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sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Trotski Acusado de Ter Infringido a Disciplina do Partido

Discursos pronunciados na sessão da Comissão Central de ControleJunho de 1927

A eliminação de Trotski das suas funções directivas tinha sido preparada com premeditação desde a primeira doença de Lenine, isto é, desde 1922. Os trabalhos preparatórios prosseguiram durante o ano seguinte e polo fim do ano a campanha estalou publicamente. A direcção dela foi assumida polo triunvirato (Estaline, Zinoviev, Kamenev). No entanto, esse triunvirato desagregou-se em 1925. Zinoviev e Kamenev caíram eles próprias vítimas das manobras do aparelho que forjaram contra Trotski. A partir desse momento a tarefa da fracção de Estaline consistira em proceder a uma modificação completa dos homens colocados na direcção do Partido, afastando de cargos que ocupavam os que tinham dirigido o Partido e o Estado em vida de Lenine. Em Julho de 1926, Trotski leu perante a assembléia plenária do Comitê Central e da Comissão Central de Controle, uma declaração que prediz com toda exatidão as medidas que viria a adoptar a fracção de Estaline para substituir por uma direcção estalinista a direcção leninista. Os estalinistas puseram em prática esse programa nos anos seguintes com uma pontualidade verdadeiramente surpreendente.
A principal etapa neste caminho foi a comparência de Trotski perante o tribunal do Presidium da Comissão Central de Controle sob uma dupla acusação: 1.º, de ter pronunciado discursos «fraccionais» na sessão do Comitê Executivo da Internacional Comunista; 2.º, de ter tomado parte nas manifestações de simpatia a favor de Smilga, membro do Comitê Central, enviado algum tempo antes para Khabarovsk, na Sibéria oriental, como correctivo da sua atitude oposicionista. Zinoviev viu-se também acusado de crimes análogos. A sanção acordada foi a da sua destituição do Comitê Central.
Encontram-se abaixo os dous discursos que pronunciou o autor deste livro perante o Presidium da Comissão Central de Controle, que desempenhava as funções de Tribunal de Justiça. O autor fez cortes no estenograma relativos às questões que o leitor estrangeiro não poderia compreender sem explicações detalhadas. Quanto ao resto, salvo ligeiras correcções de estilo, os discursos são publicados tal como foram pronunciados.
Primeiro discurso
Trotski — Antes de abordar a minha defesa, ou a minha acusação — pois não sei como lhe chamar — vejo-me obrigado a pedir que seja eliminado deste tribunal o camarada Jansson, a quem recuso devido à sua atitude anterior. Todos estão ao corrente, sem dúvida, da existência, a partir de 1924, dum «Comitê dos sete», composto por todos os membros do Buró político, com excepção de eu próprio. O meu posto era ocupado polo vosso ex-presidente Kuibtichev que, dadas as suas funções, deveria ter sido o principal guardião dos estatutos e dos sãos costumes do Partido, mas que realmente foi o primeiro a violá-los e a desnaturá-los. Este «Comitê dos sete» foi uma instituição ilegal e contrária ao Partido, que dispunha dos destinos deste último contra a sua vontade. Num discurso que pronunciou numa das sessões do Comitê Central, o camarada Zinoviev designou Jansson como um dos que participaram no trabalho, contrário ao Partido, do «Comitê dos sete». Ninguém opôs qualquer desmentido a esta declaração. O próprio Jansson não reagiu. Ainda que outros sejam igualmente culpados do mesmo crime, respeito a Jansson existem provas que constam em acta. Jansson dispõe-se hoje a julgar-me pola minha atitude contrária ao Partido. Exijo de vós que seja recusado Jansson como juiz.
O presidente Ordjonikidzé — Isso não é possível. Está você de brincadeira, camarada Trotski?
Trotski — Não tenho o costume de gracejar quando se trata de questões graves e importantes. Compreendo muito bem que a minha proposta tenha colocado o Presidium numa situação um tanto difícil, pois muito receio que haja outros no Presidium que tenham participado no trabalho dos «sete». Seja como for, a minha proposta não é uma brincadeira. Em verdade, se estas reuniões tinham aparentemente por objecto «fixar a ordem do dia» do Buró político, eu, apesar de ser membro desse organismo, tudo ignorava dessas reuniões. Ora, foi no decorrer duma dessas reuniões que se adoptaram medidas de luita contra mim. Os membros do Buró adoptaram num juntoiro a decisão de renunciar as polémicas entre si, para arremeter unicamente contra Trotski. O Partido ignorava isso e eu também. E assim aconteceu durante muito tempo. Eu nunca disse que o camarada Ordjonikidzé fosse membro desse Comitê fraccional; disse simplesmente que participava no seu trabalho.
Ordjonikidzé — Se quadra, Jansson; mas não Ordjonikidzé; está você enganado.
Trotski — Disso peço desculpa, ainda que esse erro me pareça de pura forma. Falei, com efeito, de Jansson. E eu nom disse que o camarada Jansson fazia parte do próprio Comitê; disse que ele participava nos trabalhos desse Comitê fraccional que, embora não previsto polos estatutos do Partido, trabalhava contra os estatutos e contra a vontade do Partido. De contrário, não teria por que se encobrir. Se se encontram aqui outros camaradas que, como Jansson, tenham participado nos trabalhos desse Comitê, peço igualmente que a recusa lhes seja extensiva.
(O Presidium rejeita imediatamente a exclusão de Jansson.)
Trotski — Há camaradas que pretendem necessário eliminar-nos do Comitê Central devido à manifestação da estação de caminho de ferro de Iaroslav, do discurso de Zinoviev difundido pola rádio e da minha «atitude» no Comitê Executivo da Internacional Comunista. Tudo isso convenceria se não existisse a declaração que nós, a oposição, entregamos ao Comitê Central, desde o princípio de Junho do ano passado. Nela predissemos, muito clara e exactamente, o caminho que seguiria a luita que dirigis contra nós; tínhamos predito que utilizareis todas as armadilhas para realizar o programa de reorganização da direcção ideológica que fixou desde há muito tempo o vosso chefe fraccional, bastante antes da sessão de Junho do Comitê Central e do XIV Congresso do Partido.
São formuladas contra mim duas acusações. A primeira liga-se à minha intervenção no Comitê Executivo da Internacional Comunista. Considerei e ainda considero que a Comissão Central de Controle não pode em caso nenhum julgar-me polas minhas intervenções no Comitê Executivo da Internacional Comunista. Se o camarada Jansson continua a não o compreender, deve seriamente reler os estatutos da Internacional e do nosso Partido. Desse jeito verá que tenho razão, como teria razão em negar a uma Comissão de Controle provincial o direito de me pedir contas duma intervenção que teria feito na qualidade de membro do Comitê Central.
A segunda acusação relaciona-se com as manifestações de simpatia que houve na estação de Iaroslav a favor de Smilga. Desterrastes Smilga para Khabarovsk. Peço mais uma vez que queiram pôr-se de acordo quanto a uma explicação qualquer a dar a este desterro. Schkiriatov disse na Comissão Central de Controle: «Também se pode trabalhar em Khabarovsk!» Se fosse enviado Smilga em condições normais para Khabarovsk, para aí trabalhar, não viríeis dizer agora que o facto de tê-lo acompanhado à estação era uma demonstração contra o Comitê Central. E se se tratar do desterro administrativo dum camarada, cuja presença é necessária em postos responsáveis, quer dizer, em postos soviéticos de combate, então estão a enganar o Partido e fazem um duplo jogo. Sustentarão ainda que o envio de Smilga para Khabarovsk corresponde a uma missão que lhe teria sido confiada segundo o procedimento normal? E acusar-nos-ei, ao mesmo tempo, de ter organizado uma demonstração contra o Comitê Central? Esta política é de fundo duplo.
Mas, destas trapalhadas na acusação, passo de imediato aos problemas políticos essenciais.
Os perigos de guerra
Na declaração que entregamos nos mês de Julho do ano passado, dizíamos: «Uma das primeiras condições para a defesa da União Soviética e, por conseqüência, para a manutenção da paz, consiste em unir num elo indissolúvel o Exército Vermelho, cada vez mais forte e sempre crescente, às massas laboriosas do nosso país e do mundo inteiro. Todas as medidas económicas, políticas e culturais que acrescentem o papel da classe obreira no Estado, consolidam o elo que a une aos operários agrícolas, aos pobres do campo, assim como aos camponeses médios, e assim aumentam também a força do Exército Vermelho, asseguram a inviolabilidade do país dos Sovietes e fortalecem a causa da paz».
A prova disso é que, há um ano, nós convidávamos-vos a examinar os perigos de guerra e os perigos no interior da URSS em tempo de guerra. Não se trata de questões especiais, mas de questões inerentes à nossa política de classe. Quando o chefe oficial do Estado, o presidente do Comitê Central Executivo, Kalinine, pronuncia em Tvers um discurso em que declara que temos necessidade de soldados fortes e robustos, mas que o soldado forte e robusto só pode ser um camponês médio, abastado que os lavradores pobres não podem fornecer tais soldados porque entre eles abundam os enfermiços, não significará isso uma opção evidente, apostando no labrego médio abastado sob cuja designação se insinua o nome de kulak ou candidato a kulak? Kalinine esquece que fizemos a Revolução de Outubro e que os miseráveis e os enfermiços venceram os fortes e robustos. Porquê aconteceu isso? Porque os primeiros eram e são ainda os numerosos. Que importa, direis vós, o que poda ter declarado o humilde Miguel Ivanovitch! Mas acaso o chamaram à ordem? Não, não o fizeram, enquanto que somos chamados à ordem nós quando julgamos necessário criticar a sua política que humilha o camponês pobre e fortalece o kulak, esse kulak que Iakovlev, aqui presente, dissimula através de truques de estatística. Se alguém deve ser julgado aqui é Iakovlev; no entanto é ele que se dispõe a julgar-nos.
Hoje especulais com o perigo de guerra para atacar a oposição e preparar o seu esmagamento. Julgai por vós mesmos: de todos os problemas tratados no Comitê Executivo da Internacional, durante os quais examinamos os perigos de guerra, o movimento obreiro inglês e mais particularmente o problema da Revolução chinesa, não tendes publicado, para esclarecimento do Partido, mais do que um só folheto contra a oposição, não sem ter ainda — como dizer? — eliminado o resumo estenografado do meu discurso, sob o pretexto de não o ter ainda «relido». Isso quer dizer que o perigo de guerra é explorado ante todas as cousas e, sobretudo, contra nós.
Declaramos que estamos dispostos a criticar o regime estalinista enquanto não formos amordaçados por violência física. Por tanto tempo isso não aconteça, criticaremos este regime que traz em si a ruína de todas as conquistas da Revolução de Outubro. Já nos tempos do czarismo havia patriotas que confundiam a Pátria com as autoridades. Nós não pertencemos a essa espécie. Criticaremos o regime estalinista como um regime de incapacidade, um regime de desvios, de fraqueza ideológica, de vistas curtas e sem perspicácia alguma.
Apelamos para a vossa consciência a respeito do Comitê Anglo-Russo(1*) durante um ano. Dissemos-vos que esse Comitê destrói a formação dum movimento revolucionário no proletariado inglês. E vós lançais na balança toda a vossa autoridade, a experiência bolchevique acumulada, a autoridade de Lenine, para apoiar Purcell. Vós dizeis: «Mas nós criticamo-lo!» Esta aí um desvio, uma nova forma de apoiar o oportunismo. «Criticam-no» — cada vez mais debilmente, com menos freqüência — e mantêm-se ligação com ele. Purcell poderá dizer a estes revolucionários, a estes bolcheviques, quando o qualificam como agente de Chamberlain: «reparai, é o mesmo Tomski, membro do Buró político, presidente da Central dos Sindicatos Russos, quem enviou dinheiro aos grevistas ingleses; talvez me critique, mas caminha comigo de mãos dadas. Como vos atreveis então a apelidar-me de agente do imperialismo?» Terá ou não razão Purcell de lhes dar esta resposta? Por uma táctica complicada, pusestes todo o mecanismo do bolchevismo ao serviço de Purcell. Acusamos-vos disso e esta acusação é mais grave e bastante mais séria, do que a de ter acompanhado Smilga à estação de Iaroslav. Que fizeram do bolchevismo? Que fizeram da sua autoridade, da experiência, da teoria de Marx e de Lenine? Que fizeram de tudo isso nalguns anos? Dissestes aos obreiros de todo o mundo, e em primeiro lugar aos nossos operários moscovitas que, em caso de guerra o Comitê Anglo-Russo seria o eixo de organização da luita contra o imperialismo. E nos dissemos e continuamos a dizer que em caso de guerra o Comitê Anglo-Russo será abrigo seguro para todos os desertores da raça dos falsos amigos, para todos os tránsfugas que hão-de passar para o campo dos inimigos da União Soviética. Thomas apóia abertamente Chamberlain. Mas Purcell apóia Thomas e é isso o essencial. Thomas mantém-se graças ao apoio do capital. Purcell mantém-se graças ao engano das massas e, ao mesmo tempo, apóia Thomas. Ora, vós apoiais Purcell. É em vós próprios, no vosso flanco direito, que existe uma cadeia que vai até Chamberlain. Sois vós que estais no mesmo lado que Purcell, o qual apóia Thomas e, com ele, Chamberlain. Eis o que ressalta duma análise política e não duma trapalhada!
Nas reuniões, e sobretudo, nas células obreiras e lavradoras, contam-se infindas histórias sobre a oposição e pergunta-se com que «recursos» leva a cabo o seu «trabalho» a oposição; alguns obreiros, talvez ignorantes, talvez inconscientes, talvez arrastados ainda por vós, fazem estas perguntas reaccionárias. E há oradores assaz cobardes para responder a estas perguntas de maneira evasiva.
Se fossem verdadeiramente uma Comissão Central de Controle o vosso dever seria pôr termo a esta campanha imunda, miserável, repugnante, numa palavra: estalinista
Nós não nos ocupamos com chafulhadas; fazemos uma franca declaração política: Chamberlain e Thomas alinham na mesma frente e Purcell apoia-os; sem o seu apoio não são nada; apoiando Purcell enfraqueceis a URSS e reforçais o imperialismo. Eis uma honrada declaração política! Vós próprios tendes que saber hoje mesmo toda a sua importância.
Se se receia, como dizeis, um perigo de guerra entregariai-vos, no próprio seio do Partido, a esta louca repressão que não cessa de se agravar? Perseguiríeis, neste momento, militantes destacados, afastá-los do trabalho militar só porque, apesar de prontos e aptos para luitar pola pátria socialista, consideram a actual política do Comitê Central como falsa e funesta? Tendes muitos trabalhadores militares como Smilga, Mratchkovski, Lachevitch, Bakaïev? Ouvi dizer que vos preparais para destituir Muralov das suas funções na Inspecção Militar sob o pretexto de que teria assinado a declaração dos 83. Ides ao passo com Purcell e outros «luitadores contra a guerra» da mesma bitola, mas quereis destituir Muralov das suas funções na Inspecção Militar! (escândalo na sala):
Uma voz — Quem lhe deu essa informação?
Trotski — Ninguém me informou, mas sei que se fala cada vez mais insistentemente disso.
Ordjonikidzé — Vai um bocado depressa!
Trotski — Acaba você de dizer algo que é exacto: falo, com efeito, quarenta e oito horas mais cedo, duma cousa que fareis em breve(2*) tal como no ano passado, em Julho, tínhamos traçado previamente todo o processo da vossa luita contra nós.
Agora se trata duma nova etapa.
E os auditores da Academia Militar e da Academia de Aviação? São perseguidos pola sua atitude oposicionista os melhores de entre eles. Teve algum tempo para reunir algumas breves notas biográficas sobre os quatro auditores que tendes expulsado nestes dias, quando estavam a terminar os seus estudos. A primeira biografia é a de Okhotnikov, a segunda é a de Kuzmitchev, a terceira é a de Broïdta, a quarta é a de Capel.
Eis a primeira. Okhotnikov nasceu em 1897. Seu pai e mais a sua mãe eram lavradores da Bessarabia; não possuíam terras de seu, trabalhavam nas do proprietário fundiário. Instrução primária. Até 1905 trabalha com seu pai, sendo também contratado às vezes como cocheiro. A partir de 1915 serve no exército czarista. Ao estalar a Revolução de Fevereiro está em Ekaterinoslav; o 26.º regimento de artilharia elege-o para o Soviete dos deputados soldados; em Maio é enviado, «dado o seu espírito bolchevique» para a frente do 4.º exército aonde entra no Comitê da Divisão e da 17.ª brigada. Ferido em combate, estava no hospital quando da Revolução de Outubro. Depois de sair do hospital, em Dezembro de 1917, organiza imediatamente um corpo de revolucionários e luita contra o exército romeno de ocupação, trabalha sob a direcção do Partido Bolchevique e, em 1918, adere à organização ilegal de Bessarabia. É designado presidente do Comitê Revolucionário ilegal do distrito de Telets e comandante dum corpo de exército. Julgado duas vezes, devido à sua acção, por um conselho de guerra romeno, é condenado à morte, mas finalmente consegue evadir-se. Em 1919 chega à Ucrânia, com um grupo de revolucionários e entra na 45.ª divisão vermelha. Ocupa vários postos de comando. Passa toda a guerra na frente e, terminada esta, toma parte várias vezes na luita contra os bandidos brancos. Ingressa na Academia Militar em 1924. Faltando-lhe instrução geral é colocado, ao princípio, no curso preparatório. Passa do primeiro para o segundo grau do curso com a menção «Bom». No Partido é atingido por uma sanção, pola primeira vez, em Fevereiro de 1927, polas suas idéias oposicionistas. Agora é afastado da Academia «por ter acompanhado Smilga».
Conheço, além disso, quatro biografias deste género que, no seu conjunto, diferenciam-se bem pouco umas das outras. Trata-se de soldados da Revolução, de soldados do Partido, que receberam ferimentos e diplomas do Comitê Central Executivo, que foram condecorados com a Ordem da Bandeira Vermelha, de revolucionários de têmpera que permanecerão fiéis a Outubro, que lotarão até o fim por Outubro e são por vós expulsos das Academias Militares! É assim que se prepara a defesa militar da Revolução?
Somos acusados, como bem sabeis, de pessimismo e cepticismo(3*). Qual a origem desta acusação de «pessimismo»? Esta vil, esta parva expressão foi lançada, ao que parece, por Estaline. Para seguir contra a corrente, como o fazemos nós, é preciso, no entanto, um pouco mais de fé na Revolução Internacional do que a que tendes muitos de vós. De onde vem esta acusação de «cepticismo»? Da famosa teoria da construcção do socialismo num só país. Nós não temos fé nesta teoria de Estaline.
ZinovievOrdjonikidzé dizia-me em 1925: «Escreve contra Estaline».
Trotski — Não temos tido fé nesta descoberta, que tende a desnaturar radicalmente Marx e Lenine. Não temos tido fé em semelhante descoberta e, por isso é que somos pessimistas e cépticos.
Sabem quem foi o precursor do «optimista» Estaline? Trouxe comigo um importante documento que vos entregarei se assim o desejardes. Trata-se dum artigo de Volmar, social-patriota alemão, escrito em 1879. Este artigo intitula-se: «O Estado socialista isolado». Precisava-se de traduzi-lo e enviar a todos os membros do Comitê Central e da Comissão de Controle, como de resto a todos os membros do Partido.
O social-democrata alemão Volmar defendia a teoria do socialismo nacional em 1879, enquanto o seu imitador Estaline só começou a fabricar a sua «original» teoria em 1924. Porquê opinava assim Volmar em 1879? Porque se estava numa época de reacção, num período de vasto recuo e debilidade do movimento obreiro europeu. A Comuna de Paris tinha sido vencida em 1871 e, até 1878 no ressurgiu o movimento revolucionário na França. Em Inglaterra triunfaram em toda a linha o trade-unionismo liberal, a política operária liberal. Foi a época da mais profunda decadência do movimento revolucionário inglês como do movimento revolucionário continental. Mas a social-democracia na Alemanha desenvolvia-se, na mesma época, rapidamente. Esta contradição levou Volmar a recorrer também à teoria original do socialismo num só país. Sabeis como acabou Volmar? Convertido num social-democrata bávaro, num arqui-direitista, num feroz nacionalista. Dir-me-eis que a situação hoje é muito diferente? Decerto, a situação actual geral é hoje bem diferente. Mas, nestes últimos anos, o proletariado europeu tem sofrido grandes derrotas. As esperanças de revolução mundial, de vitória proletária imediata, que existiam em 1918-1919, estão polo de hoje afastadas, e alguns dos que pertencem aos optimistas da maioria e que perderam esta esperança, tendem a tirar a conseqüência que se pode agora prescindir muito bem da revolução internacional. São estas as premissas dum desvio oportunista no sentido «volmarização», limitadamente nacional, que enceta com a sua teoria do socialismo num só país.
Somos acusados de pessimismo e cepticismo, tanto no que se refere a esta teoria, como no que não se lhe refere nem pouco nem muito. Nós, a oposição, seríamos uma «presada» de pessimistas e cépticos! O Partido está unido e, no seu seio, todos são optimistas e cheios de grande fé. Não será tudo isto um pouco simplista? Seja-me permitido pôr assim a questão: o arrivista, isto é, o indivíduo que ambiciona proveitos pessoais, acaso adere hoje à oposição? Só o arrivista isolado poderia aderir à oposição por um instante, para de seguida dela se separar e alinhar acto-contínuo nas filas dos «melhores representantes» do nosso Partido e do país. Mas nesse caso são personagens duma infâmia deplorável e excepcional. Se tomarmos como exemplo o arrivista médio, eu vos fago a pergunta: procurará, nas condições actuais, fazer carreira inscrevendo-se nas listas da oposição? Sabeis demais todos vós que não. O «oportunista», nas condições actuais, aderirá à oposição, quando por delito de oposição se expulsam das fábricas e se reduzem ao desemprego forçoso obreiros bolcheviques que, chegado o momento, combaterão tão valorosamente como podem combater todos os que aqui estão presentes? Não, o arrivista, o ambicioso, não irá para a oposição. O exemplo dos operários oposicionistas mostra-nos que, apesar da repressão, tem-se ainda a coragem, nas fileiras do Partido, de defender as suas idéias. A primeira qualidade de todo o revolucionário é a de saber avançar, mesmo contra a corrente, saber luitar, mesmo nas condições mais difíceis, polas suas concepções. Pergunto-vos uma vez mais: as pessoas do comum, os burocratas, os ambiciosos, irão para a oposição? Não, não virão para as nossas filas. E os obreiros de família numerosa, fatigados, decepcionados pola Revolução, que permanecem no Partido por inércia, irão para a oposição? Não, não o farão. Dir-se-ão: «Evidentemente o regime é mau, mas, façam dele o que fizerem, não quero meter-me em tais andanças!» Que qualidades são, pois, preciso possuir hoje para entrarem para oposição? É preciso ter uma fé sólida na sua causa, isto é, na causa da revolução proletária, uma verdadeira fé revolucionária. Vós apenas exigis uma fé que não passa dum verniz: consiste em votar segundo a opinião da direcção, em identificar a pátria socialista com um simples Comitê do Partido, em regular a sua conduta pola do Secretariado. Se se trabalha na indústria ou na administração, para viver tranqüilo, há que buscar segurança junto do Comitê do Partido do distrito ou no Secretariado do Comitê do Partido da vossa província. Como se verifica o carácter da vossa fé? Polo voto a cem por cento. Aquele que não quiser tomar parte nesta votação forçada, procura safar-se. Mas o secretário da célula retém-no: «Deves votar e votar como te dizem». Os que recusam a votar são imediatamente despedidos. Acham possível ocultar todos estes factos ao proletariado? Vamos! Permito-me pergunto-vos: Com quem jogam? Estão a fazer um mau jogo convosco próprios, com a Revolução e com o Partido. Aquele que vota sempre cem por cento convosco é aquele que ontem agredia Trotski e hoje Zinoviev, aquele que amanhã agredirá Bukharine e Rikov: esse nunca será um soldado seguro nas horas difíceis da Revolução. Quanto à oposição, ela demonstra a sua fidelidade e a sua coragem polo próprio facto de, num grave período de desvio e de pressão oficial, não se render, polo contrário, agrupa à sua volta os elementos combativos mais valiosos, que não podem ser comprados nem aterrorizados.
Jansson — Também entre os oposicionistas há arrivistas e oportunistas.
Trotski — Nomeie-os! Expulsá-los-emos todos. Nomeie-os! Onde estão? O núcleo fundamental da oposição é formado por elementos que não é possível subornar nem aterrorizar.
O regime do Partido amordaça, oprime, encadeia o Partido, dissimula o profundo processo de classe que se opera no país, processo com que topamos aos primeiros presságios de perigo de guerra, e com o qual chocaremos mais violentamente ainda se a guerra vier.
O regime actual desfigura o carácter de vanguarda do proletariado, não permitindo que se diga aberta e honestamente de onde vem o perigo. E o perigo que ameaça o proletariado vem das classes não proletárias, dado que todo o último período consistiu num recuo político do proletariado, enquanto que as outras classes ganham importância.
Com isso é, precisamente, que se relaciona a questão do Estado obreiro. Uma das inumeráveis e vergonhosas mentiras que se propaga sistematicamente através do Pravda(4*) é, que, ao que parece, eu teria declarado que o nosso Estado não é operário. Diz-se isso falsificando uma acta estenografada que não reli, onde expunha simplesmente a atitude de Lenine em relação ao Estado operário, opondo-a a de Molotov. Lenine dizia que herdáramos muito do que havia de maléfico no aparelho czarista. Hoje, que dizeis vós? Convertestes o Estado obreiro num feitiço, pretendeis santificá-lo como uma espécie de Estado constituído «pola graça de Deus». Qual é o teórico típico da santificação? Molotov. Nisso reside o seu mérito. Vou ler-vos mais uma vez as suas declarações. Vós ocultastes a minha crítica de Molotov e o Pravda adulterou-a. Mas, eis o que declarara Molotov contra Kamenev na XIV Conferência do Partido da província de Moscovo (Pravda, 13 de Dezembro de 1925):
«O nosso Estado é um Estado operário... Mas eis que nos é proposta uma fórmula que se pode, no melhor dos casos, definir assim: aproximar ainda mais a classe obreira para o nosso Estado... Que quer dizer isso? Deveríamos fixar como tarefa a aproximação dos obreiros ao nosso Estado. Mas o que é o nosso Estado, a quem pertence? Pertence ou não aos operários? Não é ele o Estado do proletariado? Como é possível aproximar do Estado os próprios operários, isto é, da classe operária a ela própria, à classe obreira que se encontra no poder e que governa o Estado?»
Estas são as palavras de Molotov. Trata-se, camaradas, da crítica mais aparvoada da concepção leninista do actual Estado obreiro, quer dizer, dum Estado que só pode tornar-se verdadeiramente e a fundo num Estado obreiro mediante um gigantesco trabalho de crítica, de correcção, de aperfeiçoamento. Ora, segundo Molotov, o presente Estado é uma espécie de absoluto operário, que não é possível aproximar mais das massas. É este feiticismo burocrático que a minha objecção visa, ou antes, a minha exposição de análise leninista do Estado soviético. (Interrupções)«Mas, que fazer?», dir-se-á aqui então. Se considerarem francamente que contra o que indico nada há a fazer, é porque acreditam a Revolução como perdida. E morrerá se segue polo caminho actual. Sois vós, portanto, os verdadeiros pessimistas, ainda que pessimistas satisfeitos. No entanto, pode-se muito bem modificar a situação mudando de política. Mas, antes de decidir o que é preciso fazer é indispensável dizer o que existe e em que sentido se operam os processos. Se se examinar um problema tão grave como o da morada, constatar-se-ão dous processos que se expressam por números de fácil verificação: o proletariado amontoa-se cada vez mais nas habitações enquanto as outras classes dispõem cada vez mais de espaço. Não estou a falar do campo onde se edifica muito. Claro está que no são os pobres que constroem, mas as camadas sociais superiores, o «kulak» e o campesino médio abastado. E nas cidades? Em relação aos chamados «artesãos», quer dizer, a pequena burguesia, os pequenos patrões, os comerciantes, os especialistas, o cubo de ar que cabe a cada um é maior este ano que o passado. Para cada operário deu-se precisamente o contrário. Antes de discutir o que se deve fazer é necessário constatar honestamente os factos. Nos outros aspectos da vida: na literatura, no teatro, na política, acontece mesmamente como a questão da morada: as classes não obreiras alargam-se, estendem-se, enquanto que o proletariado pregueia e se contrai. Repito, tal como ao mesmo tempo, se expandem no domínio material as classes burguesas — pode-se verificar na rua, nos estabelecimentos, nos comboios, nas vivendas — no domínio político o proletariado, no seu conjunto, se reduze e o nosso regime de Partido acentua o retrocesso do proletariado como classe. É este o feito capital. O ataque mais ameaçador parte da direita, das classes não proletárias. A nossa crítica deve tender a despertar na consciência do proletariado, a chamar a atenção sobre o perigo que se aproxima, para que ele não imagine que o poder foi adquirido para sempre, sejam quais forem as circunstâncias, e que o Estado soviético é sempre e em todas as condições um Estado obreiro. Precisa-se que o proletariado compreenda que, num período determinado da História, sobre tudo com uma falsa política na direcção, o Estado soviético pode tornar-se um aparelho mediante o qual o poder pode ser deslocado da sua base proletária para passar às mãos da burguesia que, em seguida, demolirá o invólucro soviético e transformará o seu poder em poder bonapartista. Este perigo torna-se muito real com uma política falsa.
Sem a revolução internacional não é possível edificar o socialismo. Sem uma política justa com base na revolução internacional, e não em conceder o nosso apoio a Purcell, não só não edificaremos o socialismo como conduziremos o poder soviético à sua perda. É preciso que o proletariado compreenda isto. O nosso erro, o erro como oposição, o nosso crime, consiste em não querer deixar-nos adormecer nem fechar os olhos com grande «optimismo» sobre os perigos que ameaçam a nossa Revolução. O perigo real vem da direita — não da ala direita do nosso Partido, que é apenas o mecanismo de transmissão —; o verdadeiro perigo, o perigo essencial vem das classes burguesas que erguem a cabeça, e cujo ideólogo é Ustrialov, esse burguês inteligente, clarividente, ao qual prestava Lenine uma atenção particular ao mesmo tempo em que nos punha em guarda contra ele. Bem sabeis que não somos nós quem apóia Ustrialov, mas sim Estaline. No Outono de 1926 Ustrialov escrevia:
«É necessária agora uma nova manobra, um novo impulso; para nos expressarmos em linguagem figurada, uma neo-NEP. Deste ponto de vista, devemos reconhecer que as concessões práticas que o Partido fez recentemente à oposição não podem deixar de inspirar sérias inquietações».
E mais adiante diz:
«Glória ao Buró político se o mea culpa dos chefes da oposição é o resultado da sua capitulação unilateral e categórica! Mas seria mau indício se fosse o fruto dum compromisso com eles. Neste caso, recomeçaria fatalmente a luita... O Comitê Central vitorioso deve adquirir imunidade interior contra o vírus dissolvente da oposição. Deve tirar todas as conclusões da derrota desta... De contrário seria uma calamidade para o país... É assim — continua Ustrialov — que devem encarar as cousas os intelectuais que restam na Rússia, os homens de negócios, os especialistas, os ideólogos da evolução e não da revolução».
E a conclusão de Ustrialov era: «Eis porque estamos hoje... a fundo com Estaline». Que respondeis vós a isto? Desejais excluir a oposição do Comitê Central, de momento nada mais que do Comitê Central. O burguês Ustrialov conhece a história da Revolução Francesa, conhece-a muito bem. E este intérprete dos sentimentos da nova burguesia compreende que só no desvio dos próprios bolcheviques está a maneira menos dolorosa de preparar o acesso ao poder da nova burguesia. Ustrialov escreve, ao defender o Comitê Central estalinista, que é necessário proteger (o quê?) contra o vírus dissolvente da oposição. Está, pois, de acordo convosco ao dizer que a oposição é o vírus dissolvente que é necessário destruir; de contrário, seria uma «calamidade para o país». Assim se exprime Ustrialov. Eis porque não só é contra nós, também como dá o seu apoio a Estaline. Reflexionem sobre isso. Não estais perante gentes ignorantes, inconscientes ou enganadas que acreditam que a oposição trabalha com ouro inglês. Não. Ustrialov é um homem consciente que sabe o que diz e para onde vai. Porquê vos apóia? Que é o que defende ele convosco?
Relataram-me recentemente que o camarada Soltz(5*), durante uma conversa com um dos camaradas que assinaram a declaração da oposição, estabeleceu uma analogia com a Revolução Francesa. Penso, com efeito, que este é um bom método. Estimo, ademais, que hoje seria útil reeditar, com vista ao Partido, a história real e a interpretação Marxista da Revolução Francesa, principalmente do seu último período. O camarada Soltz está aqui presente e sabe melhor do que ninguém o que disse. Se eu for inexacto, penso poderá rectificar-me. «Que significa a declaração dos 83?» — dizia Soltz —. «Aonde nos conduz? Conheceis a história da Revolução Francesa e onde foi parar: às prisões e à guilhotina». O camarada Vorobiev, com quem conversava Soltz, perguntou-lhe: «Pois como? Estão dispostos a guilhotinar-nos?». Seguindo com o tema, Soltz perguntou-lhe: «Pensa por acaso que Robespierre não apiedava Danton ao enviá-lo à guilhotina? O próprio Robespierre teve também que por lá passar... Pensa acaso que isso não foi penosíssimo? No entanto, foi necessário...» Tal foi a substância da conversa. Digo-vos que é necessário, mesmo indispensável, refrescar, custe o que custar, os nossos conhecimentos sobre a Revolução Francesa. Pode-se começar mesmo por Kropotkine, que não foi um Marxista, mas que compreendeu melhor que Jaurés os sentimentos do povo e os alicerces de classe da Revolução. Durante a Revolução Francesa guilhotinou-se muita gente. Também nós fuzilamos muitos. Mas a história da Revolução dividiu-se em dous grandes capítulos, um dos quais se desenrolou assim (o orador esboça uma curva ascendente) e outro deste jeito (uma descendente). Eis o que é preciso compreender. Quando se desenrolava numa curva ascendente, os jacobinos franceses, os bolcheviques de então, guilhotinavam os realistas e os girondinos. Nós, oposicionistas, já superamos esse grande capítulo quando, juntamente convosco, tivemos que fuzilar os guardas brancos e os girondinos. Depois, se abriu na França um novo capítulo, quando os ustrialovistas e os semi-ustrialovistas franceses, os termidorianos e os bonapartistas, os jacobinos da direita, começaram a perseguir e fuzilar os jacobinos de esquerda, os bolcheviques de então. Desejaria bem que o camarada Soltz meditasse até o fim quanto à sua analogia e que se pergunte, antes de mais, a si próprio, no decurso de qual capítulo se dispõe a fuzilar-nos. (Ruídos de escândalo). Não gracejo; a Revolução é uma cousa séria. Não existe ninguém entre nós ao qual os fuzilamentos causem medo. Todos somos velhos revolucionários. Mas é preciso saber quem fuzilar e em qual «capítulo». Quando nós fuzilamos, sabíamos em que capítulo o fazíamos. Mas hoje, compreendereis claramente no interior de qual capítulo vos preparais para nos fuzilar? Receio, camarada Soltz, que vos disponhais a fuzilar-nos no capítulo dos ustrialovistas, o capítulo de Termidor.
Quando se emprega entre nós o termo «termidorianchina», imagina-se que é uma injúria. Crê-se que se tratava de contra-revolucionários, de partidários conscientes da realeza e assim por diante. Contudo, não eram tal! Os termidorianos eram jacobinos que tinham evoluído para a direita. A organização jacobina — os bolcheviques de então — sob a pressão das contradições de classe, chegou bem depressa à convicção que era preciso esmagar Robespierre. Acreditais acaso que à manhã seguinte ao 9 Termidor eles tenham dito: «acabamos de repor o poder nas mãos da burguesia?» Não, nada disso! Consultem todos os jornais da época. Diziam: destruímos um punhado de indivíduos que perturbava a tranqüilidade do Partido; agora, que estão aniquilados e mortos, a revolução vai triunfar definitivamente. Se o camarada Soltz duvida...
Soltz — Repete você as minhas palavras quase textualmente.
Trotski — Tanto melhor. Se pudermos por de acordo a este respeito, camarada Soltz, creio que isso nos ajudará a conhecer segundo qual capítulo se dispõe a iniciar o esmagamento da oposição. Uma cousa é certa: se não se decide corrigir como é necessário a linha classista do Partido, dever-se-á seguir no interior do Partido a linha indicada por Ustrialov, ou seja, a luita implacável contra a oposição.
Vou-vos ler o que dizia Brival, um dos jacobinos da direita, um dos termidorianos, do relatório que fez sobre o que aconteceu na sessão da Convenção em que Robespierre e outros jacobinos foram entregues ao Tribunal revolucionário:
«Os intrigantes, os contra-revolucionários que se cobriam com a toga do patriotismo, quiseram perder a liberdade; a Convenção decidiu proceder à sua detenção. Esses representantes são: Robespierre, Couthon, Saint-Just, Lebas, Robespierre o Jovem. Qual é a sua opinião? — perguntou-me o presidente. Eu respondi: Todo aquele que votou sempre se inspirando nos princípios das Horas, tanto na Assembléia Constituinte como na Convenção, votou a favor da detenção. Eu fiz mais ainda: fui dos que propuseram esta medida. Por outro lado, como secretário, apressei-me a assinar e enviar este decreto à Convenção».
Eis a linguagem dum Soltz ou um Jansson de então. Os contra-revolucionários eram Robespierre e os seus adeptos. «Todo aquele que sempre votou inspirando-se no princípio das Horas», significava, na linguagem da época, «aquele que foi sempre um bolchevique». Brival considerava-se um velho bolchevique. Existem hoje, por igual, secretários que se apressam a «assinar e enviar».
Ouçam, por outro lado, o manifesto da Convenção à França, à pátria, ao povo, depois de Robespierre, Saint-Just e os seus companheiros terem sido aniquilados:
«Cidadãos: no meio de brilhantes vitórias obtidas sobre os inimigos externos, ameaça a República um novo perigo... A obra da Convenção ficará estéril e a bravura do exército perderá todo o seu sentido se os cidadãos duvidarem em escolher entre a pátria e alguns indivíduos isolados. Obedeçam a voz da pátria, não alinhem nas fileiras dos aristocratas malfeitores e dos inimigos do povo, e salvarão outra vez a pátria!».
Consideravam que no caminho que conduzia ao trunfo da Revolução levantavam-se os interesses de «alguns indivíduos isolados»; não compreendiam que esses «indivíduos isolados» eram o reflexo da força revolucionária elementar das camadas sociais populares daquela época. Aqueles «indivíduos isolados» eram o reflexo da força revolucionária espontânea que se opunha à «neo-NEP» e ao
. Os termidorianos acreditavam que se tratava duma mudança de pessoas, sem se aperceberem que se tratava duma deslocação das classes. «Escuitem a voz da pátria, não alinhem nas fileiras dos aristocratas malfeitores!»... Os aristocratas eram os amigos de Robespierre. Não ouvimos hoje já da boca de Jansson este mesmo epíteto: «Aristocrata!», lançado contra mim?
Poderia citar-vos artigos em que os jacobinos revolucionários são apresentados como agentes de Pitt, o Chamberlain de então. Na verdade, a analogia é surpreendente. Chamberlain é o Pitt de hoje, mas em reduzido formato. Veja-se a história de Aulard: «Os inimigos não se contentaram em matar Robespierre e os seus amigos; caluniaram-nos, apresentando-os aos olhos da França como realistas e vendidos ao estrangeiro». Cito textualmente. Ora, o artigo do Pravda «O caminho da oposição», não assenta nesta conceição? Aquele que tenha lido o último artigo editorial do Pravda deve sentir o odor que dele emana. Este cheiro de «segundo capítulo» fede. Esse cheirume de segundo capítulo é o «ustrialovchina» que se infiltra já através das instituições oficiais do nosso Partido e desarma a vanguarda do proletariado, enquanto que o regime do Partido oprime todos os que luitam contra o Termidor. O vulgar membro do partido, sufoca. O obreiro de base, cala.
Quereis uma nova «depuração» do Partido para impor o silêncio. Eis o regime que reina no Partido. Acordai-vos da história dos clubes jacobinos. Houve duas fases na depuração. Quando a vaga ascendeu, desembaraçam-se dos moderados, quando a curva começou a descer, eliminaram aos jacobinos revolucionários. Aonde conduziu isso os clubes? Ao regime anónimo de terror sob o qual havia que calar, a votar com uma unanimidade de cem por cento, a abster-se de toda a crítica, a pensar segundo as prescrições do alto, ao mesmo tempo em que se deixava compreender que o Partido era um organismo vivo, independente, e não um aparelho do poder, bastando-se a si mesmo. A Comissão Central de Controle de então — também existiam instituições que preenchiam as vossas funções — percorreu dous capítulos com toda a Revolução. No segundo capítulo desabituaram de reflectir os membros do Partido, ao mesmo tempo em que os obrigava a aceitar como um credo tudo o que vinha do cimo. E, assim, os clubes jacobinos, centros da Revolução, tornaram-se coinheiros dos futuros funcionários de Napoleão. É, decerto, necessário, instruir-se nos ensinamentos da Revolução Francesa. Mas será preciso para isso repeti-la? (Interrupções)
Não dizemos isto como pura brincadeira fraccional. Ninguém aceitaria arriscar por cousas insignificantes, por futilidades, todo o que expomos nós. Ignoro se são as últimas declarações que faço sobre estas questões perante esta assembléia. Ignoro a que ritmo ides executar o programa de que vos falei ao início do meu discurso. Mas, esta hora e vinte minutos que me tendes outorgado quis empregá-la, não para desmentir as mesquinhas e miseráveis acusações que manifestais contra mim, mas para definir com expressão franca as questões essenciais dos nossos desacordos.
Que fazer para evitar a cisão?(6*) Poder-se-á mesmo evitá-la? Se vivéssemos nas condições precedentes à guerra imperialista, anteriores à Revolução, nas condições duma acumulação relativamente lenta dos antagonismos, creio que a cisão seria infinitamente mais provável do que a sustentação da unidade. Seria criminoso enganarmos-nos a nós próprios quanto à importância dos pontos de vista. Mas hoje, a situação é diferente. As nossas divergências agravaram-se e os antagonismos aumentaram. Neste último período, a evolução da Revolução chinesa fez que os nossos desacordos se ampliassem de novo e consideravelmente. Mas, ao mesmo tempo temos, em primeiro lugar, um imenso poder revolucionário concentrado no Partido, uma imensa e rica experiência acumulada nos trabalhos de Lenine, no programa e nas tradições do Partido. Dissipámos uma boa parte deste capital e substituimo-lo em grande parte polos produtos baratos da «nova escola» que hoje soberanamente reina na Imprensa do Partido. Mas resta-nos ainda muito ouro puro. Em segundo lugar, o actual período é um período histórico de bruscas viragens, de acontecimentos gigantescos, de colossais lições, das quais tirar grandes ensinamentos. Produziram-se acontecimentos grandiosos que permitem verificar as duas linhas políticas que se defrontam. Porém, não tentem encobrir estes acontecimentos, pois cedo ou tarde, acabar-se-á por conhecê-los. Não é possível dissimular as vitórias ou as derrotas do proletariado. O Partido pode facilitar ou dificultar o conhecimento destas lições e a sua assimilação. Estais vós a dificultá-las. Eis porque nós somos optimistas. Luitamos e luitaremos pola linha política da Revolução de Outubro. Estamos tão profundamente convencidos da justeza da nossa linha, que não duvidamos que acabará por se implantar na consciência da maioria proletária do nosso Partido.
Qual é nestas condições o dever da Comissão Central de Controle? Cuido que esse dever consistirá em criar, neste período de bruscos abalos, um regime mais são e mais flexível no Partido, a fim de permitir aos gigantescos acontecimentos a verificação, sem rudes estremecimentos, das linhas políticas que se defrontam. É preciso dar ao Partido a possibilidade de se entregar a uma autoridade ideológica perante os grandes acontecimentos. Se assim se decidir, estou certo que antes dum ano ou dous o curso do Partido terá sido corrigido. Não se deve ter pressa, não se devem tomar decisões que se tornem depois de difícil reparação. Tende cuidado, para não serem obrigados a dizer: Separámo-nos daqueles que deveríamos ter guardado e guardámos aqueles de que nos deveríamos ter separado.