrário David, que Lenine punha ao lado dos populistas; entretanto, as lições mantiveram-se no âmbito da teoria económica, sem tocar na luta política de então, no programa agrário da social-democracia, dos socialistas-revolucionários, etc. O conferencista quisera limitar-se assim, tendo em conta o carácter académico da cátedra. Mas, depois da terceira lição, Lenine fez uma conferência política sobre a questão agrária numa sala, creio que no nº 11O da avenida de Choisy; esta reunião foi organizada não pela Escola de Altos Estudos, mas pelo grupo parisiense do Iskra. A sala estava cheia. Todos os estudantes da Escola foram lá ouvir as deduções práticas do curso teórico que lhes tinha sido ministrado. A prelecção incidiu sobre o programa agrário do Iskra dessa época e, em particular, sobre a restituição às comunas das terras repartidas. Não me recordo do nome dos opositores que tomaram a palavra. Mas lembro-me que, na sua conclusão, Vladimir Ilitch foi maravilhoso. Um dos camaradas parisienses do Iskra disse-me à saída: "Hoje, Lenine ultrapassou-se". Como é habitual, os camaradas foram com o conferencista para o café. Estavam todos muito satisfeitos e o próprio Lenine encontrava-se num estado de agradável excitação. O tesoureiro do grupo, muito contente, comunicou-nos o montante da receita que ia entrar na caixa do Iskra: qualquer coisa como 75 ou 1OO francos, uma soma que não era de desprezar. Passou-se isto no princípio de 19O3. Não posso, neste momento, determinar exactamente a data, mas julgo que não será muito difícil fazê-lo, se é que não está já feito.
Foi durante esta estadia de Lenine em Paris que se decidiu fazê-lo assistir a um espectáculo de ópera. N. I. Sedova, membro do Iskra, ficou encarregado disso. Vladimir Ilitch foi à Ópera Cómica e regressou com a pasta que não largava desde que ia dar os cursos na Escola dos Altos Estudos. Representava-se Louise, de Gustave Charpentier, um drama lírico cujo tema é muito democrático. Formávamos um grupo no galinheiro. Além de Lenine, Sedova e eu, estava também Martov, creio. Não me lembro dos outros. Esta ida à Ópera Cómica incluiu um pequeno incidente completamente estranho à música, mas que, no entanto, se gravou fortemente na minha memória. Lenine tinha comprado sapatos em Paris, mas eram muito apertados. Sofreu durante várias horas e, finalmente, decidiu desfazer-se deles. Como por acaso, os meus próprios sapatos precisavam de ser substituídos. Lenine deu-me os dele e, ao princípio, pareceu-me que eram mesmo da minha medida, tão contente fiquei. Decidi estreá-los ao ir à ópera Cómica. Na ida tudo correu bem. Mas no teatro comecei a sentir que a coisa estava a correr mal. Talvez por isso não me lembre da impressão que a ópera causou a Lenine e a mim próprio. Recordo apenas que ele estava então muito disposto a brincar e que ria muito. No regresso, eu já sofria cruelmente e Vladimir Illitch, sem qualquer piedade, gozou-me durante todo o caminho. No entanto, havia uma certa comiseração na sua troça: não tinha ele próprio sofrido o suplício dos sapatos durante várias horas?
Falei atrás na agitação que sentia Lenine antes de começar as suas conferências. Impõe-se voltar ao assunto. Emoções deste género manifestaram-se em Lenine noutras circunstâncias e, muito mais tarde, quando teve de aparecer em público; e eram tanto mais fortes quanto mais "estrangeiro" era para ele o auditório e quanto mais acidental a ocasião do discurso. A maneira de falar de Lenine mostrava-se sempre cheia de segurança, de veemência; ele dizia rapidamente o que tinha para dizer, de modo que os seus discursos eram uma prova bastante dura para os estenógrafos. Mas quando não se sentia à vontade, a sua voz ficava com um som que não era o dele e que se parecia com uma espécie de eco reflectido e impessoal. Pelo contrário, quando Lenine sentia que o auditório era precisamente aquele que tinha grande necessidade de o ouvir, então a voz adquiria uma extrema vivacidade, tornava-se leve e persuasiva; já não era a voz de um "orador", no sentido comum do termo, era a voz de um conversador, mas elevada ao tom necessário à tribuna. Já não era arte oratória, ultrapassava a eloquência vulgar. Poder-se-á objectar, é verdade, que qualquer orador fala muito melhor quando se sente entre os seus. Em geral, está correcto. Mas a questão reside em saber em que auditório e em que circunstâncias um orador se sente como em casa. Os europeus, do tipo Vandervelde, formados nos hábitos parlamentares, precisam de um certo envolvimento solene e de tudo quanto apela para a eloquência. Nas reuniões em que se festejam aniversários ou se homenageiam entidades oficiais, sentem-se de facto bem. Mas, para Lenine, reuniões deste género representavam verdadeiras desgraçazinhas pessoais. Ele falava com muito brilho e de uma maneira persuasiva quando tinha de analisar questões de política de combate. As suas melhores peças de oratória devem ser os discursos que proferiu no Comité Central nas vésperas de Outubro.