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sábado, 22 de novembro de 2008

A Revolução Permanente

Leão Trotski
Novembro de 1929

Introdução
Esta obra é consagrada a uma questão estritamente ligada à história das três revoluções russas, mas ainda vai além. No decurso destes últimos anos, essa questão teve um papel imenso nas lutas intestinas do Partido Comunista da União Soviética. Colocada. em seguida, na Internacional Comunista, desempenhou papel decisivo no desenvolvimento da revolução chinesa, determinando uma série de resoluções extremamente graves, relacionadas com a luta revolucionária nos países do Oriente. Trata-se da chamada teoria da "revolução permanente", que, segundo os epígonos(1) do leninismo (Zinoviev, Stalin, Bukhárin e outros), constitui o pecado original do "trotskismo".
Após longa trégua, a questão da revolução permanente novamente levantada em 1924, de uma forma que à primeira poderia parecer completamente inesperada. Não havia nenhum motivo político para recomeçar a discussão: eram controvérsias muito tempo esquecidas. Em compensação, existiam graves razões psicológicas. O grupo dos chamados "velhos bolcheviques", ao empreender a sua ofensiva contra mim, opôs-me inicialrnente o seu título de "velhos". Mas, um grande obstáculo surgia em seu caminho: o ano de 1917. Por mais importante que tenha sido a história das lutas ideológicas precedentes e da preparação revolucionária, essa primeira fase, para o conjunto do Partido e para os indivíduos, encontrou sua justificação mais alta e irrevogável na Revolução de Outubro. Nenhum dos epígonos1 conseguiu passar nesse exame.
No momento da revolução de fevereiro de 1917, todos sem exceção, ocuparam as posições vulgares da esquerda democrática. Nenhum deles formulou a palavra de ordem de luto do proletariado pelo poder. Todos eles consideravam a orientação rumo a revolução socialista como absurda ou, pior ainda, como "trotskista".
Foi nesse espírito que dirigiram o Partido até o regresso de Lênin do estrangeiro e até à publicação de suas célebres teses de 4 de abril de 1917. Depois disso, Kaménev(2), já em luta direta contra Lênin, procurou organizar abertamente a ala democrática do bolchevismo. Zinoviev, que chegara com Lênin, dá-lhe logo, depois, sua adesão. Stalin, muito comprometido por sua posição social-patriótica, pôs-se a margem. Deixando ao Partido tempo para esquecer os lamentáveis artigos e discursos de sua autoria durante as semanas decisivas de março, Stalin foi se aproximando, pouco a pouco, do ponto de vista de Lênin. De tudo isso, surgiu, naturalmente, a pergunta: Que aprenderam do leninismo esses dirigentes "velhos bolcheviques", uma vez que, no momento histórico mais grave e mais cheio de responsabilidades, nenhum deles foi capaz de utilizar, por si, toda a experiência teórica e prática do Partido? Foi preciso, porém, evitar, a todo custo, a questão e substituí-la por outra. Isso explica por que se decidiu concentrar o fogo sobre a teoria da revolução permanente. É natural que os meus contraditores não tenham, então, podido prever que, depois de criarem um eixo artificial de luta, se veriam forçados, em seguida, a girar insensivelmente ao redor desse eixo e a formar, assim, uma concepção nova por método inverso.
Os pontos essenciais da teoria da revolução permanente foram por mim formulados antes dos acontecimentos decisivos do ano de 1905. A Rússia caminhava para uma revolução burguesa. Entre os sociais-democratas russos da época (trazíamos todos, então, o nome de sociais-democratas), ninguém duvidava que marchássemos precisamente para uma revo1ução burguesa isto é, para uma revolução provocada pela contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas da sociedade capitalista e as anacrônicas relações de classe e de condição legadas pela época de servidão e da Idade Média. Lutando, nessa época, contra os narodniki (populistas) e os anarquistas, consagrei numerosos artigos e discursos à interpretação marxista do caráter burguês da revolução iminente.
Esse caráter burguês da revolução não deixava, porém, prever que classes deveriam realizar as tarefas da revolução democrática e que forma tomariam então, as relações entre as classes. Era esse, no entanto, o ponto de partida de todos os problemas estratégicos fundamentais.
Plekhanov(3), Axelrod, Zassulitch, Mártov(4) e, com eles, todos os mencheviques russos, partiam do ponto de vista de que o papel dirigente numa revolução burguesa só podia pertencer à burguesia liberal, na qualidade de pretendente natural do poder. Segundo esse esquema, cabia ao partido do proletariado o papel de ala esquerda da frente democrática: a social-democracia devia sustentar a burguesia liberal na luta contra a reação, mas defender, ao mesmo tempo, os interesses do proletariado contra a burguesia liberal. Por outras palavras, os mencheviques consideravam a revolução burguesa, sobretudo, como uma reforma liberal e constitucional.
Lênin formulava o problema de modo inteiramente diverso. A libertação das forças produtivas da sociedade burguesa do jugo da servidão significava antes de tudo, para ele, a solução radical do problema agrário, no sentido de uma liquidação definitiva da classe dos grandes proprietários fundiários e de uma transformação revolucionária no domínio da propriedade fundiária. Tudo isso estava indissoluvelmente ligado à abolição da monarquia. Lênin colocara o problema agrário, que tocava nos interesses - vitais da enorme maioria da população e que constituía, ao mesmo tempo, a base do problema do mercado capitalista, com uma audácia verdadeiras mente revolucionária. Uma vez que a burguesia liberal, que se opunha aos operários, estava ligada à grande propriedade fundiária por laços numerosos, a libertação verdadeiramente democrática da classe camponesa só podia realizar-se pela cooperação revolucionária dos operários e camponeses.
Em caso de vitória, essa revolta comum contra o antigo regime devia acarretar, segundo Lênin, a instauração da "ditadura. democrática do proletariado e dos camponeses".
Essa fórmula é, hoje, repetida, na Internacional Comunista, como um dogma geral, sem que se procure fazer a análise da experiência histórica viva do último quarto de século. Como se não tivéssemos sido atores e testemunhas da revolução de 1905, da revolução de março de 1917 e, finalmente, da reviravolta de Outubro! No entanto, uma tal análise histórica é tanto mais necessária quanto o regime da "ditadura democrática do proletariado e dos camponeses" nunca existiu na realidade. Em 1905, Lênin falava, apenas, de uma hipótese estratégica que devia ainda ser verificada pelo curso real da luta de classes. A fórmula "ditadura democrática do proletariado e dos camponeses" tinha, sobretudo, e de caso pensado, um caráter algébrico. Lênin não resolvia, de antemão a questão das relações políticas entre as duas partes da ditadura democrática eventual: o proletariado e os camponeses. Não excluía a possibilidade de serem os camponeses representados na revolução por um partido especial, independente não só da burguesia, mas também do proletariado, e capaz de fazer a revolução democrática unindo-se ao partido do proletariado na luta contra a burguesia liberal. Como veremos em seguida, Lênin admitia até que o partido revolucionário camponês formasse a maioria no governo da ditadura democrática. Desde o outono de 1902, pelo menos, isto é, desde a época da minha primeira fuga para o estrangeiro, me considerei discípulo de Lênin no que concernia ao papel decisivo da transformação agrária no destino da nossa revolução burguesa. Ao contrário do que rezam as lendas absurdas dos últimos anos, estava então perfeitamente convencido de que a revolução agrária e, por conseguinte, a revolução democrática, só podia realizar-se no curso da luta contra a burguesia liberal, pelos esforços conjugados dos operários e dos camponeses. Opunha-me, porém, à fórmula da "ditadura_democrática do proletariado e dos camponeses", por achar que tinha o defeito de deixar sem resposta a pergunta: A qual dessas duas classes pertencerá a ditadura real? Procurava demonstrar que, a despeito de sua enorme importância social e revolucionária, os camponeses não são capazes de formar um partido verdadeiramente independente e, muito menos, de concentrar o poder revolucionário nas mãos desse partido. Em todas as revoluções passadas, a partir da Reforma alemã do século XVI e mais cedo ainda, os camponeses rebelados deram sempre seu apoio a uma das frações da burguesia das cidades, permitindo-lhe, muitas vezes, alcançar a vitória. Assim também, considerava eu que, em nossa revolução burguesa retardada, os camponeses, no momento supremo da luta, podiam prestar um auxílio análogo ao proletariado e ajudá-lo a tomar o poder. Cheguei, assim, à conclusão de que a nossa revolução burguesa - só podia realizar de fato as suas tarefas no caso de o proletariado, apoiado pelos milhões de camponeses, concentrar em suas mãos a ditadura revolucionária.
Qual seria o conteúdo social dessa ditadura? Antes de mais nada, sua missão consistiria em levar até o fim a revolução agrária e a reconstrução democrática do Estado.
Em outras palavras, a ditadura do proletariado tornar-se-ia a arma com a qual seriam alcançados os objetivos históricos da revolução burguesa retardatária. Mas esta não poderia ser contida aí. No poder, o proletariado ser ia obrigado a fazer incursões cada vez mais profundas no domínio da propriedade privada em geral, ou seja, empreender o rumo das medidas socialistas.
- Mas, realmente acreditais que a Rússia já esteja madura para uma revolução socialista? - objetaram-se muitas vezes os Stalin, Rykov(5) e outros Mólotov(6) dos anos 1905-1917. Sempre respondi: não, não creio. Contudo, a economia mundial e a economia européia em particular estão perfeitamente maduras para esta revolução. A ditadura do proletariado na Rússia nos conduzirá ou não ao socialismo? Em que ritmos e por quais etapas? Tudo isso dependerá do comportamento futuro do capitalismo europeu e mundial.
Eis aqui os traços essenciais da revolução permanente, tal como ela se constituiu nos primeiros meses do ano de 1905. Três revoluções ocorreram depois. O proletariado russo chegou ao poder, levado pela poderosa vaga de uma insurreição camponesa. A ditadura do proletariado tomou-se um fato consumado na Rússia antes de surgir em outros países, incomparavelmente mais desenvolvidos.
Em 1924, sete anos após a fulgurante confirmação do prognóstico histórico da teoria da revolução permanente, os epígonos desencadearam contra ela uma furiosa campanha, destacando dos meus velhos escritos frases truncadas e réplicas polêmicas que eu mesmo já havia completamente esquecido depois de tanto tempo.
A esta altura, é bom lembrar que a primeira revolução russa irrompe pouco mais de meio século após a época das revoluções burguesas na Europa e trinta e cinco anos depois da insurreição da Comuna de Paris. A Europa já havia perdido o hábito das revoluções. A Rússia as desconhecia completamente. Todos os problemas da revolução se formulavam em novos termos. É fácil compreender que a revolução que se aproximava representava~então para nós uma massa de elementos desconhecidos ou duvidosos. As fórmulas de todos os grupos não passavam, em suma de hipóteses teses de trabalho. É preciso ser totalmente incapaz de fazer um prognóstico histórico e compreender seus métodos para considerar, hoje, as avaliações e análises de 1905 como se elas datassem de ontem. Não raro digo a mim mesmo e freqüentemente repito aos meus amigos: sem dúvida nos meus prognósticos de 1905 houve grandes lacunas muito fáceis de perceber, agora, após o fato consumado. Por ventura, todos os meus críticos os previram melhor do que eu e com maior alcance? Não tendo tido oportunidade de reler meus antigos trabalhos, admitia, antecipadamente, que eles continham falhas muito graves e importantes do que na realidade apresentavam. Disso me convenci, em 1928, durante meu exílio em Alma-Ata, onde o repouso político forçado me deu o tempo necessário para reler e anotar meus velhos escritos consagrados ao problema da revolução permanente. Confio em que o leitor chegue à mesma conclusão após ler a exposição que se segue.
Embora mantendo-me nos limites desta introdução, é necessário, contudo, caracterizar, tão exatamente quanto possível, os elementos componentes da teoria da revolução permanente e as principais objeções que lhe fazem. A discussão de tal forma se ampliou e se aprofundou que abarca, em suma, todas as questões mais importantes do movimento revolucionário mundial.
A revolução permanente, na concepção de Marx significa uma revolução que não transige com nenhuma forma de dominação de classe, que não se detém no estágio democrático e, sim, passa para as medidas socialistas e a guerra contra a reação exterior, uma revolução na qual cada etapa está contida em germe na etapa precedente, e só termina com a liquidação total da sociedade de classes.
Para dissipar a confusão criada em relação à teoria da revolução permanente, é preciso distinguir três categorias de idéias que se unem e se fundem nela. De início, compreende o problema da passagem da revolução democrática à revolução socialista. Eis basicamente sua origem histórica.
A idéia da revolução permanente foi formulada pelos grandes comunistas dos meados do século XIX, Marx e seus discípulos, para enfrentar a ideologia burguesa que, como se sabe, pretende que, apos o estabelecimento de um Estado "nacional" ou democrático, todas as questões podem ser resolvidas pela via pacífica da evolução e das reformas, Marx não considera a revolução burguesa de 1848. senão como o prólogo imediato da revolução proletária. Marx se "enganou". Mas seu erro era um erro de fato, não um erro de metodologia. A revolução de 1848 não se transformou em revolução. socialista. Esta foi a razão pela qual não alcançou o triunfo da democracia. Quanto à revolução alemã de 1918, não era absolutamente o coroamento democrático de uma revolução burguesa: era uma revolução proletária decapitada pela social-democracia, para ser mais exato, pela contra-revolução que, após sua vitória sobre o proletariado, foi obrigada a conservar as falaciosas aparências de democracia.
Segundo o esquema da evolução histórica elaborado pelo "marxismo" vulgar, cada sociedade chega, cedo ou tarde, a um regime democrático; então, o proletariado se organiza e faz sua educação socialista nesse ambiente favorável. Entretanto, no que concerne à passagem ao socialismo, nem todos a concebiam de modo idêntico: os reformistas confessos a encaravam sob aspecto de reformas que dariam a democracia um conteúdo socialista (Jaurès); os revolucionários formais - reconheciam o caráter inelutável da violência revolucionária no momento da passagem ao socialismo (Guesde). Mas, tanto uns como outros, consideravam a democracia e o socialismo, em todos os povos e em todos os países, como duas etapas não somente distintas, mas também muito distantes uma da outra na evolução social. Esta idéia predominava, de igual . modo, entre os marxistas russos que, em 1905, pertenciam quase todos à ala esquerda da Segunda Internacional. Plekhánov, o brilhante fundador do marxismo russo, considerava como louca a idéia da possibilidade de uma ditadura proletária na Rússia contemporânea. Este ponto de vista era compartilhado não somente pelos mencheviques, mas também pela esmagadora maioria dos dirigentes bolcheviques, em particular pelos atuais condutores do partido. Eles eram então democratas revolucionários convictos, mas os problemas da revolução socialista lhes pareciam, tanto em 1905 como em véspera de 1917, o prelúdio obscuro de um futuro ainda longínquo.
A teoria da revolução permanente, renascendo em 1905, declarou guerra a esta ordem de idéias e a essa disposição de espírito.
Ela demonstrava que, em nossa época, o cumprimento das tarefas democráticas, proposto pelos países burgueses atrasados, conduzia diretamente à ditadura do proletariado, que coloca as tarefas socialistas na ordem do dia. Nisto consistia a idéia fundamental da teoria. Enquanto a opinião tradicional considerava que o caminho para a ditadura do proletariado passa por um longo período de democracia, a teoria da revolução permanente proclamava que para os países atrasados, o caminho para a democracia passa a ditadura do proletariado. Por conseguinte, a democracia era considerada não como um fim em si, que deveria durar dezenas de anos, mas como o prólogo imediato da revolução socialista, à qual se ligava por vinculo indissolúvel. Desta maneira, tornava-se permanente o desenvolvimento revolucionário que ia da revolução democrática à transformação socialista da sociedade.
Em seu segundo aspecto, a "teoria da revolução permanente" caracteriza a própria revolução socialista. Durante um período, cuja duração é indeterminada, todas as relações sociais se transformam no transcurso de uma luta interior contínua. A sociedade não faz senão mudar de pele, sem cessar. Cada fase de reconstrução decorre diretamente da precedente. Os acontecimentos que se desenrolam guardam, necessariamente, caráter político, dado que assumem a forma de choques entre os diferentes grupos da sociedade em transformação. As explosões da guerra civil e das guerras externas se alternam com os períodos de reformas "pacíficas". As profundas transformações na economia, na técnica, na ciência, na família, nos hábitos e nos costumes, completando-se, formam combinações e relações recíprocas de tal modo complexas que a sociedade não pode chegar a um estado de equilíbrio. Nisso se revela o caráter. permanente da própria revolução socialista.
Em seu terceiro aspecto, a teoria da revolução permanente implica o caráter internacional da revolução socialista que resulta do estado da economia e da estrutura social da humanidade. O internacionalismo não é um princípio abstrato: ele não é senão o reflexo político e teórico do caráter mundial da economia, do -desenvolvimento mundial das forças produtivas e do ímpeto mundial da luta de classes. A revolução socialista começa no âmbito nacional mas nele não pode permanecer. A revolução pro1etária não pode ser mantida em limites nacionais senão sob a forma de um regime transitório, mesmo que este dure muito tempo, como o demonstra o exemplo da União Soviética. No caso de existir uma ditadura proletária isolada, as contradições internas e externas aumentam inevitavelmente e ao mesmo passo que os êxitos. Se o Estado proletário continuar isolado, ele, ao cabo, sucumbirá vítima dessas contradições. Sua salvação reside unicamente na vitória do proletariado dos países avançados. Deste ponto de vista, a revolução nacional não constitui um fim em si, apenas representa um elo da cadeia internacional. A revolução internacional, a despeito de seus recuos e refluxos provisórios, representa um processo permanente.
A campanha dos epígonos é dirigida (sem ter, contudo, sempre o mesmo grau de clareza), contra os três aspectos da teoria da revolução permanente. O que é muito natural, pois se trata de três partes indissoluvelmente ligadas e formando um todo. Os epígonos separam, mecanicamente, a ditadura democrática da ditadura socialista, do mesmo modo que separam a revolução socialista nacional da revolução internacional. Para eles, a conquista do poder nos quadros nacionais representa, na essência, não o ato inicial mas sim o ato final da revolução: em seguida se abre o período de reformas que culmina na sociedade socialista nacional.
Em 1905, nem mesmo admitiam a possibilidade de o proletariado russo conquistar o poder antes de o proletariado da Europa ocidental fazê-lo. Em 1917, eles pregavam a revolução democrática na Rússia como um fim em si e repeliam a idéia da ditadura do proletariado. Em 1925-1927, na China, orientaram-se rumo a uma revolução nacional sob a direção da burguesia. Eles lançaram, em seguida, para a China, a palavra de ordem da ditadura democrática dos operários e camponeses, opondo-se à ditadura do proletariado. Proclamavam ser perfeitamente possível construir na União Soviética uma sociedade socialista isolada, bastando-se a si mesma. A revolução mundial, deixando de ser uma condição indispensável para o triunfo do socialismo, torna-se para eles, apenas, uma circunstância favorável. Os epígonos chegam assim a esta ruptura profunda com o marxismo no curso de sua luta permanente contra a teoria da revolução permanente.
Esta luta, iniciada pela ressurreição artificial de certas reminiscências históricas e pela falsificação do passado longínquo, levou a uma revisão completa das idéias do grupo dirigente da revolução. Já explicamos muitas vezes que esta revisão dos valores foi provocada pelas necessidades sociais da burocracia soviética: tornando-se cada vez mais conservadora, ela aspirava a uma ordem mundial estável; desejava que a revolução terminada, tendo-lhe assegurado uma situação privilegiada, fosse suficiente para a construção pacífica do socialismo e reclamava a consagração desta tese. Não retornaremos mais a esta questão; limitar-nos-emos a acentuar que a burocracia está perfeitamente consciente da ligação que existe entre suas posições materiais e ideológicas e a teoria do socialismo nacional. É precisamente agora que isto se torna bem mais claro, talvez porque o aparelho estalinista, assaltado por contradições que não havia previsto, se desloca cada vez mais para a esquerda e desfere golpes sensíveis em seus inspiradores de ontem, pertencentes à direita. Como se sabe, a hostilidade dos burocratas com respeito à oposição marxista, da qual tomaram emprestadas, apressadamente, as palavras de ordem e os argumentos, não se abrandou nem um pouco. Quando os oposicionistas, querendo dar apoio à política de industrialização, suscitam a questão de sua reintegração no partido, se lhes pede, antes de tudo, renegar a teoria da revolução permanente e reconhecer, mesmo por via indireta, a teoria do socialismo num só país. Com isso, a burocracia estalinista põe à mostra o caráter puramente tático de sua reviravolta à esquerda, deixando contudo íntegras as bases estratégicas de seu nacional-reformismo. A importância deste fato é evidente: em política, como na guerra, a tática, ao final de contas, se subordina à estratégia.
A questão de que tratamos já ultrapassou, há muito tempo, os quadros da luta contra o "trotskismo". Estendendo-se cada vez mais, envolve, agora, literalmente, todos os problemas da ideologia revolucionária. Revolução permanente ou socialismo num só país. eis a alternativa em que se encontram os problemas internos da União Soviética, as perspectivas das revoluções no Oriente e, finalmente, a sorte de toda a Internacional Comunista(7).
Esta obra não trata da questão sob todos os seus diferentes aspectos, pois não é necessário repetir o que já ficou dito nos outros trabalhos do autor. Procurei demonstrar, do ponto de vista teórico, a falência econômica e política do nacional-socialismo em minha Critica do Programa da Internacional Comunista. Os teóricos da Internacional Comunista não disseram uma só palavra a respeito. Era, aliás, a única coisa que lhes restava fazer. No presente livro, reconstituo, antes de mais nada, a teoria da revolução permanente, tal como foi formulada em 1905, tendo em vista os problemas internos da revolução russa. Mostro, em seguida, em que diferia da de Lênin a minha maneira de colocar a questão, e como e por que coincidiu com a sua nos momentos decisivos. Trato, finalmente, de demonstrar a importância decisiva que tem o problema de que nos ocupamos para o proletariado dos países atrasados e, por conseguinte, para toda a Internacional Comunista.
Que acusações formularam os epígonos contra a teoria da revolução permanente? Deixando de lado as inúmeras contradições de meus críticos, chegamos a tirar, de sua enorme produção literária, os pontos essenciais seguintes:
1. Trotsky desconhecia a diferença entre a revolução burguesa e a revolução socialista. Ainda em 1905, acreditava que o proletariado russo tivesse diante de si, como tarefa imediata, a revolução socialista;
2. Trotsky esquecia completamente o problema agrário. Para ele, o camponês não existia. Imaginava a revolução como um duelo entre o proletariado e o czarismo;
3. Trotsky não acreditava que a burguesia mundial tolerasse a existência um tanto prolongada da ditadura do proletariado russo, cuja queda considerava inevitável no caso de o proletariado do Ocidente não conseguir conquistar o poder, no mais breve prazo, para prestar-nos o seu apoio. Trotsky subestimava, assim, a pressão que o proletariado do Ocidente podia exercer sobre a sua burguesia;
4. Trotsky, de modo geral, não tem confiança nas forças. do proletariado russo, Julgando-o incapaz de construir o socialismo com seus próprios recursos fundava, por conseguinte, e continua a fundar todas as suas esperanças na revolução internacional.
Essas acusações se repetem através dos inúmeros escritos e discursos de Zinoviev, Stalin, Bukhárin e outros; chegam mesmo a ser formuladas nas resoluções mais importantes do Partido Comunista russo e da Internacional Comunista. Mas, apesar disso, somos obrigados a constatar que o seu único fundamento é a ignorância aliada à má fé.
Como vou demonstrar mais adiante, as duas primeiras afirmações dos críticos são fundamentalmente falsas. Eu partia do caráter burguês e democrático da revolução russa e chegava à conclusão de que, a própria acuidade da crise agrária poderia levar ao poder o proletariado da Rússia atrasada. Era precisamente essa idéia que eu defendia nas vésperas da revolução de 1905. Era essa a idéia encerrada na denominação de revolução permanente, isto é, ininterrupta, passando imediatamente da fase burguesa à fase socialista. Para exprimir a mesma idéia Lênin adotou mais tarde a excelente expressão de transcrescimento da revolução burguesa em revolução socialista. Stalin, considerando a revolução permanente como um salto único do reino da autocracia para o reino do socialismo, opôs-lhe em 1924, antedatando-a, essa idéia de transcrescimento. O infortunado "teórico" nem mesmo se deu ao trabalho de refletir sobre o que poderia significar a permanência, isto é, a continuidade ininterrupta da revolução, se se tratasse de um salto Único?
Quanto à terceira acusação, foi ela ditada pela esperança, de curta duração, que os epígonos fundavam na possibilidade de neutralizar a burguesia imperialista por um tempo ilimitado, mediante a pressão "sabiamente" organizada do proletariado. Foi essa a idéia central de Stalin, de 1924 a 1927. O Comitê Anglo-Russo foi o seu resultado. Decepcionados em sua esperança de poder amarrar a burguesia mundial com a ajuda de aliados como Purcell, Raditch, Lafollette e Chang-Cai-Chec, os epígonos tomaram-se de pânico diante do perigo de uma guerra iminente. A Internacional Comunista atravessa, ainda hoje, esse período.
O quarto argumento contra a teoria da revolução permanente reduz-se, muito simplesmente, à constatação de que, em 1905, eu não era partidário da teoria do socialismo num só país, que Stalin só fabricou, para uso da burocracia soviética, em 1924. Essa acusação é uma verdadeira farsa histórica. A dar-lhes ouvidos, seria preciso acreditar que os meus adversários - se é que, em 1905, eram eles capazes de reflexões políticas - pensassem, nessa época, que a Rússia estava madura para uma revolução socialista independente. Na realidade, no curso dos anos de 1905-1917, não cessaram de me acusar de utopismo, porque eu admitia a possibilidade da tomada do poder pelo proletariado russo antes do proletariado da Europa ocidental. Em abril de 1917 Kaménev e Rykov acusaram Lênin de utopisrno e lhe ensinaram, sob uma forma popular, que a revolução socialista devia realizar-se, primeiro, na Inglaterra e em outros países adiantados, e que a vez da Rússia só viria mais tarde. Até 4 de abril de 1917, Stalin teve também esse ponto de vista. Foi só com muita dificuldade e gradualmente que ele assimilou a fórmula de Lênin que opunha a ditadura do proletariado à ditadura democrática. Na primavera de 1924, Stalin ainda repetia, com os demais, que a Rússia, considerada isoladamente, não estava madura para a edificação de uma sociedade socialista. Mas, já no outono do mesmo ano, no curso de sua luta contra a teoria da resolução permanente, Stalin descobriu, pela primeira vez, que era possível construir o socialismo isolado na Rússia. Depois disso, os professores vermelhos fizeram, para o seu uso, uma coletânea de citações destinadas a provar que, em 1905, Trotsky afirmava - que horror! - que a Rússia não podia chegar ao socialismo sem o auxílio do proletariado ocidental.
Mesmo pegando a história de todas as lutas ideológicas travadas no período de um quarto de século, picando-a com uma tesoura, pisando depois os pedacinhos num pilão, e encarregando, em seguida, um cego de os colar novamente, ainda assim, talvez não se conseguisse obter uma mixórdia teórica e política tão monstruosa como a que os epígonos oferecem aos seus leitores e ouvintes.
Para demonstrar mais claramente a ligação existente entre os problemas de ontem e os de hoje, somos obrigados a recordar aqui, embora sucintamente, o que os dirigentes da Internacional Comunista, isto é, Stalin e Bukhárin, fizeram na China.
Em 1924 reconheceu-se o papel dirigente da burguesia chinesa, sob o pretexto de que a China estava em vésperas de uma revolução Libertadora nacional. O partido da burguesia nacional, o Cuomintang(8), foi, então oficialmente reconhecido como partido dirigente. Os próprios mencheviques russos, em 1905, não ousaram fazer tais concessões ao Partido Constitucional Democrático (os "cadetes"), que era o partido da burguesia nacional.
Mas, os dirigentes da Internacional Comunista foram além. Forçaram o Partido Comunista chinês a fazer parte do Cuomintang e a se submeter à sua disciplina. Telegramas especiais de Stalin recomendaram que os comunistas chineses contivessem o movimento agrário. Proibiu-se que os operários e os camponeses revolucionários criassem Sovietes, por medo de criar suspeitas em Chang-Cai-Chec, defendido por Stalin, contra a Oposição, ainda no começo de abril de 1927, poucos dias antes do golpe de Estado de Xangai, e por ele proclamado "aliado fiel" numa reunião do Partido em Moscou.
A subordinação oficial do Partido Comunista à direção burguesa e a interdição oficial de criar Sovietes (Stalin e Bukhárin ensinaram que o Cuomintang "substituía" os Sovietes) constituem uma traição muito mais chocante e mais grosseira ao marxismo do que toda a atividade dos mencheviques de 1905 a 1917.
Em abril de 1927, depois do golpe de Estado de Chang-Cai-Chec, uma ala esquerda liderada por Vang-Tin-Vei, desligou-se provisoriamente do Cuomintang, O Pravda não deixou de proclamar imediatamente que Vang-Tin-Vei era um "aliado fiel". Na realidade, Vang-Tin-Vei representava, em relação a Chang-Cai-Chec, a mesma coisa que Kerensky(9) em relação a Miliukov, com a diferença de que, na China, Miliukov(10) e Kornilov(11) estavam reunidos na mesma pessoa de Chang-Cai-Chec.
Em lugar de preparar a guerra aberta contra esse Kerensky chinês, ordenou-se que o Partido Comunista chinês, depois de abril de 1927, entrasse no Cuomintang de "esquerda" e se submetesse à disciplina de Vang-Tin-Vei. Esse amigo "fiel" destruiu o Partido Comunista e, ao mesmo tempo, o movimento operário e camponês, nada ficando a dever aos processos do bandido Chang-Cai-Chec, proclamado aliado fiel por Stalin.
Ainda que em 1905 e mais tarde, sustentassem Miliukov, os mencheviques não chegaram a entrar no partido liberal. Embora aliados de Kerensky em 1917, conservaram, no entanto, a sua própria organização. A política de Stalin na China não passou,~pois~. de má caricatura do próprio menchevismo. Tal foi o primeiro e mais importante período da revolução chinesa.
Quando, depois, as conseqüências dessa política - deperecimento completo do movimento operário e camponês, desmoralização e ruína do Partido Comunista - se tornaram muito evidentes os dirigentes da Internacional Comunista lançaram uma nova ordem:
"Meia-volta à esquerda!" e exigiram. a revolta armada imediata dos operários e camponeses. Foi assim que o jovem Partido Comunista, já meio esmagado e estropiado, tendo sido, havia pouco, apenas a quinta roda do carro de Chang-Cai-Chec e de Vang-Tin-Vei, e, por conseguinte, sem experiência política, recebeu a ordem inesperada de conduzir os operários e os camponeses, até então retidos pela Internacional Comunista sob a bandeira do Cuomintang, à ofensiva contra esse mesmo Cuomintang que tivera todo o tempo necessário para concentrar em suas mãos o poder e o exército. No espaço de vinte e quatro horas, um Soviete fictício foi improvisado em Cantão. Essa insurreição armada foi preparada, de antemão, de maneira a coincidir com a abertura do XV Congresso do Partido Comunista da União Soviética: e foi não só a prova do heroísmo da vanguarda dos operários chineses, como o testemunho dos erros criminosos dos dirigentes da Internacional Comunista. A insurreição de Cantão foi precedida e seguida de outras aventuras menos importantes. Tal foi o segundo capítulo da estratégia chinesa da Internacional Comunista, estratégia que se poderia definir como má caricatura do bolchevismo.
Nessas duas finalidades, de liberal-oportunismo e de espírito de aventura, foi desfechado um golpe no Partido Comunista chinês, do qual só poderá refazer-se depois de uma série de anos e, ainda assim, se realizar uma política justa.
Cabia ao VI Congresso da internacional Comunista fazer o balanço de toda essa atividade; ele aprovou-a inteiramente, o que é muito compreensível: só fora convocado para isso. E, para o futuro, lançou a fórmula de "ditadura democrática dos operários e dos camponeses". Nunca explicaram, porém, aos comunistas chineses, que diferença poderia existir entre essa ditadura e a do Cuomintang de direita ou de esquerda, de um lado, e a ditadura do proletariado, de outro lado. É verdade que isso continua inexplicável.
Ao mesmo tempo que lançou a palavra de ordem de ditadura democrática, o VI Congresso declarou inadmissíveis palavras de ordem democráticas como a Assembléia Constituinte, o sufrágio universal, a liberdade de imprensa e de reunião etc., deixando o Partido Comunista chinês completamente desarmado diante da ditadura da oligarquia militar. No entanto durante longos anos, os bolcheviques russos mobilizaram os operários e os camponeses em torno dessas pa1avras de ordem democráticas, que desempenharam, em 1917, um papel imenso. Só mais tarde, quando o poder soviético, já sendo uma realidade, entrou em colisão política violenta com a Assembléia Constituinte, aos olhos de todo o povo, é que o nosso partido suprimiu as instituições e palavras de ordem da democracia formal ou burguesa, em proveito da democracia real, soviética ou proletária.
O VI Congresso da Internacional Comunista baralhou tudo isso. Continuando a impor ao partido chinês a palavra de ordem de ditadura "democrática," em lugar da ditadura "proletária", proibiu-lhe, ao mesmo tempo, o uso das palavras de ordem democráticas que servem para preparar essa ditadura. O partido chinês se viu, assim, não só desarmado, mas completamente desprevenido.
Como consolo, permitiu-se, finalmente, que ele lançasse, no momento do domínio absoluto da contra-revolução, essa mesma palavra de ordem de "Sovietes" que lhe fora proibida quando se desenvolvia o movimento revolucionário. O herói de um conto popular russo entoa alegres canções nupciais nos enterros e cantos fúnebres nas festas de casamento: em ambos os casos sai sempre apanhando. Se quem apanhasse fossem apenas os estrategistas que dirigem atualmente a Internacional Comunista, a coisa não teria muita gravidade. O que está em jogo é, porém, cousa muito maior: trata-se nada menos que da sorte do proletariado. A tática da Internacional Comunista não foi outra coisa senão uma sabotagem inconsciente, mas bem organizada, da revolução chinesa. E isso se realizou de forma tanto mais segura quanto a Internacional Comunista cobriu, de 1924 a 1927, toda a sua política menchevique de direita, com a autoridade do bolchevismo, enquanto o poder soviético, por meio do seu poderoso mecanismo de represália, a defendia contra as críticas da Oposição de Esquerda.
Temos, afinal de contas, diante de nós, uma perfeita experiência da estratégia de Stalin, desenvolvida, do princípio ao fim, sob o signo da luta contra a teoria da revolução permanente. É muito natural, portanto, que o principal teórico de Stalin, encarregado de defender a submissão do Partido Comunista chinês ao Cuomintang nacional-burguês, tenha sido Martinov, que foi também o principal crítico menchevique da teoria da revolução permanente, durante o período de 1905 a 1923: a partir desse último ano, continuou ele a cumprir sua missão histórica, mas, já então, nas fileiras bolcheviques!(12)
Sobre a origem desta obra, encontra-se o essencial no primeiro capítulo.
Em Alma-Ata, começara eu a preparar um livro teórico e polêmico contra os epígonos. Grande parte desse livro devia ser consagrada à teoria da revolução permanente. No curso do meu trabalho, recebi de Rádek, sobre o mesmo assunto, um manuscrito onde ele opunha a "revolução permanente" à linha estratégica de Lênin. Rádek precisava dessa saída, à primeira vista surpreendente, pela simples razão de que também se achava completamente atolado na política chinesa de Stalin: não só antes, como depois do golpe de Estado de Chang-Cai-Chec, Rádek, do mesmo modo que Zinoviev, invocava a necessidade da submissão do Partido Comunista chinês ao Cuomintang. Para justificar essa sujeição do proletariado à burguesia, apelava Rádek - nem era preciso dizer - pai-a a necessidade de união com os camponeses, e me censurava por ter "subestimado" essa necessidade. Seguindo o exemplo de Stalin, servia-se ele da terminologia bolchevique para defender uma política menchevique, procurando ocultar, com a fórmula da ditadura do proletariado e dos camponeses, o fato de que o proletariado chinês estava sendo desviado da luta pelo poder, luta que devia travar à frente das massas camponesas. Quando eu desmascarei toda essa mistificação de idéias, Rádek(13) experimentou a violenta necessidade de demonstrar que a minha luta contra o oportunismo disfarçado com citações de Lênin resultava, muito simplesmente, da contradição existente entre a teoria da revolução permanente e o leninismo. E transformou a defesa dos seus próprios pecados num libelo de promotor público contra a revolução permanente. Essa intervenção serviu-lhe para preparar o caminho da própria capitulação. Desconfiei disso tanto mais que nos anos precedentes, ele mesmo se propusera escrever uma brochura para defender a teoria da revolução permanente. No entanto, abstive-me ainda de considerar Rádek um homem perdido. Procurei, então, responder ao seu artigo de uma maneira nítida e categórica, mas deixando-lhe o caminho livre para a retirada. Publico, mais adiante, minha resposta a Rádek, tal como foi redigida na época, acrescentando apenas algumas notas explicativas e correções de estilo.
O artigo de Rádek não foi publicado e duvido muito que ainda o seja um dia, porque, sob a sua forma de 1928, não poderia passar pela peneira da censura de Stalin. Tal publicação seria, hoje, aliás, mortal para Rádek, pois daria um quadro muito expressivo de sua evolução ideológica, que lembra muito a "evolução" de um homem que se precipita de um sexto andar ao chão.
O ponto de partida deste livro explica por que Rádek ocupa aí um lugar mais importante do que o que teria direito a pretender. Rádek não pôde inventar um só argumento novo contra a teoria da revolução permanente. Sua atitude é a de um epígono dos epígonos. Recomendamos, pois, que o leitor veja em Rádek, não apenas Rádek, mas o representante de uma espécie de firma coletiva, à qual ele se associou, com direitos limitados, ao preço de sua renúncia ao marxismo. Se Rádek achar, todavia, que é muito elevada a quantidade de cascudos com que o mimoseio, poderá distribuí-los, à vontade, entre os que mais os merecem. 12 um negócio interno da firma. Quanto a mim, não vejo inconveniente nisso.
Vários grupos do Partido Comunista alemão chegaram ao poder(14) ou por ele lutaram, demonstrando sua capacidade de dirigir por meio de exercícios críticos sobre a revolução permanente. Mas, toda essa literatura, cujos autores são Máslov(15), Talheimer(16) e outros, desceu a um nível tão lamentável que não vale o trabalho de uma réplica crítica. Os Thaelmann(17), os Remmele e outros caudilhos ultimamente nomeados estão ainda mais baixo. A única coisa que tais críticos puderam demonstrar é que nem sequer transpuseram o umbral do problema. Deixo-os, por isso... no umbral. Quem for capaz de se interessar pela crítica teórica de Máslov, Talheimer e outros, que recorra, depois de ler este livro, aos escritos dos autores mencionados, para se convencer, então, de sua ignorância e falta de escrúpulos. Esse resultado será, por assim dizer, um produto acessório do trabalho que oferecemos ao leitor.

Prínkipo, 30 de Novembro de 1929
L. TROTSKY