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sábado, 22 de novembro de 2008

Manifesto da IV Internacional Sobre a Guerra Imperialista e a Revolução Proletária Mundial



Leon Trotsky
Maio de 1940

A conferência de emergência da Quarta Internacional, o partido mundial da revolução socialista, se reúne no momento inicial da segunda guerra imperialista.

Já ficou para trás a etapa de tentativas de aberturas, de preparativos, de relativa inatividade militar. A Alemanha desatou as fúrias do inferno numa ofensiva geral a qual os aliados respondem igualmente com todas as forças destrutivas de que dispõem.

De agora em diante e por muito tempo o curso da guerra imperialista e suas conseqüências econômicas e políticas determinarão a situação da Europa e de toda a humanidade.

A Quarta Internacional considera que este é o momento de dizer aberta e claramente como vê esta guerra e a seus protagonistas, como caracteriza a política a respeito da guerra e as distintas organizações trabalhistas e, o mais importante, qual é o caminho para se conseguir a paz, a liberdade e a abundância.

A Quarta Internacional não se dirige aos governos que arrastaram os povos à matança, nem aos políticos burgueses responsáveis por esses governos, nem à burocracia sindical que apóia a burguesia belicista.

A Quarta Internacional se dirige aos trabalhadores e as trabalhadoras, aos soldados e marinheiros, aos camponeses arruinados e aos povos coloniais escravizados.

A Quarta Internacional não tem nenhuma ligação com os opressores, os exploradores, os imperialistas. É o partido mundial dos trabalhadores, dos oprimidos e explorados.

 Este manifesto é dirigido a eles.

As causas gerais da guerra atual

A tecnologia é hoje infinitamente mais poderosa que em fins da guerra de 1914 a 1918, enquanto que a humanidade é muito mais pobre.

Caiu o nível de vida, num país após o outro. Nos umbrais da guerra atual a situação da agricultura era pior do que quando estourou a guerra anterior.

 Os países agrícolas estão arruinados. Nos países industriais as classes médias caem na ruína econômica e se formou uma subclasse permanente de desempregados, os modernos párias.

O mercado interno estreitou seus limites. Reduziu-se a exportação de capitais. O imperialismo realmente destroçou o mercado mundial, dividindo-o em setores dominados individualmente por países poderosos.

Apesar do considerável incremento da população do planeta, o intercâmbio comercial de cento e nove países do mundo decaiu quase uma quarta parte durante a década anterior a guerra atual. Em alguns países o comércio exterior se reduziu a metade, a terceira ou quarta parte.

Os países coloniais sofrem suas próprias crises internas e as dos centros metropolitanos. Nações atrasadas, que ontem entretanto eram semi-livres, hoje estão escravizadas, (Abissínia, Albânia, China...).

Todos os países imperialistas necessitam possuir fontes de matérias-primas sobretudo para a guerra, ou seja, para uma nova luta por matérias-primas.

 A fim de enriquecerem posteriormente, os capitalistas estão destruindo e devastando o produto do trabalho de séculos inteiros.

O mundo capitalista está superpovoado. A admissão de cem refugiados extras constitui um problema grave para uma potência mundial como os EUA.

Na era da aviação, do telefone, do telégrafo, do rádio e da televisão, os passaportes e os vistos paralisam o deslocamento de um a outro país.

A época da decadência do comércio exterior e interior é, ao mesmo tempo, a da intensificação monstruosa do chauvinismo, especialmente o anti-semitismo.

O capitalismo, quando surgiu, tirou o povo judeu do gueto e o utilizou como um instrumento de sua expansão comercial. Hoje a sociedade capitalista em decadência trata de expulsar, por todos os seus poros, ao povo judeu; entre dois bilhões de pessoas que habitam o globo, dezessete milhões, ou seja, menos de um por cento, já não podem encontram um lugar onde viver!

 Entre as vastas extensões de terras e as maravilhas da tecnologia, que além da terra conquistou os céus para o homem, a burguesia conseguiu converter nosso planeta numa prisão suja.
Lênin e o imperialismo.

Em primeiro de novembro de 1914, no início da última guerra imperialista, Lênin escreveu:
“O imperialismo arrisca o destino da cultura européia.

Depois desta guerra, se não triunfam umas quantas revoluções, virão outras guerras; o conto de fadas de ‘uma guerra que acabará com todas as guerras’ não é mais do que isso, um vazio e pernicioso conto de fadas...”.

Operários, recordai essa predição! A guerra atual, a segunda guerra imperialista, não é um acidente; não é conseqüência da vontade de tal ou qual ditador.

Há muito se a previu. É o resultado inexorável das contradições dos interesses capitalistas internacionais.

 Ao contrário do que afirmam as fábulas oficiais para enganar ao povo, a causa principal da guerra, como de todos os seus outros males sociais (o desemprego, o alto custo de vida, o fascismo, a opressão colonial) é a propriedade privada dos meios de produção e o estado burguês que se apóia neste fundamento.

O nível atual da tecnologia e da capacidade de os operários permite criar condições adequadas para o desenvolvimento material e espiritual de toda a humanidade.

Apenas seria necessário organizar correta, cientifica e racionalmente a economia de cada país e de todo o planeta, seguindo um plano geral.

No entanto, enquanto as principais forças produtivas da sociedade estejam nas mãos dos trustes, ou seja, de camarilhas capitalistas isoladas, enquanto o estado nacional siga sendo uma ferramenta manejada por essas camarilhas, a luta por mercados, as fontes de matérias-primas, a dominação do mundo assumirá inevitavelmente um caráter cada vez mais destrutivo.

Somente a classe operária revolucionária pode arrancar das mãos destas rapaces camarilhas imperialistas o poder do estado e o domínio da economia.

Esse é o sentido da advertência de Lênin de que “se não triunfam umas quantas revoluções” inevitavelmente estalará uma nova guerra imperialista.

Os distintos prognósticos e promessas que se fizeram então foram submetidas à prova dos fatos. Comprovou-se que era uma mentira o conto de fadas de “guerra para acabar com todas as guerras”.

A previsão de Lênin converteu-se em uma trágica verdade.
As causas imediatas da guerra.

A causa imediata da guerra atual é a rivalidade entre os velhos impérios coloniais ricos, Grã-Bretanha e França, e os ladrões imperialistas que chegaram atrasados, Alemanha e Itália.

O Século XIX foi a era da hegemonia indiscutida da potência imperialista mais antiga, a Grã-Bretanha. Entre 1815 e 1914 reinou, ainda que não sem explosões militares isoladas, a “paz britânica”.

A frota britânica, a mais poderosa do mundo, jogou o papel de polícia dos mares. Esta era, no entanto, é coisa do passado.

Já no final do Século passado, a Alemanha, armada como uma moderna tecnologia, começou a avançar para o primeiro lugar na Europa. Além do oceano, surgiu um país ainda mais poderoso, uma antiga colônia britânica.

A contradição econômica mais importante que levou à guerra de 1914–1918 foi a rivalidade entre Grã-Bretanha e Alemanha.

Quanto aos EUA, sua participação na guerra foi preventiva; não se podia permitir que a Alemanha submetesse o continente europeu. A derrota levou a Alemanha à impotência total.

Desmembrada, rodeada de inimigos, em bancarrota pelas indenizações, debilitada pelas convulsões da guerra civil, parecia haver ficado fora de circulação por muito tempo, senão para sempre. No continente europeu, o primeiro violino voltou temporariamente às mãos da França.

O balanço da vitoriosa Inglaterra depois da guerra resultou, em última instância, deficitário: independência crescente de seus domínios, movimentos coloniais em favor da libertação, perda da hegemonia naval, diminuição da importância de sua armada pelo grande desenvolvimento da aviação.

Por inércia a Inglaterra, todavia, intentou jogar um papel dirigente na cena mundial durante os primeiros anos que seguiram à vitória. Seus conflitos com os EUA começaram a tornar-se obviamente ameaçadores.

 Parecia que a próxima guerra estouraria entre os dois aspirantes anglo-saxões à dominação do mundo. No entanto, a Inglaterra logo teve que convencer-se de que sua força econômica era insuficiente para competir com o colosso de além oceano.

 Seu acordo com os EUA sobre a igualdade naval significou sua renúncia formal à hegemonia naval que na atualidade já havia perdido.

Sua volta do livre comércio para as tarifas aduaneiras foi a admissão franca da derrota da indústria britânica no mercado mundial.

Sua renúncia à política de “esplêndido isolamento” trouxe como conseqüência a introdução do serviço militar obrigatório. Assim viraram fumaça todas as sagradas tradições.


A França também se caracteriza, ainda que em menor escala, por uma inadequação similar entre seu poderio econômico e sua posição no mundo. Sua hegemonia na Europa se apoiava numa conjuntura circunstancial criada pela aniquilação da Alemanha e as estipulações artificiais do Tratado de Versalhes.

Sua quantidade de habitantes e suas bases econômicas eram demasiado reduzidas para assentar sobre elas sua economia. Quando se dissipou o encantamento da vitória saiu à luz a relação de forças real.

 A França demonstrou ser muito mais débil do que acreditavam tanto seus amigos como seus inimigos.

Ao buscar proteção se converteu, em essência, no último dos domínios conquistados pela Grã-Bretanha.

A regeneração da Alemanha, em base à sua tecnologia de primeira ordem e sua capacidade organizativa, era inevitável.

Ocorreu antes do que se pensava, em grande medida, graças ao apoio da Inglaterra à Alemanha contra a URSS, das pretensões excessivas da França e, mais indiretamente, dos EUA.

A Inglaterra, mais de uma vez, teve êxito nessas manobras internacionais no passado, enquanto era a potência mais forte. Em sua senilidade, demonstrou-se incapaz de dominar os espíritos que ela mesma evocou.

A armada com uma tecnologia mais moderna, mais flexível e de maior capacidade produtiva, a Alemanha começou outra vez a competir com a Inglaterra em mercados muito importantes, especialmente no sudeste da Europa e América Latina.

No Século XIX, a competição entre os países capitalistas se desenvolvia em um mercado mundial em expansão.

Hoje, ao contrário, o espaço econômico de luta se estreita de tal maneira que os imperialistas não têm outra alternativa que a de arrancar-se uns aos outros os pedaços do mercado mundial.

A iniciativa de efetuar uma nova divisão do mundo provém agora, como em 1914, naturalmente, da Alemanha.

 O governo inglês, que foi pego desprevenido, tentou primeiro comprar a possibilidade de ficar à margem da guerra com concessões às custas dos demais (Áustria, Tchecoslováquia).

Mas esta política podia durar pouco. A “amizade” com a Grã-Bretanha foi, para Hitler, somente uma fase tática. Londres já havia lhe concedido mais do que ele havia calculado conseguir.

O acordo de Munique, com o qual Chamberlain esperava selar uma longa amizade com a Alemanha. Serviu, ao contrário, para apressar a ruptura. Hitler já não podia conseguir mais nada de Londres; a expansão posterior da Alemanha golpearia vitalmente à Grã-Bretanha.

Assim foi como “a nova era de paz” proclamada por Chamberlain em outubro de 1938 conduziu, em poucos meses, à mais terrível de todas as guerras.
Os Estados Unidos

Enquanto a Grã-Bretanha fazia todos os esforços possíveis, desde os primeiros meses da guerra, para apropriar-se das posições que a bloqueada Alemanha deixou livres no mercado mundial, os Estados Unidos, quase automaticamente, desalojava a Grã-Bretanha. Dois terços de todo o ouro do mundo concentram-se nos cofres norte-americanos.

O terço restante segue o mesmo caminho. O papel de banqueiro do mundo que desempenhou a Inglaterra já é coisa do passado.

E em outros terrenos as coisas não andam muito melhor. Enquanto a armada e a marinha mercante da Grã-Bretanha estão sofrendo grandes perdas, os estaleiros norte-americanos constroem num ritmo colossal os barcos que garantirão o predomínio da frota norte-americana sobre a britânica e a japonesa.

Os Estados Unidos se preparam, evidentemente, para alcançar o nível das duas potências, (uma armada mais poderosa que as frotas combinadas das duas potências que os seguem).

O novo programa para a frota aérea se propõe a garantir a superioridade dos EUA sobre o resto do mundo.

No entanto, a força industrial, financeira e militar dos EUA, a potência capitalista mais avançada do mundo, não assegura, em absoluto, o florescimento da economia norte-americana.

 Pelo contrário, volta, especialmente maligna e convulsiva, a crise que afeta seu sistema social. Não se pode usar os bilhões em ouro, nem os milhões de desocupados!

Nas teses da Quarta Internacional, A guerra e a Quarta Internacional, publicadas há seis anos, se prognosticava:
“O capitalismo dos Estados Unidos enfrenta-se com os mesmos problemas que em 1914 empurraram a Alemanha à guerra.

Está dividido o mundo? Há que dividi-lo. Para a Alemanha tratava-se de ‘organizar a Europa’. Os Estados Unidos têm que ‘organizar’ o mundo. A história está enfrentando à humanidade com a erupção vulcânica do imperialismo norte-americano”.

O New Deal e a “política de boa vizinhança” foram as últimas tentativas de postergar o estouro, aliviando a crise social com concessões em acordos.

Depois da bancarrota dessa política, que consumiu dezenas de bilhões, ao imperialismo norte-americano não lhe restava outra coisa por fazer do que recorrer ao método do punho de ferro.

Com um ou outro pretexto e com qualquer consigna os Estados Unidos intervirão no tremendo choque para conservar seu domínio do mundo.

A ordem e o momento da luta entre o capitalismo norte-americano e seus inimigos não se conhece ainda; talvez, nem sequer Washington saiba.

A guerra com o Japão teria como objetivo conseguir mais “espaço vital” no Oceano Pacífico. A guerra no Atlântico, ainda que de imediato, se dirija contra a Alemanha seria para conseguir a herança da Grã-Bretanha.

A possível vitória da Alemanha sobre os aliados pende sobre Washington como um pesadelo. Com o continente europeu e os recursos de suas colônias como base, com todas as fábricas de munições e estaleiros europeus a sua disposição, a Alemanha (especialmente se está aliada ao Japão no Oriente) constituiria um perigo mortal para o imperialismo norte-americano.

As titânicas batalhas que acontecem atualmente nos campos da Europa são, neste sentido, episódios preliminares da luta entre a Alemanha e América do Norte. França e Inglaterra são apenas posições fortificadas que possuem o imperialismo norte-americano do outro lado do Atlântico.

Se as fronteiras da Inglaterra chegam até o Reno, como propôs um dos premiers britânicos, os imperialistas norte-americanos poderiam muito bem dizer que as fronteiras dos Estados Unidos chegam até o Tâmisa.

Em sua febril atividade de preparação da opinião pública para a guerra eminente, Washington não deixa de demonstrar uma nobre indignação pela sorte da Finlândia, Dinamarca, Noruega, Holanda, Bélgica...

Com a ocupação da Dinamarca, surgiu inesperadamente a questão da Groenlândia, que “geologicamente” faria parte do Hemisfério Ocidental e, por feliz casualidade, contém depósitos de creolita, indispensável para a produção de alumínio. Tampouco despreza Washington à escravizada China, às indefesas Filipinas, às órfãs Índias Holandesas e as rotas marítimas livres.

Deste modo as simpatias filantrópicas pelas nações oprimidas e até as considerações geológicas estão arrastando os Estados Unidos para a guerra.

As forças armadas norte norte-americanas, no entanto, poderão intervir, com êxito, somente se contam com a França e as Ilhas Britânicas como sólidas bases de apoio.

 Se a França fosse ocupada e as tropas alemãs chegassem até o Tâmisa, a relação e forças se voltaria drasticamente contra os Estados Unidos.

Todas essas considerações obrigam Washington a acelerar o ritmo, mas ao mesmo tempo a considerar o problema de se não deixou passar o momento oportuno.

Contra a posição oficial da Casa Branca levantam-se os ruidosos protestos do isolacionismo norte-americano, que constitui somente uma variante distinta do mesmo imperialismo.

O setor capitalista, cujos interesses estão ligados fundamentalmente ao continente norte-americano, Austrália e o Extremo Oriente considera que, no caso de uma derrota dos aliados, os Estados Unidos, automaticamente, obteria para si o monopólio na América Latina e também no Canadá, Austrália e Nova Zelândia.

Quanto à China, às Índias Holandesas e o Oriente em geral, toda a classe governante dos Estados Unidos está convencida de que, de todo o modo, a guerra com o Japão é inevitável num futuro próximo.

Com o pretexto do isolacionismo e do pacifismo, um setor influente da burguesia prepara um programa para expansão continental na América do Norte e para a luta contra o Japão. De acordo com este plano, a guerra contra Alemanha pela dominação do mundo, apenas fica adiada.

 E quanto aos pacifistas pequeno-burgueses do tipo de Norman Thomas e sua fraternidade são somente os corifeus de um dos planos imperialistas.

Nossa luta contra a intervenção dos Estados Unidos na guerra não tem nada em comum com o isolacionismo e o pacifismo.

Dizemos abertamente aos operários que o governo imperialista não pode deixar de arrastar esse país à guerra. As disputas internas da classe governante são somente em torno de quando entrar na guerra e contra quem abrir fogo primeiro.

Pretender manter os Estados Unidos na neutralidade por meios de artigos jornalísticos e resoluções pacifistas é como tratar de fazer retroceder a maré com uma escova.

 A verdadeira luta contra a guerra implica a luta de classe contra o imperialismo e a denúncia implacável do pacifismo pequeno-burguês.

Só a revolução poderá evitar que a burguesia norte-americana intervenha na segunda guerra imperialista ou comece a terceira. Qualquer outro método é nada mais que charlatanismo ou estupidez, ou uma combinação de ambos.

A defesa da “pátria”
Há quase cem anos, quando o estado nacional ainda constituía um fator relativamente progressista, o Manifesto Comunista proclamou que os proletários não têm pátria. Seu único objetivo é a criação da pátria dos trabalhadores, que abarca o mundo inteiro.

Até o final do século XIX o estado burguês, com seus exércitos e suas tarifas aduaneiras, transformou-se no maior freio ao desenvolvimento das forças produtivas, que exigem um campo de ação muito mais extenso.

 O socialista que hoje sai em defesa da “pátria” faz o mesmo papel reacionário que os camponeses da Vendée, que saíram em defesa do regime feudal, ou seja, das suas próprias correntes.

Nos últimos anos, e mesmo nos meses mais recentes, o mundo viu com assombro com que facilidade desaparecem do mapa da Europa os estados: Áustria, Tchecoslováquia, Albânia, Polônia, Dinamarca, Noruega, Holanda, Bélgica...

Nunca antes se transformou o mapa político com tanta rapidez, salvo na época das guerras napoleônicas. Naquela época tratava-se de estados feudais que haviam sobrevivido e tinham que dar passagem ao estado nacional burguês.

Hoje se trata de estados burgueses sobreviventes que devem dar passagem à federação de povos socialistas. A corrente, como sempre, se rompe no seu elo mais frágil.

A luta dos bandidos imperialistas deixa tão pouco espaço aos pequenos estados independentes com a luta viciosa dos trustes e dos cartéis aos pequenos manufatureiros e comerciantes independentes.

Por sua posição estratégica, para a Alemanha é mais proveitoso atacar seus inimigos fundamentais através dos países pequenos e neutros. Grã-Bretanha e França, pelo contrário, se beneficiam mais cobrindo-se com a neutralidade dos estados pequenos e deixando que a Alemanha, com seus ataques, os arraste ao campo dos aliados “democráticos”.

 O nó da questão não muda por esta diferença nos métodos estratégicos. Os pequenos satélites viram pó entre as trituradoras dos grandes países imperialistas.

A “defesa” das pátrias maiores faz necessária a liquidação de uma dezena de países pequenos e médios.


Mas o que interessa à burguesia dos grandes estados não é em absoluto a defesa da pátria, mas a dos mercados, das concessões estrangeiras, das fontes de matérias-primas e das esferas de influência. A burguesia nunca defende a pátria pela pátria em si. Defende a propriedade privada, os privilégios, os lucros.

Quando estes sagrados valores se vêem ameaçados a burguesia, imediatamente, se volta para o derrotismo.

 Foi o que ocorreu com a burguesia russa, cujos filhos, depois da Revolução de Outubro, lutaram e estão dispostos a lutar uma vez mais em todos os exércitos do mundo contra sua própria antiga pátria.

Para salvar seu capital, a burguesia espanhola pediu ajuda a Mussolini e a Hitler contra seu próprio povo. A burguesia norueguesa colaborou na invasão de Hitler a seu país. Assim foi e assim será sempre.

O patriotismo oficial é uma máscara que encobre os interesses dos exploradores. Os operários com consciência de classe jogam por terra, com desprezo, esta máscara.

Não defendem a pátria burguesa, mas os interesses dos trabalhadores e oprimidos de seu país e do mundo inteiro.

As teses da Quarta Internacional afirmam:
“Contra a consigna reacionária da ‘defesa nacional’ é necessário propor a consigna da destruição revolucionária do estado nacional.

É necessário opor à loucura da Europa capitalista o programa dos Estados Socialistas Unidos da Europa como etapa prévia em direção aos Estados Socialistas Unidos do Mundo”.

A “luta pela democracia”

Não é menor o engano da consigna da guerra pela democracia contra o fascismo. Como se os operários tivessem esquecidos que o governo britânico ajudou a subir ao poder a Hitler e sua horda de verdugos!

 As democracias imperialistas são na realidade as maiores aristocracias da história. Inglaterra, França, Holanda e Bélgica se apóiam na escravização dos povos coloniais.

A democracia dos Estados Unidos se apóia na apropriação das vastas riquezas de todo um continente. Estas “democracias” orientam todos os seus esforços no sentido de preservar sua posição privilegiada.

 Descarregam boa parte do peso da guerra sobre suas colônias. Obriga-se os escravos a entregar seu sangue e seu ouro para garantir a seus amos a possibilidade de continuar a serem amos.

As pequenas democracias capitalistas sem colônias são satélites dos grandes impérios e levam uma fatia de seus lucros coloniais. As classes governantes desses estados estão dispostas a renunciar à democracia em qualquer momento para conservar seus privilégios.

No caso da minúscula Noruega, se revelou uma vez mais ante ao mundo a mecânica interna da democracia decadente.

A burguesia norueguesa apelou simultaneamente ao governo social-democrata e à polícia, aos juízes e aos oficiais fascistas. Ao primeiro impacto sério, foram varridos os dirigentes democráticos e a burocracia fascista, que imediatamente encontrou uma linguagem comum com Hitler, se adonou da situação.

 Com distintas variantes, segundo cada país, já se havia levado a cabo o mesmo experimento na Itália, Alemanha, Áustria, Polônia, Tchecoslováquia e uma quantidade de países.

 Nos momentos de perigo a burguesia sempre pode livrar de travas democráticas ao verdadeiro aparelho de governo, instrumento direto do capital financeiro.

Só um cego contumaz pode crer que os generais e almirantes britânicos e franceses estão fazendo uma guerra contra o fascismo!A guerra não deteve o processo de transformação das democracias em ditaduras reacionárias; pelo contrário, está levando a esta conclusão ante nossos próprios olhos.

Dentro de cada país e no plano mundial, a guerra fortaleceu imediatamente aos grupos e instituições mais reacionárias.

Passam a frente dos estados maiores gerais, esses ninhos de conspiração bonapartista, as feras malignas da polícia, os patriotas mercenários, as igrejas de todos os credos. Todos, especialmente o protestante presidente Roosevelt, adula a corte do Papa, o centro do obscurantismo e ódio entre homens.

 A decadência material e espiritual sempre trás junto a opressão policial e uma demanda cada vez maior do ópio religioso.

Para lograr as vantagens que lhes proporciona o regime totalitário, as democracias imperialistas encaram sua própria defesa com uma ofensiva redobrada contra a classe operária e a perseguição das organizações revolucionárias.

Utilizam o perigo da guerra e agora a guerra mesmo, primeiro e antes de mais nada, para aplastar aos seus inimigos internos. A burguesia segue invariável e firmemente a regra de que “o inimigo fundamental está dentro do próprio país”.

Como sucede sempre, os mais débeis são os que mais sofrem. Nesta matança dos povos, os mais débeis são os inumeráveis refugiados de todos os países, entre eles os exilados revolucionários.

O patriotismo burguês se manifesta, antes de mais nada, na maneira brutal com que se tratam aos estrangeiros indefesos.

Antes que se construíssem campos de concentração para os prisioneiros de guerra, já todas as democracias haviam construído campos de concentração para os revolucionários exilados.

Os governos de todo o mundo, e especialmente o da URSS, escreveram a página mais negra de nossa época pelo tratamento que infligem aos refugiados, os exilados, os sem lar.

Enviamos nossas mais cálidas saudações aos irmãos presos e perseguidos e lhes dizemos que não desanimem. Das prisões e dos campos de concentração capitalistas sairá a maior parte dos líderes do mundo de amanhã!

As consignas de guerra dos nazis

As consignas gerais de Hitler não são dignas de consideração. Já faz muito que se demonstrou que a luta pela “unificação nacional” é uma mentira, já que Hitler converte o estado nacional em um estado de muitas nações, pisoteando a liberdade e a unidade dos demais povos.

A luta pelo espaço vital não é mais que uma camuflagem da expansão imperialista, ou seja, da política de anexações e pilhagem.

A justificativa racial desta expansão é uma mentira; o nacional-socialismo muda suas simpatias e antipatias raciais segundo suas considerações estratégicas.

 Um elemento, algo mais estável da propaganda fascista é, talvez, o anti-semitismo, o que Hitler conferia formas zoológicas, pondo a nu que a verdadeira linguagem da “raça” e do “sangue”:

O latido do cão e o grunhido do porco. Por algum motivo Engels chamava o anti-semitismo de “socialismo dos idiotas”!

O único traço verdadeiro do fascismo é sua vontade de poder, submetimento e saque. O fascismo é a destilação quimicamente pura da cultura imperialista.

Os governos democráticos, que a seu momento saudaram em Hitler um cruzado contra o bolchevismo, agora fazem dele uma espécie de Satã, inesperadamente escapado das profundezas do inferno, que viola a santidade das fronteiras, dos tratados, dos regulamentos e das leis.

Se não fosse por Hitler o mundo capitalista floresceria como um jardim.

Que mentira miserável! Este epilético alemão com uma máquina de calcular no cérebro e um poder ilimitado nas mãos não caiu do céu nem ascendeu dos infernos; não é mais que a personificação de todas as forças destrutivas do imperialismo, Gengis Khan e Tamerlane pareceriam aos povos pastores mais débeis como os destruidores açoites de Deus, enquanto que na realidade não expressavam outra coisa que a necessidade de mais terras de pastagem, que tinham em todas as tribos, para o qual saqueavam as terras cultivadas.

Do mesmo modo Hitler, ao abalar até seus fundamentos às velhas potências coloniais, nada mais faz que oferecer a expressão mais acabada da vontade imperialista de poder.

Com Hitler, o capitalismo mundial, atirado ao desespero pelo seu próprio impasse, começou a cravar em suas entranhas uma adaga afiada.

Os carniceiros da segunda guerra imperialista não lograrão transformar Hitler no bode expiratório de seus próprios pecados.

Todos os governantes atuais comparecerão ante o tribunal do proletariado. Hitler não fará mais que o ocupar o primeiro posto entre todos os réus criminosos.

A preponderância da Alemanha.

Seja qual for o resultado da guerra, a preponderância da Alemanha já ficou claramente demonstrada. Indubitavelmente Hitler não possui nenhuma “nova arma secreta”.

Mas a perfeição de todas as armas existentes e a combinação bem coordenada destas armas (sobre a base de uma indústria altamente racionalizada) conferem ao militarismo alemão um peso enorme.

A dinâmica militar está estreitamente ligada com os traços peculiares de todo regime totalitário; vontade unificada, iniciativa concentrada, preparativos secretos, execução súbita.

A paz de Versalhes, no entanto, rendeu um fraco favor aos aliados.

Depois de quinze anos de desarme alemão, Hitler viu-se obrigado a construir um exército do nada, e graças a isso o exército está livre da rotina, da técnica e dos apetrechos obsoletos tradicionais.

O treinamento tático das tropas se inspira nas novas idéias que surgem da tecnologia mais moderna. Aparentemente, só os Estados Unidos podem superar a máquina mortífera dos alemães.

A debilidade da França e Grã-Bretanha não é uma surpresa. As teses da Quarta Internacional (1934) declaram:

“O colapso da Liga das Nações está indissoluvelmente ligado ao começo do colapso da hegemonia francesa no continente europeu”.

Este documento programático declara logo que “a Inglaterra dirigente tem cada vez menos êxito na concretização de seus astutos desígnios”, que a burguesia britânica está “aterrorizada pela desintegração de seu império, pelo movimento revolucionário da Índia, pela instabilidade de suas posições na China”.

Nisto reside a força da Quarta Internacional, em que seu programa é capaz de passar pela prova dos grandes acontecimentos.

A indústria da Inglaterra e da França, devido à influência segura de superlucros coloniais, ficou atrasada tanto tecnológica como organizativamente.

Ademais, a chamada “defesa da democracia” dos partidos socialistas criou para as burguesias britânica e francesa uma situação política extremamente privilegiada. Os privilégios sempre trazem juntos o atraso e o estancamento. Se hoje a Alemanha faz gala de um predomínio tão colossal sobre a França e Inglaterra, a responsabilidade fundamental cabe aos defensores social-patriotas, que evitaram que o proletariado arrancasse oportunamente da atrofia à Inglaterra e França, realizando a revolução socialista.

“O programa de paz”
Em troca da escravização dos povos, Hitler promete implantar na Europa uma “paz alemã” que durará séculos. Milagre impossível! A “paz britânica”, depois da vitória sobre Napoleão, pôde durar um século – não um milênio! – somente porque a Inglaterra era a pioneira de uma nova tecnologia e de um sistema de produção progressista. Apesar da potência de sua indústria, a atual Alemanha, como seus inimigos, é o caudilho de um sistema social condenado.

 O triunfo de Hitler, na realidade, não traria a paz senão no começo de uma série de choques sangrentos em escala mundial.

 Se derruba o império britânico reduz a França ao nível da Bohemia e Moravia, se se apóia no continente europeu e suas colônias, indubitavelmente a Alemanha se transformará na primeira potência mundial. Junto com ela, Itália, quando muito, e não por muito tempo, controlará a bacia do Mediterrâneo.

 Mas, ser a primeira potência não implica em ser a única. Somente se entraria numa nova etapa da “luta por espaço vital”.

A “nova ordem” que o Japão prepara-se para estabelecer, apoiando-se no triunfo alemão, tem como perspectiva a extensão do domínio japonês sobre a maior parte do continente asiático.

 A União Soviética se veria aprisionada entre uma Europa germanizada e uma Ásia japonizada. As três Américas, assim como a Austrália e Nova Zelândia cairiam nas mãos dos Estados Unidos.

 Se também tomamos em consideração o império provincial italiano, o mundo ficaria circunstancialmente dividido em cinco “espaços vitais”. Mas o imperialismo, por natureza, abomina a divisão de poderes.

 Para ter as mãos livres contra a América, Hitler teria que ajustar contas sangrentas com seus amigos de ontem, Stálin e Mussolini. Japão e Estados Unidos não ficariam observando desinteressadamente a nova luta. A terceira guerra imperialista não se daria entre estados nacionais nem entre impérios à velha moda, mas entre continentes inteiros.

O triunfo de Hitler na guerra atual não significaria, portanto, mil anos de “paz alemã”, senão muitas décadas de muitos séculos de caos sangrento.

Mas um triunfo aliado não traria conseqüências mais brilhantes. Uma França vitoriosa só poderia estabelecer sua posição de grande potência desmembrando a Alemanha, restaurando os Habsburgos, balcanizando a Europa.

 A Grã-Bretanha só poderia ocupar um papel dirigente nos assuntos europeus restabelecendo sua tática de mover-se com as contradições que opõem por um lado a Alemanha e a França e por outro lado a Europa e a América do Norte.

Isto significaria uma nova edição, dez vezes pior, da paz de Versalhes, com efeitos infinitamente mais prejudiciais sobre o debilitado organismo europeu.

A isto há que acrescentar que é improvável uma vitória aliada sem a assistência norte-americana, e desta vez os Estados unidos exigiriam pela sua ajuda um preço muito maior que na última guerra.

A Europa invilecida e exausta, o objetivo da filantropia de Herbert Hoover, se transformaria no devedor em bancarrota de seu salvador transoceânico.

Finalmente, se supomos a variante menos provável, a conclusão da paz pelos adversários exaustos de acordo com a fórmula pacifista “nem vencedores, nem vencidos”, isto significaria a restauração do caos internacional anterior à guerra, mas dessa vez baseado em sangrentas ruínas, no esgotamento, na amargura.

 Em um breve lapso sairiam à luz novamente, com explosiva violência, os velhos antagonismos e estourariam novas convulsões internacionais.

A promessa dos aliados de criar, esta vez, uma federação européia democrática é a mais grosseira de todas as mentiras pacifistas.

 O estado não é uma abstração, mas o instrumento do capitalismo monopolista. Enquanto não se expropriem aos trustes e bancos em benefício do povo, a luta entre os estados é tão inevitável como a luta entre os mesmos trustes.

A renúncia voluntária por parte do estado mais forte às vantagens que lhe proporciona sua força é uma utopia tão ridícula como a divisão voluntária do capital entre os trustes.

Enquanto se mantém a propriedade capitalista, uma “federação democrática” não seria mais do que uma má repetição da Liga das Nações, com todos os seus vícios e sem nenhuma das suas antigas ilusões.


Em vão os senhores imperialistas do destino tentam reviver um programa de salvação que ficou totalmente desacreditado pela experiência das últimas décadas.

 Em vão seus lacaios pequeno-burgueses inventam panacéias pacifistas que há muito tempo se converteram em sua própria caricatura. Os operários não se deixarão enganar.

As forças que agora fazem a guerra não levarão à paz. Os operários e soldados forjarão seu próprio programa de paz!
Defesa da URSS
A aliança de Stálin com Hitler, que levantou o pano de fundo sobre a guerra mundial, levou diretamente à escravização do povo polonês. Foi uma conseqüência da debilidade da URSS e do pânico do Kremlin frente à Alemanha.

O único responsável por essa debilidade é o mesmo Kremlin, por sua política interna, que abriu um abismo entre a casta governante e o povo; por sua política exterior, que sacrificou os interesses da revolução mundial aos da camarilha stalinista.

A conquista da Polônia oriental, presente da aliança com Hitler e garantia contra Hitler, foi acompanhada da nacionalização da propriedade semi-feudal e capitalista na Ucrânia Ocidental e na Rússia Branca Ocidental. Sem isto o kremlin não poderia haver incorporado à URSS ao território ocupado.

A Revolução de Outubro, estrangulada e profanada, deu mostras de estar viva ainda.

Na Finlândia o Kremlin não conseguiu concretizar uma mudança social similar.A mobilização pelos imperialistas da opinião mundial “em defesa da Finlândia”, a ameaça da intervenção direta da Inglaterra e França, a impaciência de Hitler, que tinha de apropriar-se da Dinamarca e da Noruega antes que as tropas francesas e britânicas pisassem em terras escandinavas; tudo isso obrigou ao Kremlin a renunciar à sovietização da Finlândia e a limitar-se à conquista de posições estratégicas indispensáveis.

É indubitável que a invasão da Finlândia suscitou uma profunda condenação na população soviética. No entanto, os operários avançados compreenderam que, pese os crimes da oligarquia do Kremlin, segue em pé a questão da existência da URSS.

 A derrota na guerra mundial não só significaria a derrocada da burocracia totalitária mas a liquidação das novas formas de propriedade, o colapso da primeira experiência de economia planificada, a transformação de todo o país numa colônia, ou seja, a entrega ao imperialismo dos recursos naturais colossais que lhe daria um fôlego até a terceira guerra mundial. Nem os povos da URSS, nem a classe operária de todo o mundo tem interesse nessa saída.

A resistência da Finlândia à URSS foi, apesar de todo o seu heroísmo, nada mais que um ato de defesa da independência nacional similar à resistência que posteriormente a Noruega opôs à Alemanha.

 O mesmo governo de Helsinki não compreendeu quando preferiu capitular ante a URSS do que transformar a Finlândia numa base militar da Inglaterra e França.

Nosso sincero reconhecimento do direito de todas as nações a sua autodeterminação não altera o feito de que na guerra atual este direito pesa tanto como uma pluma. Temos que determinar nossa linha política fundamental de acordo com os fatores básicos, não aos de décima ordem. As teses da Quarta Internacional afirmam:

“A concepção da defesa nacional, especialmente quando coincide com a defesa da democracia, pode facilmente enganar aos operários dos países pequenos e neutros (Suíça, Bélgica parcialmente, os países escandinavos...). [...]

Só um burguês desesperadamente tonto de uma aldeia Suíça esquecida da mão de Deus (como Robert Grimm) pode crer seriamente que a guerra mundial, na qual está metido é feita em defesa da independência da Suíça.”

Estas palavras adquirem hoje um significado especial. De nenhum modo são superiores ao social-patriota suíço Robert Grimm esses pequenos burgueses pseudo-revolucionários que crêem que se pode determinar a estratégia proletária com respeito a defesa da URSS com base em episódios táticos como a invasão da Finlândia pelo Exército Vermelho.

Extremamente eloqüente, por sua unanimidade e sua fúria, foi a campanha da burguesia mundial sobre a guerra soviético-finlandesa.

A perfídia e a violência que, até então, havia dado mostrar o kremlin nunca haviam despertado tal indignação na burguesia, pois toda a história da política mundial se escreve com perfídia e violência.

O que despertou seu terror e indignação foi a perspectiva de que na Finlândia se produzisse uma mudança social como a que provocou o Exército Vermelho na Polônia Oriental. Estava em jogo uma ameaça real à propriedade capitalista.

A campanha anti-soviética, classista da cabeça aos pés, revelou uma vez mais que a URSS em virtude dos fundamentos sociais impostos pela Revolução de Outubro, dos quais depende em última instância a existência da mesma burocracia, segue sendo um estado operário que aterroriza à burguesia de todo o mundo.

Os acordos episódicos entre a burguesia e a URSS não desmentem o fato de que “tomado a escala histórica, o antagonismo entre o imperialismo mundial e a União Soviética é infinitamente mais profundo que os antagonismos que separam entre si os países capitalistas”.

Muitos radicais pequeno-burgueses até ontem estavam de acordo em consideram que a União Soviética como um possível eixo de agrupamento das forças “democráticas” contra o fascismo. Agora descobriram subitamente, quando seus países estão ameaçados por Hitler, que Moscou, que não acudiu em sua ajuda, segue uma política imperialista e que não há diferença entre a URSS e os países fascistas.

Mentiras! Responderá todo o operário com consciência de classe; Há uma diferença. A burguesia compreende essa diferença social melhor e mais profundamente que os charlatães radicais.

É certo que a nacionalização dos meios de produção em um país, e ainda mais se se trata de um país atrasado, não garante, todavia, a construção do socialismo.

Mas pode avançar no requisito fundamental do socialismo, ou seja, o desenvolvimento planificado das forças produtivas.

 Não levar em conta a nacionalização dos meios de produção em função de que, por si mesma, não assegura o bem-estar das massas é o mesmo que condenar à destruição um alicerce de granito em função de que é impossível viver sem paredes e sem teto.

Um operário com consciência de classe sabe que é impossível alcançar êxito na luta pela emancipação completa sem a defesa das conquistas já obtidas, por modestas que sejam.

Tanto mais obrigatória, portanto, é a defesa de uma conquista tão colossal como a economia planificada contra a restauração das relações capitalistas. Aqueles que não são capazes de defender as velhas posições não poderão conquistar outras novas.

A Quarta Internacional só pode defender à URSS com os métodos da luta revolucionária de classes. Ensinar os operários a compreenderem corretamente o caráter de classe do estado – imperialista, colonial, operários – assim como suas contradições internas, permitirá que os operários extraiam as conclusões práticas corretas em cada situação determinada.

Enquanto trava uma luta incansável contra a oligarquia de Moscou, a Quarta Internacional rechaça decididamente qualquer política que ajude ao imperialismo contra a URSS.

A defesa da URSS coincide, em principio, com a preparação da revolução proletária mundial. Rechaçamos categoricamente a teoria do socialismo num só país, esse engendro cerebral do stalinismo ignorante e reacionário.

Somente a revolução mundial poderá salvar à URSS para o socialismo. Mas a revolução mundial implicará inevitavelmente na desaparição da oligarquia do Kremlin.

Pela derrocada revolucionária da camarilha bonapartista de Stálin.

Depois de adular durante cinco anos às “democracias”, o Kremlin revelou um cínico desprezo pelo proletariado mundial ao concluir uma aliança com Hitler e ajudá-lo a estrangular o povo polonês.

 Se jactou de um vergonhoso chauvinismo em vésperas da invasão à Finlândia e demonstrou uma incapacidade militar não menos vergonhosa na luta posterior.

Fez ruidosas promessas de “emancipar” dos capitalistas ao povo finlandês e logo capitulou covardemente ante Hitler. Esta foi a atuação do regime stalinista nestas horas críticas da história.

Os julgamentos de Moscou já haviam demonstrado que a oligarquia totalitária transformou-se num obstáculo absoluto para o desenvolvimento do país.

O crescente nível das necessidades econômicas, cada vez mais complexas, já não pode tolerar o estrangulamento burocrático.

No entanto, o bando de parasitas não está disposto a fazer nenhuma concessão. Ao lutar por manter sua posição, destrói o melhor do país. Não se pode supor que o povo, que realizou três revoluções em doze anos, tenha, subitamente, se tornado estúpido. Está aplastado e desorientado, mas observa e pensa.

A burocracia está presente em cada dia de sua existência com seu governo arbitrário, sua opressão, sua rapinagem e sua sangrenta sede de vingança. Os operários semi-famintos e os camponeses das granjas coletivas comentam entre si, murmurando seu ódio, os custosos caprichos dos comissários raivosos.

Para o sexagésimo aniversário de Stálin obrigaram aos operários dos Urais a trabalhar durante um ano e meio no gigantesco retrato do odiado “pai dos povos” feito de pedras preciosas, empresa digna de um Xeque persa ou de uma Cleópatra egípcia. Um regime capaz de cair em tais abominações inevitavelmente granjeará o ódio das massas.


A política exterior corresponde com a política interna. Se o governo do Kremlin expressasse os verdadeiros interesses do estado operário, se a Comintern servisse à causa da revolução mundial, as massas populares da diminuta Finlândia inevitavelmente se inclinariam para a URSS e a invasão do Exército Vermelho, ou não teria sido, em absoluto, necessária ou teria sido aceita imediatamente pelo povo finlandês como uma emancipação revolucionária.

Na realidade, toda a política anterior do Kremlin afastou da URSS aos operários e camponeses finlandeses.

Enquanto que Hitler, nos países neutros que invade, pôde contar com a ajuda da chamada “quinta coluna”, Stálin não encontrou nenhum apoio na Finlândia em que pese a tradição da insurreição de 1918 e a existência, desde há muito tempo, do Partido Comunista Finlandês.

Nestas condições a invasão do Exército Vermelho assumiu um caráter de violência militar direta e aberta. A responsabilidade desta violência cai total e unicamente sobre a oligarquia de Moscou.

A guerra constitui uma amarga prova para todo regime. Como conseqüência da primeira etapa da guerra, a posição internacional da URSS, apesar de seus êxitos pouco importantes obviamente piorou.

A política exterior do Kremlin afastou da URSS amplos setores da classe operária mundial e os povos oprimidos. As bases estratégicas de apoio que conquistou Moscou representarão um fator de terceira ordem no conflito mundial de forças.

Enquanto a Alemanha obteve a zona mais importante industrializada da Polônia e uma fronteira comum com a URSS, ou seja, uma saída para o leste. Através da Escandinávia, a Alemanha domina o Mar Báltico, transformando ao golfo da Finlândia numa garrafa fortemente fechada.

A amargada Finlândia ficou sob o controle direto de Hitler. Em lugar de débeis estados neutros, a URSS agora tem após sua fronteira de Leningrado à poderosa Alemanha. Ficou evidente em todo o mundo a debilidade do Exército Vermelho decapitado por Stálin. Se intensificaram dentro da URSS as tendências nacionalistas centrífugas.

 Declinou o prestígio da direção do Kremlin. A Alemanha no Ocidente e o Japão no Oriente sentem-se agora infinitamente mais seguros que antes da aventura finlandesa do Kremlin.

Stálin não encontrou no seu magro arsenal mais que só uma resposta à detestavel advertência dos acontecimentos: substituiu Voroshilov por uma nulidade ainda mais oca, Timoshenko.

 Como sempre nesses casos, o objetivo da manobra é afastar a ira do povo e do exército do principal e criminoso responsável pelas desgraças e colocar à cabeça do exército um indivíduo cuja insignificância garante que se possa confiar nele.

O Kremlin revelou-se mais uma vez como centro do derrotismo. Somente destruindo este centro se colocará a salvo a segurança da URSS.

A preparação da derrota revolucionária da casta dirigente de Moscou constitui uma das tarefas fundamentais da Quarta Internacional. Não é uma tarefa simples, nem fácil. Exige heroísmo e sacrifício.

No entanto, a época de grandes convulsões em que entrou a humanidade assestará golpe após golpe à oligarquia do Kremlin, destruirá seu aparelho totalitário, elevará a confiança em si mesmas das massas trabalhadoras e, portanto, facilitará a formação da secção soviética da Quarta Internacional. Os acontecimentos trabalharão a nosso favor, se somos capazes de ajudá-los!

Os povos coloniais na guerra.

Ao criar enormes dificuldades e perigos aos centros metropolitanos imperialistas, a guerra abre amplas possibilidades aos povos oprimidos. O troar do canhão na Europa anuncia que se aproxima a hora de sua libertação.

Se é utópico um programa de transformações sociais pacíficas para os países avançados, o é duplamente o programa de libertação pacífica das colônias. Por outro lado, fomos testemunhas da escravização dos últimos países atrasados semi-livres (Etiópia, Albânia, China...).

A guerra atual está voltada sobre as colônias. Alguns perseguem sua possessão; outros as possuem e se recusam a soltá-las.

 Ninguém tem a menor intenção de liberá-las voluntariamente.

Os centros metropolitanos em decadência se vêem obrigados a extrair todo o possível das colônias e devolver-lhes o menos possível. Somente a luta revolucionária direta e aberta dos povos escravizados pode aplainar o caminho para a sua emancipação.

Nos países coloniais e semi-coloniais a luta por um estado nacional independente, e em conseqüência a “defesa da pátria”, é em princípio diferente da luta dos países imperialistas.

 O proletariado revolucionário de todo o mundo apóia incondicionalmente a luta da China ou da Índia por sua independência, porque esta luta “ao fazer romper os povos atrasados com o asiatismo, o sectarismo ou os laços com o estrangeiro [...] golpeia poderosamente aos estados imperialistas”.

Ao mesmo tempo a Quarta Internacional sabe desde já, e adverte abertamente às nações atrasadas, que seus estados nacionais tardios já não poderão contar com um desenvolvimento democrático independente.

Rodeada pelo capitalismo decadente e submergida nas contradições imperialistas, a independência de um país atrasado será inevitavelmente semi-fictícia. Seu regime político, sob a influência das contradições internas de classe e a repressão externa, inevitavelmente cairá na ditadura contra o povo.

Assim é o regime do Partido “do Povo” na Turquia; e do Kuomitang na China; assim será amanhã o regime de Gandhi na Índia. A luta pela independência nacional das colônias é, desde o ponto de vista do proletariado, somente uma etapa transicional no caminho que levará os países atrasados à revolução socialista internacional.

A Quarta Internacional não estabelece compartimentos estanques entre os países atrasados e avançados, entre as revoluções democráticas e as socialistas.

As combina e as subordina à luta mundial dos oprimidos contra os opressores. Assim como a única força genuinamente revolucionária de nossa época é o proletariado internacional, o único programa com o qual lealmente se liquidará toda opressão, social e nacional, é o programa da revolução permanente.

A grande lição da China

A trágica experiência da China constitui uma grande lição para os povos oprimidos. A revolução chinesa de 1925 a 1927 tinha todas as possibilidades de triunfar. Uma China unificada e transformada seria neste momento uma poderosa fortaleza da liberdade no Extremo Oriente.

A sorte da Ásia, em certa medida a de todo o mundo, poderia ter sido diferente.

Mas o Kremlin, que não tinha confiança nas massas chinesas e buscava a amizade dos generais, utilizou todo o seu peso para subordinar o proletariado chinês à burguesia, ajudando assim Chiang Kai-Shek a aplastar a revolução chinesa.

Desiludida, desunida e debilitada, a China ficou aberta à invasão japonesa.

Como todo regime condenado, a oligarquia stalinista já é incapaz de aprender com as lições da história. Ao começo da guerra Sino-japonesa, o Kremlin novamente ligou o partido comunista à Chiang Kai-Shek, aplastando, desde seu nascimento, a iniciativa revolucionária do proletariado chinês.

Essa guerra, que já dura cerca de três anos, poderia ter terminado há muito numa verdadeira catástrofe para o Japão se a China a houvesse a levado adiante como uma genuína guerra popular apoiada numa revolução agrária, abraçando em sua chama aos soldados japoneses.

Mas a burguesia chinesa teme mais as suas próprias massas armadas do que aos invasores japoneses. Se Chiang Kai-Shek, o sinistro verdugo da revolução chinesa, se vê obrigado pelas circunstâncias a entrar numa guerra, seu programa seguirá sendo a opressão de seus próprios trabalhadores e o compromisso com os imperialistas.

A guerra na Ásia Oriental se entrelaçará, cada vez mais, com a guerra imperialista mundial.

O povo chinês logrará a independência somente sob a direção de seu jovem e abnegado proletariado, que recobrará a indispensável confiança em si mesmo com o ressurgimento da revolução mundial.

Ele marcará com firmeza a linha a seguir.

O curso dos acontecimentos torna indispensável o desenvolvimento de nossa secção chinesa num poderoso partido revolucionário.

Tarefas da revolução indiana.

Nas primeiras semanas da guerra as massas indianas pressionaram, com força crescente, aos dirigentes “nacionais” oportunistas, obrigando-os a utilizar uma linguagem desacostumada.

Mas ai do povo indiano se deposita sua confiança nas palavras altissonantes!

 Ocultando-se atrás da consigna da independência nacional, Gandhi já se apressou em proclamar que se nega a criar dificuldades à Grã-Bretanha durante a severa crise atual.

Como se em algum lugar ou em algum momento os oprimidos houvessem podido libertar-se de outro modo que não explorando as dificuldades de seus opressores.

O rechaço “moral” de Gandhi à violência reflete simplesmente o temor da burguesia indiana às suas próprias massas.

Tem bons fundamentos sua previsão de que o imperialismo britânico arrastará também a eles em seu colapso. Londres, por sua parte, prevê que a primeira ameaça de desobediência aplicará “todas as medidas necessárias”, incluindo, evidentemente, a força aérea, que na frente ocidental é deficiente.

 Há uma divisão do trabalho claramente delimitada entre a burguesia colonial e o governo britânico: Gandhi necessita das ameaças de Chamberlain e Churchill para paralisar com mais êxito o movimento revolucionário.

O antagonismo entre as massas indianas e a burguesia promete agudizar-se, num futuro próximo, à medida em que a guerra imperialista se converte cada vez mais numa gigantesca empresa comercial para a burguesia indiana.

A abertura de um mercado excepcionalmente favorável para as matérias-primas pode promover rapidamente a indústria indiana.

 Se a destruição completa do império britânico rompe o cordão umbilical que liga ao capital indiano com a City de Londres, a burguesia nacional buscará rapidamente em Wall Street o seu novo patrão. Os interesses materiais da burguesia determinam sua política com a mesma força das leis da gravitação.

Enquanto o movimento de libertação estiver controlado pela classe exploradora seguirá metido num beco sem saída. A única coisa que pode unificar a Índia é a revolução agrária, realizada sob as bandeiras da libertação nacional.

 A revolução conduzida pelo proletariado estará dirigida não só contra o domínio britânico, mas também contra os príncipes indianos, as concessões estrangeiras, o estrato superior da burguesia nacional e os dirigentes do Congresso Nacional e da Liga Muçulmana.

É a tarefa fundamental da Quarta Internacional criar uma secção estável e poderosa na Índia.

A traidora política de colaboração de classes, com a que o Kremlin vem ajudando há cinco anos aos governos capitalistas a preparar a guerra, foi abruptamente liquidada pela burguesia enquanto deixou de necessitar disfarçar-se de pacifista.

 Mas nos paises coloniais e semi-coloniais – não somente na China e na Índia, mas também na América Latina – a fraude das “frentes populares” segue paralisando as massas trabalhadoras, convertendo-as em bucha de canhão da burguesia “progressista”, criando desta maneira uma base política nativa ao imperialismo.

O futuro da América Latina.

O monstruoso crescimento do armamentismo nos Estados Unidos prepara uma solução violenta das complexas contradições que afligem ao Hemisfério Ocidental. Logo se colocará na ordem do dia, como problema imediato, o destino dos países latino-americanos.

O interlúdio da política de “boa vizinhança” está chegando ao seu fim. Roosevelt ou quem o suceda, em breve lapso, tirarão as luvas de pelica e mostrarão o punho de ferro. As teses da Quarta Internacional declaram:

“América do Sul e Central só poderão romper com o atraso e a escravidão unindo a todos seus estados numa poderosa federação. Mas não será a atrasada burguesia sul-americana, agente totalmente venal do imperialismo estrangeiro, quem cumprirá este objetivo, mas o jovem proletariado sul-americano, destinado a dirigir as massas oprimidas.

 A consigna que presidirá a luta contra a violência e as intrigas do imperialismo mundial e contra a sangrenta exploração das camarilhas compradoras nativas será, portanto: Pelos estados unidos soviéticos da América do Sul e Central”.

Escritas há seis anos, estas linhas adquirem agora uma candente atualidade.
Somente sob sua própria direção revolucionária o proletariado das colônias e das semi-colônias poderá lograr a colaboração firme do proletariado dos centros metropolitanos e da classe operária mundial.

Somente esta colaboração poderá levar os povos oprimidos à sua emancipação final e completa com a derrocada do imperialismo em todo o mundo.

Um triunfo do proletariado internacional livraria os países coloniais de um longo e trabalhoso período de desenvolvimento capitalista, abrindo-lhes a possibilidade de chegar ao socialismo junto com o proletariado dos países avançados.

A perspectiva da revolução permanente não significa de nenhuma maneira que os países atrasados tenham que esperar dos adiantados o sinal de partida, nem que os povos coloniais tenham que aguardar pacientemente que o proletariado dos centros metropolitanos os libere.

O que se ajuda consegue ajuda. Os operários devem desenvolver a luta revolucionária em todos os países coloniais ou imperialistas, onde existam condições favoráveis, e assim dar o exemplo aos trabalhadores dos demais países.

Só a iniciativa e a atividade, a decisão e a valentia poderão materializar realmente a consigna “operários do mundo, uni-vos!”.

A responsabilidade que cabe pela guerra aos dirigentes traidores.

O triunfo da revolução espanhola poderia ter aberto uma era de mudanças revolucionárias em toda a Europa e assim teria evitado a guerra atual.

 Mas essa revolução heróica, que abrigava em seu seio todas as possibilidades de triunfo, dissipou-se no abraço da segunda e terceira internacional, com a colaboração ativa dos anarquistas. O proletariado internacional empobrece-se com a perda de outra grande esperança e se enriquecem com as lições de outra traição monstruosa.

A poderosa mobilização que realizou o proletariado francês em junho de 1936 revelou condições excepcionalmente favoráveis para a conquista revolucionária do poder.

Uma república soviética francesa imediatamente obteria a hegemonia revolucionária na Europa, teria repercutido em todos os países, derrubado aos regimes totalitários, e desta forma teria salvo a humanidade da atual matança imperialista com suas inumeráveis vítimas.

Mas a política totalmente covarde e traidora de Leon Blum e Leon Jouhaux, apoiada ativamente pela secção francesa da Comintern, levou ao desastre um dos movimentos mais promissores da década passada.

No umbral da guerra atual se localizam dois fatos trágicos: o estrangulamento da revolução espanhola e a sabotagem da ofensiva proletária na França.

 A burguesia se convenceu de que com tais “dirigentes dos trabalhadores” a sua disposição podia dar-se ao luxo de qualquer coisa, até de uma nova matança dos povos.

Os dirigentes da Segunda Internacional impediram que o proletariado derrubasse a burguesia ao final da primeira guerra imperialista. Os dirigentes da Segunda e da Terceira Internacional ajudaram a burguesia a desatar uma segunda guerra imperialista. Que estes fatos se constituam em sua tumba política!

A Segunda Internacional

A guerra de 1914-1918 dividiu imediatamente a Segunda Internacional em dois bandos separados pela trincheira. Cada partido social-democrata defendeu sua pátria.

Somente vários anos depois da guerra se reconciliaram os traidores irmãos inimizados e proclamaram a anistia mútua.

Hoje a situação da Segunda Internacional mudou muito, superficialmente.

Todas as suas seções, sem exceção, apóiam politicamente a um dos bandos similares, o dos aliados: alguns porque são partidos dos países democráticos, outros porque são emigrados das nações beligerantes ou neutras.

A social-democracia alemã, que seguiu uma desprezível política chauvinista durante a primeira guerra sob o estandarte dos Hohenzollern, é hoje um partido “derrotista” a serviço da França e da Inglaterra. Seria imperdoável crer que estes lacaios endurecidos se tornaram revolucionários.

Há uma explicação mais simples. A Alemanha de Guilherme II oferecia aos reformistas suficientes oportunidades de obter benefícios pessoais nos corpos parlamentares, municípios, sindicatos e outros lugares.

 Defender a Alemanha imperial implicava defender um poço bem repleto no qual a burocracia trabalhista conservadora metia o focinho.

 “A social-democracia seguirá sendo patriótica enquanto o regime político lhe garanta seus ganhos e privilégios”, preveniam nossas teses há seis anos.

Os mencheviques e narodiniks russos eram patriotas na época do czar, quando tinham suas frações sindicais, seus jornais, seus funcionários sindicais e esperavam avançar mais longe nesta direção. Agora que perderam tudo isso tem uma posição derrotista a respeito da URSS.

Em conseqüência, o que explica a atual “unanimidade” da Segunda Internacional é que todas as suas secções esperam que os aliados mantenham os postos e as rendas da burocracia trabalhista dos países democráticos e lhes devolvam os que perderam a dos países totalitários.

A social-democracia não acalenta ilusões inúteis sobre a proteção da burguesia “democrática”. Estes inválidos políticos são totalmente incapazes de lutar mesmo quando vêem ameaçados seus interesses pessoais.

Isto se revelou muito claramente na Escandinávia que aparecia como o santuário mais seguro da Segunda Internacional; os três países estiveram governados durante anos pela soberba, realista, reformista e pacifista social-democracia.

Estes cavalheiros chamavam socialismo a democracia monárquica conservadora, mais a Igreja estatal, mais as insignificantes reformas sociais que durante um tempo foram possíveis graças aos limitados gastos militares.

Apoiados pela Liga das Nações e protegido pelo escudo da “neutralidade”, os governos escandinavos especulavam com gerações de tranqüilo e pacífico desenvolvimento.

Mas os amos imperialistas não prestaram atenção a seus cálculos. Viram-se obrigados a eludir os golpes do destino.

Quando a URSS invadiu a Finlândia os três governos escandinavos se declararam neutros no que diz respeito a esse país.

Quando a Alemanha invadiu a Dinamarca e a Noruega, a Suécia se declarou neutra com relação às vítimas da agressão. Dinamarca tratou inclusive de declarar-se neutra a respeito de si mesma. Noruega, sob a boca dos canhões da sua guardiã Inglaterra, somente tentou alguns gestos simbólicos de auto defesa.

 Estes heróis estão muito dispostos a viver às expensas da pátria democrática, mas muito pouco dispostos a morrer por ela. A guerra que não previram derrubou, ao passar, suas esperanças de uma evolução pacífica presidida pelo Rei e Deus.

 O paraíso escandinavo, refúgio final das esperanças da Segunda Internacional, transformou-se num minúsculo setor do inferno imperialista geral.

Os oportunistas social-democratas não conhecem mais que uma política, adaptação passiva.
 Nas condições do capitalismo decadente nada lhes resta mais que a rendição de suas posições uma após outra, o esquecimento de seu já miserável programa, o rebaixamento de suas exigências, a renúncia de toda a demanda, a retirada permanente cada vez mais e mais atrás até que não lhes reste lugar onde retirar-se, salvo algum ninho de ratos.

 Mas também ali chega a mão implacável do imperialismo e os arrasta tirando-os pelo rabo. Esta é a história resumida da Segunda Internacional. A guerra atual a está matando pela segunda vez e, esperamos, agora será para sempre.

A Terceira Internacional

A política da degenerada Terceira Internacional – uma mescla de cru oportunismo e aventureirismo desenfreado – exerce uma influência sobre a classe operária, ainda – se cabe – mais desmoralizadora que a de sua irmã maior, a Segunda Internacional.

 O partido revolucionário constrói toda a sua política sobre a consciência de classe dos trabalhadores; À Comintern nada lhe preocupa mais que contaminar e envenenar esta consciência de classe.

Os propagandistas oficiais de cada um dos setores beligerantes denunciam, às vezes bastante corretamente, os crimes do lado opositor. Há muito de verdade no que diz Göebbels sobre a violência britânica na Índia.

A imprensa francesa e inglesa refletem com muita penetração a política exterior de Hitler e Stálin. No entanto, esta propaganda unilateral constitui o pior veneno chauvinista. As meias verdades são as mentiras mais perigosas.


Toda a propaganda atual da Comintern entra nesta categoria. Depois de cinco anos de adulação descarada às democracias, durante os quais todo o seu “comunismo” se reduzia a monótonas acusações contra os agressores fascistas, a Comintern subitamente descobriu, no outono de 1939, ao imperialismo criminoso das democracias ocidentais, giro completo!

Desde então, nem uma palavra de condenação sobre a destruição da Tchecoslováquia e Polônia, a conquista da Dinamarca e Noruega e a chocante bestialidade dos bandos de Hitler contra os povos polonês e judeu! Hitler passou a ser um vegetariano amante da paz continuamente provocado pelos imperialistas ocidentais.

A imprensa da Comintern chamava a aliança anglo-francesa “o bloco imperialista contra o povo alemão”. Nem mesmo Göebbels podia ter produzido algo melhor!

O Partido Comunista Alemão exilado ardia em chamas de amor à pátria. E como a pátria alemã não deixara de ser fascista, a posição do Partido Comunista Alemão resultava... social-fascista. Por fim chegou a hora em que se concretizou a teoria stalinista do social-fascismo.

A primeira vista a atitude das secções francesa e inglesa da Internacional Comunista parecia diametralmente oposta.

Diferente dos alemães, viam-se obrigados a atacar seu próprio governo. Mas este súbito derrotismo não era internacionalismo, mas uma variedade distorcida de patriotismo; estes cavalheiros consideram que sua pátria é o Kremlin, do qual depende sua prosperidade.

Muitos stalinistas franceses demonstraram uma coragem inegável ao serem perseguidos. Mas o conteúdo dessa coragem se viu ensombrecido pelo seu embelezamento da política de rapina do bando inimigo. Que pensarão disso os operários franceses?

A reação sempre apresentou os internacionalistas revolucionários como agentes de um inimigo estrangeiro. A situação que criou a Comintern para as suas secções francesa e inglesa deu todos os pretextos para essa acusação, e em conseqüência empurrou forçosamente os operários ao patriotismo ou condenou-os à confusão e à passividade.

A política do Kremlin é simples: vendeu a Hitler a Comintern junto com o petróleo e o manganês. Mas o servilismo canino com que esta gente se deixou vender atesta irrefutavelmente a corrupção interna da Comintern.

Aos agentes do Kremlin não lhes resta princípios, nem honra, nem consciência; só uma coluna vertebral flexível. Mas os espinhaços flexíveis até agora nunca dirigiram uma revolução.
A amizade de Stálin com Hitler não será eterna, nem sequer durará muito tempo.

 Pode ser que antes que nosso manifesto chegue às massas a política exterior do Kremlin dê um novo giro. Neste caso também mudará a propaganda da Comintern.

Se o Kremlin se aproxima das democracias, a Comintern novamente desenterrará de seus arquivos o Livro Marrom dos crimes nacional-socialistas.

Mas isto não significa que sua propaganda assumirá um caráter revolucionário. Mudará os rótulos, mas seguirá tão servil como antes.

A política revolucionária exige, antes de tudo, que se diga a verdade às massas. Mas a Comintern mente sistematicamente. Nós lhes dizemos aos operários de todo o mundo: não creiam nos mentirosos!

Os social-democratas e os stalinistas nas colônias

Os partidos ligados aos exploradores e interessados em obter privilégios são organicamente incapazes de seguir uma política honesta para com as camadas mais exploradas dos trabalhadores e dos povos oprimidos.

Mas as características da Segunda e da Terceira Internacional revelam-se com especial claridade em sua atitude para com as colônias.

A Segunda Internacional, que atua como representantes dos escravistas e como acionista da empresa da escravidão, não tem secções próprias nas colônias, se excetuarmos os grupos casuais de funcionários coloniais, predominantemente maçons franceses, e em geral os oportunistas de esquerda que aplastam a população nativa.

 Como renunciou oportunamente a pouco patriótica concepção da necessidade de levantar a população colonial contra a “pátria democrática”, a Segunda Internacional ganhou o privilégio de proporcionar à burguesia ministros para as colônias, quer dizer capatazes de escravos (Sidney Webb, Marius Moutet e outros).

A Terceira Internacional, que começou fazendo um valente chamado revolucionário a todos os povos oprimidos, também se prostituiu completamente num breve lapso no que concerne à questão colonial. Não faz muitos anos, quando Moscou viu a oportunidade de uma aliança com as democracias imperialistas, a Comintern propôs a consigna da emancipação nacional não só para a Abissínia e Albânia, mas também para a Áustria.

Mas, a respeito das colônias da Grã-Bretanha e França, limitou-se modestamente a desejar-lhes reformas “razoáveis”.

Nesse momento a Comintern não defendeu a Índia contra a Grã-Bretanha senão contra os possíveis ataques do Japão e a Tunis contra Mussolini. Agora a situação mudou abruptamente. Independência total da Índia, Egito, Argélia!, Dimitrov não aceitará menos.

Os árabes e os negros encontraram outra vez em Stálin o seu melhor amigo, sem contar, certamente, a Mussolini e a Hitler.

A secção alemã da Comintern, com o descaramento que caracteriza este bando de parasitas, defende a Polônia e a Tchecoslováquia contra os complôs do imperialismo britânico.

 Esta gente é capaz de tudo e está disposta a tudo! Se o Kremlin muda novamente de orientação no sentido das democracias ocidentais, outra vez solicitarão respeitosamente a Londres e a Paris que garantam reformas liberais para suas colônias.

Diferentemente da Segunda Internacional, a Comintern, graças a sua grande tradição, exerce uma indubitável influência nas colônias.

 Mas sua base social mudou de acordo com sua evolução política. Na atualidade, nos países coloniais a Comintern se apóia nos setores que constituem a base tradicional da Segunda Internacional nos centros metropolitanos.

Com as migalhas dos superlucros que obtém dos países coloniais e semi-coloniais, o imperialismo criou nestes algo similar a uma aristocracia trabalhista nativa.

Esta, insignificante em comparação com seu modelo das metrópoles, se destaca, no entanto, sobre o pano de fundo da pobreza geral e se aferra tenazmente a seus privilégios.

A burocracia e a aristocracia trabalhista dos países coloniais e semi-coloniais, junto com os funcionários estatais, provêem de elementos especialmente servis aos “amigos” do Kremlin.

Na América Latina um dos representantes mais repulsivos dessa espécie é o advogado mexicano Lombardo Toledano, cujos serviços especiais o Kremlin retribuiu elevando-o ao decorativo posto de presidente da Federação Sindical Latino-Americana.

A colocar, de forma candente, os problemas da luta de classes, a guerra cria para estes prestidigitadores e falsos profetas a uma situação cada vez mais difícil, que os bolcheviques verdadeiros têm que utilizar para varrer para sempre a Comintern dos países coloniais.
Centrismo e anarquismo

Ao pôr a prova tudo o que existe e descartar tudo o que está podre, a guerra representa um perigo mortal para as Internacionais que lhe sobrevivem.

 Um setor considerável da burocracia da Comintern, especialmente no caso de que a União Soviética sofra alguns revezes, inevitavelmente se voltará para suas pátrias imperialistas.

 Os operários, pelo contrário, vão cada vez mais para a esquerda. Nessa situação são inevitáveis as divisões e as rupturas.

Há uma quantidade de sintomas que indicam a possibilidade de que também rompa a ala “esquerda” da Segunda Internacional.

Surgirão grupos centristas de distintas origens, romperão, criarão novas “frentes”, “bandos”, etc. Nossa época descobrirá, no entanto, que não pode tolerar a existência do centrismo.

O papel patético e trágico que desempenhou o POUM, a mais séria e honesta das organizações centristas, na revolução espanhola ficará sempre na memória do proletariado avançado como uma terrível advertência.

Mas a história gosta de repetições. Não está excluída a possibilidade de que haja novas tentativas de construir uma organização internacional do tipo da Internacional Dois e Meia ou, desta vez, a Internacional Três e Um Quarto.

 Esses balbuciares somente merecem atenção como reflexos de processos muito mais profundos pelos que atravessam as massas trabalhadoras.

 Mas desde já se pode afirmar com segurança que as “frentes”, “bandos” e “Internacionais” centristas, por carecer de fundamentos teóricos, tradição revolucionária e um programa acabado só serão efêmeros. Lhes ajudaremos criticando implacavelmente sua indecisão e ambigüidade.


Este esquema de bancarrota das velhas organizações da classe operária ficaria incompleto se não mencionarmos o anarquismo.

 Sua decadência constitui o fenômeno mais irrefutável de nossa época. Já antes da primeira guerra imperialista os anarco-sindicalistas franceses lograram converter-se nos piores oportunistas e servidores diretos da burguesia.

A maior parte dos dirigentes anarquistas internacionais se fez patriota na última guerra. No apogeu da guerra civil na Espanha os anarquistas ocuparam cargos de ministros da burguesia. Os predicadores anarquistas negam o estado enquanto este não necessite deles.

 No momento de perigo, igual aos social-democratas, transformam-se em agentes da classe capitalista.

Os anarquistas entraram na guerra atual sem um programa, sem uma só idéia e com uma bandeira manchada por sua traição ao proletariado espanhol.

 Hoje a única coisa que são capazes de oferecer aos operários é uma desmoralização patriótica mesclada com lamentos humanitários.

Ao buscar uma aproximação com os operários anarquistas que estejam realmente dispostos a lutar pelos interesses da sua classe, lhes exigiremos, ao mesmo tempo, que rompam completamente com esses dirigentes que tanto na guerra como na revolução só servem de mandaletes da burguesia.

Os sindicatos e a guerra

Enquanto os magnatas do capitalismo monopolista se colocam acima do poder estatal, controlando-o desde as alturas, os dirigentes sindicais oportunistas rondam os umbrais do poder estatal tratando de conseguir que as massas operárias lhes dêem seu apoio.

 É impossível cumprir esta suja tarefa se se mantém a democracia operária dentro dos sindicatos.

 O regime interno dos sindicatos, seguindo o exemplo do regime dos estados burgueses, está se tornando cada vez mais autoritário. Em épocas de guerra a burocracia sindical transforma-se definitivamente na polícia militar do estado maior do exército dentro da classe operária.

Mas por mais que se empenhe, não tem salvação.

 A guerra significa a morte e destruição dos atuais sindicatos reformistas. Os sindicalistas na flor da idade são mobilizados para a matança.

São substituídos pelos rapazes, mulheres e velhos, ou seja, os menos capacitados para resistir.

Todos os países sairão da guerra tão arruinados que o nível dos trabalhadores retrocederá um século. Os sindicatos reformistas só são possíveis sob o regime da democracia burguesa.

Mas o que desaparecerá primeiro com a guerra será a democracia, completamente putrefata.

 Em sua derrubada definitiva arrastará consigo a todas as organizações operárias que lhe serviram de apoio. Não haverá espaço para os sindicatos reformistas.

A reação capitalista os destruirá cruelmente.

É necessário prevenir disso aos operários, imediatamente e em voz bem alta, para que todos ouçam.
Uma época nova exige métodos novos.

 Os métodos novos exigem líderes novos. Há uma só maneira de salvar os sindicatos: transformá-los em organizações de lutas que tenham como objetivo o triunfo sobre a anarquia capitalista e a bandidagem imperialista.

Os sindicatos terão um papel enorme na construção da economia socialista, mas a condição prévia para lográ-la é o derrubamento da classe capitalista e a nacionalização dos meios de produção. Somente tomando o caminho da revolução socialista poderão os sindicatos escapar ao destino de ficar enterrados sob as ruínas da guerra.

A Quarta Internacional

A vanguarda proletária é o inimigo irreconciliável da guerra imperialista. Mas não teme a esta guerra. Aceita dar combate no terreno escolhido pelo inimigo de classe. Entra nesse terreno com suas bandeiras tremulando ao vento.

A Quarta Internacional é a única organização que previu corretamente o curso geral dos acontecimentos mundiais, que predisse a inevitabilidade de uma nova catástrofe imperialista, que denunciou as fraudes pacifistas dos democratas burgueses e dos aventureiros pequeno-burgueses da escola stalinista, que lutou contra a política de colaboração de classes conhecida como “frente popular”, que questionou o papel traidor da Comintern e dos anarquistas na Espanha, que criticou irreconciliavelmente as ilusões centristas do POUM, que continuou fortalecendo incessantemente seus quadros no espírito da luta de classes revolucionária.

Nossa política na guerra é apenas a continuação concentrada de nossa política na paz.

A Quarta Internacional constrói seu programa sobre os fundamentos teóricos do marxismo, sólidos como granito. Rechaça o desprezível ecletismo que predomina nas fileiras da burocracia trabalhista oficial de diferentes grupos, e que muito freqüentemente serve de indicador da capitulação ante a democracia burguesa.
Nosso programa está formulado em uma série de documentos acessíveis a todo o mundo. Seu eixo pode-se resumir em três palavras: ditadura do proletariado.

Nosso programa baseado no bolchevismo

A Quarta Internacional se apóia completa e sinceramente sobre os fundamentos de tradição revolucionária do bolchevismo e seus métodos organizativos.

Que os radicais pequeno-burgueses chorem contra o centralismo.

Um operário que tenha participado, ainda que seja uma vez, em uma greve sabe que nenhuma luta é possível sem disciplina e uma direção firme.

 Toda nossa época está imbuída do espírito do centralismo.

O capitalismo monopolista levou até seus últimos limites a centralização econômica.

O centralismo estatal no marco do fascismo assumiu um caráter totalitário. As democracias tentam cada vez mais emular este exemplo.

 A burocracia sindical defende com assanhamento sua maquinaria poderosa.
A Segunda e a Terceira Internacional utilizam descaradamente o aparato estatal na luta contra a revolução.

Nestas condições a garantia mais elementar de êxito reside na contraposição do centralismo revolucionário ao centralismo da reação.

É indispensável contar com uma organização da vanguarda proletária unificada por uma disciplina de ferro, um verdadeiro núcleo seleto de revolucionários temperados dispostos ao sacrifício e inspirados por uma indomável vontade de vencer.

Só um partido que não engana a si mesmo será capaz de preparar sistemática e afanosamente a ofensiva para, quando soe a hora decisiva, colocar no campo de batalha toda a força da classe sem vacilar.
Os céticos superficiais deleitam-se em assinalar a degeneração em burocratismo do centralismo bolchevique. Como se todo o curso da história dependesse da estrutura de um partido!

Na verdade, é o destino do partido que depende do curso da luta de classes. Mas de todas as maneiras o Partido Bolchevique foi o único que demonstrou na ação sua capacidade de realizar a revolução proletária.

É precisamente um partido assim o que necessita agora o proletariado internacional. Se o regime burguês sai impune da guerra todos os partidos revolucionários degenerarão.

 Se a revolução proletária conquista o poder, desaparecerão as condições que provocam a degeneração.

Com a reação triunfante a desilusão e a fadiga das massas, numa atmosfera política envenenada pela decomposição maligna das organizações tradicionais da classe operária, em meio a dificuldades e obstáculos que se acumularam, o desenvolvimento da Quarta Internacional necessariamente era lento.

Os centristas que desdenhavam nossos esforços, fizeram mais de uma vez tentativas isoladas e à primeira vista muito mais amplos e prometedores de unificação da esquerda. Todos eles, no entanto, viraram pó antes de que as massas tivessem uma possibilidade de lembrar sequer de seus nomes. Só a Quarta Internacional com valentia, persistência e êxito cada vez maiores se mantém nadando contra a corrente.

Passamos na prova!

O que caracteriza uma genuína organização revolucionária é, sobretudo, a seriedade com a que trabalha e põe à prova sua linha política a cada novo giro dos acontecimentos. Seu centralismo frutifica em democracia.

Sob o fogo da guerra nossas secções discutem apaixonadamente todos os problemas da política proletária, comprovando a validade de nossos métodos e varrendo de passagem os elementos instáveis que somente se uniram a nós por causa de sua oposição à Segunda e Terceira Internacional.

A separação dos companheiros de rota que não são de total confiança é o preço inevitável que se tem que pagar pela formação de um verdadeiro partido revolucionário.

A imensa maioria dos camaradas dos diferentes países saíram airosos da primeira prova a que os submeteu a guerra. Este fato é de inestimável significado para o futuro da Quarta Internacional.

 Cada membro da base de nossa organização tem, não só o direito, mas também o dever de considerar-se mais um oficial do exército revolucionário que se criará ao calor dos acontecimentos.

A entrada das massas na luta revolucionária porá de manifesto imediatamente a insignificância dos programas dos oportunistas, pacifistas e centristas.

 Um só revolucionário verdadeiro numa fábrica, numa mina, num sindicato, num regimento, num barco de guerra vale infinitamente mais do que cem pseudo-revolucionários pequeno-burgueses que se cozinham em seu próprio molho.

Os políticos da grande burguesia entendem muito melhor o papel da Quarta Internacional que nossos pedantes pequeno-burgueses.

Na véspera da ruptura das relações diplomáticas, o embaixador francês Coulonder e Hitler, que buscavam em sua entrevista final assustar-se reciprocamente com as conseqüências da guerra, estavam de acordo em que “o único vencedor real” seria a Quarta Internacional.

Quando da declaração das hostilidades contra a Polônia a grande imprensa da França, Dinamarca e outros países publicou notícias que informavam que nos bairros operários de Berlim apareceram cartazes que diziam “Abaixo Stálin, viva Trotsky!”. Isto significa: “Abaixo a Terceira Internacional, viva Quarta Internacional!”.

Quando os operários e estudantes mais resolutos de Praga organizaram uma manifestação no aniversário da independência nacional, o “Protetor”, Barão Neurath, fez uma declaração oficial atribuindo a responsabilidade desta manifestação aos “trotskistas” Tchecos.

 A correspondência desde Praga publicada pelo jornal editado por Benes, o ex-presidente da República Tcheco-Eslovaca, confirma o fato de que os operários tchecos estão tornando-se “trotskistas”.

No entanto, estes são apenas sintomas. Mas indicam inequivocamente as tendências do processo. A nova geração de operários que a guerra empurrará para o caminho da revolução tomará nosso estandarte.

A revolução proletária

A experiência histórica estabeleceu as condições básicas para o triunfo da revolução proletária, que foram esclarecidas teoricamente:

o impasse da burguesia e a conseqüente confusão da classe dominante;

a aguda insatisfação e o desejo por mudanças decisivas nas fileiras da pequena burguesia, sem cujo apoio a grande burguesia não pode manter-se;

a consciência do intolerável da situação e a disposição para as ações revolucionárias nas fileiras do proletariado;

um programa claro e uma direção firme da vanguarda proletária. Estas são as quatro condições para o triunfo da revolução proletária.

A razão principal da derrota de muitas revoluções radica no fato de que estas quatro condições raramente alcançam ao mesmo tempo o necessário grau de maturidade. Muitas vezes na história a guerra foi a mãe da revolução, precisamente porque sacode até suas próprias bases os regimes já obsoletos, debilita a classe governante e acelera o crescimento da indignação revolucionária entre as classes oprimidas.

Já são intensas a desorientação da burguesia, o alarme e a insatisfação das massas populares, não só nos países beligerantes, mas também nos neutros; estes fenômenos se intensificarão a cada mês da guerra que passe.

É certo que nos últimos vinte anos o proletariado sofreu uma derrota após outra, cada uma mais grave que a precedente, desiludiu-se com os velhos partidos e a guerra indubitavelmente o encontrou deprimido.

No entanto, não se deve superestimar a estabilidade ou duração desses estados de ânimo. Foram produzidos pelos acontecimentos, estes os dissiparão.

A guerra, assim como a revolução, a fazem, principalmente, as gerações mais jovens. Milhões de jovens que não puderam ingressar na indústria começaram suas vidas como desocupados e, portanto, ficaram à margem da política.

Hoje estão encontrando sua localização ou a encontrarão amanhã; o estado os organiza em regimentos e por esta mesma razão lhes abre a possibilidade de sua unificação revolucionária. Sem dúvida a guerra também sacudirá a apatia das gerações mais velhas.

O problema da direção

Permanece em pé o problema da direção. Não será traída a revolução outra vez, já que existem duas Internacionais a serviço do imperialismo enquanto que os elementos genuinamente revolucionários constituem uma minúscula minoria?

 Em outras palavras: Conseguiremos preparar a tempo um partido capaz de dirigir a revolução proletária? Para responder corretamente esta pergunta é necessário propô-la corretamente. Naturalmente, tal ou qual insurreição terminará seguramente em derrota devido a imaturidade da direção revolucionária.

Mas não se trata de uma insurreição isolada. Trata-se de toda uma época revolucionária.

O mundo capitalista já não tem saída, a menos que se considere saída a uma agonia prolongada.

É necessário preparar-se para longos anos, senão décadas, de guerras, insurreições, breves intervalos de trégua, novas guerras e novas insurreições.

 Um partido revolucionário jovem tem que apoiar-se nesta perspectiva. A história lhe dará suficientes oportunidades de provar-se, acumular experiência e amadurecer.

Quanto mais rapidamente se unifique a vanguarda mais breve será a etapa das convulsões sangrentas, menor a destruição que sofrerá nosso planeta. Mas o grande problema histórico não se resolverá de, nenhuma maneira, até que um partido revolucionário se ponha à frente do proletariado.

O problema dos ritmos e dos intervalos é de enorme importância, mas não altera a perspectiva histórica geral nem a orientação da nossa política.

A conclusão é simples: há que se levar adiante a tarefa de organizar e educar a vanguarda proletária com uma energia multiplicada por dez. Este é precisamente o objetivo da Quarta Internacional.


O maior erro cometem aqueles que, buscando justificar suas conclusões pessimistas, referem-se simplesmente as tristes conseqüências da última guerra.

Em primeiro lugar, da última guerra nasceu a Revolução de Outubro, cujas lições estão vivas no movimento operário de todo o mundo.

Em segundo lugar, as condições da guerra atual diferem profundamente das de 1914. A situação econômica dos estados imperialistas, incluindo os Estados Unidos, hoje é infinitamente pior, e o poder destrutivo da guerra infinitamente maior que há um quarto de século.

Há, portanto, razões suficientes para supor que desta vez a reação por parte dos operários e exército será muito mais rápida e decisiva.

A experiência da primeira guerra não passou sem afetar profundamente as massas. A Segunda Internacional extraiu suas forças das ilusões democráticas e pacifistas que estavam quase intactas nas massas. Os operários acreditavam seriamente que a guerra de 1914 seria a última.

 Os soldados se deixavam matar para evitar que seus filhos tivessem que sofrer uma nova carnificina. Esta esperança foi o que permitiu aos homens suportar a guerra durante mais de quatro anos. Hoje não resta quase nada das ilusões democráticas e pacifistas.

Os povos sofrem a guerra atual sem crer mais nela, sem esperar dela outra coisa que novos grilhões. Isto também se aplica aos estados totalitários.

A geração operária mais velha, que levou sobre suas costas a carga da primeira guerra imperialista e não esqueceu suas lições, está longe ainda de ter sido eliminada da cena.

Ainda soam nos ouvidos da geração seguinte àquela, a que ia a escola durante a guerra, as falsas consignas de patriotismo e pacifismo.

 A inestimável experiência política desses setores, agora aplastados pelo peso da maquinaria bélica se revelará em toda sua plenitude quando a guerra impulsionar as massas trabalhadoras a pôr-se abertamente contra seus governos.

Socialismo ou escravidão

Nossas teses, A Guerra e a Quarta Internacional (1934), afirmam que:

“o caráter completamente reacionário, putrefato e saqueador do capitalismo moderno, a destruição da democracia, o reformismo e o pacifismo, a necessidade urgente e candente que tem o proletariado de encontrar uma saída segura do desastre eminente põe na ordem do dia, com forças renovadas, a revolução internacional”.

Hoje já não se trata, como no século XIX, de garantir simplesmente um desenvolvimento econômico mais rápido e sadio; hoje se trata de salvar a humanidade do suicídio.

É precisamente a agudez do problema histórico o que faz tremer os alicerces dos partidos oportunistas.

O partido da revolução, pelo contrário, encontra uma reserva inesgotável de forças em sua consciência de ser o produto de uma necessidade histórica inexorável.

Mais ainda; é inadmissível colocar a atual vanguarda revolucionária no mesmo nível daqueles internacionalistas isolados que elevaram suas vozes quando estourou a guerra anterior. Somente o partido dos bolcheviques russos representava então uma força revolucionária.

 Mas mesmo este, em sua imensa maioria, excetuando um pequeno grupo de emigrados que rodeavam Lênin, não conseguiu superar sua estreiteza nacional e elevar-se à perspectiva da revolução mundial.

A Quarta Internacional, pelo número de seus militantes e especialmente por sua preparação, conta com vantagens infinitas sobre seus predecessores da guerra anterior.

A Quarta Internacional é a herdeira direta do melhor do bolchevismo. A Quarta Internacional assimilou a tradição da Revolução de Outubro e transformou em teoria a experiência do período histórico mais rico entre as duas guerras imperialistas. Tem fé em si mesma e em seu futuro.

A guerra, recordemos uma vez mais, acelera enormemente o desenvolvimento político. Esses grandes objetivos que ontem não mais nos pareciam estar tão longe, senão há décadas de distância, podem delinear-se a nós diretamente nos próximos dois ou três anos, ou ainda antes.

 Os programas que se apóiam nas condições habituais das épocas de paz inevitavelmente ficarão suspensos no ar.

Por outro lado, os programas de consignas transicionais da Quarta Internacional, que lhes parecia tão “irreal” aos políticos que não enxergavam além dos seus narizes, revelará toda sua importância no processo de mobilização das massas pela conquista do poder.

Quando começar a nova revolução os oportunistas tratarão uma vez mais, como fizeram há um quarto de século, de inspirar aos operários a idéia de que é impossível construir o socialismo sobre as ruínas e a desolação. Como se o proletariado tivesse liberdade para escolher!

Terá que construir sobre os fundamentos que proporciona a história.

A Revolução Russa demonstrou que o governo operário pode tirar da pobreza mais profunda até um país muito atrasado. Muito maiores são os milagres que poderá realizar o proletariado dos países avançados. A guerra destrói estruturas, ferrovias, fábricas, minas; mas não pode destruir a tecnologia, a ciência, a capacidade.

Depois de criar seu próprio estado, organizar corretamente suas fileiras, aportar a força de trabalho qualificada herdada do regime burguês e organizar a produção de acordo com um plano unificado, o proletariado não só restaurará em uns anos tudo que foi destruído pela guerra, mas também criará as condições para um grande florescimento da cultura sobre as bases da solidariedade.
Que fazer
A conferência de emergência da Quarta Internacional vota este manifesto no momento em que, depois de abater a Holanda e a Bélgica e aplastar a resistência inicial das tropas aliadas, o exército alemão avança como um rolo compressor para Paris e o Canal. Em Berlim já se apressam em celebrar a vitória.

No setor aliado propaga-se um alarme no limite com o pânico. Aqui não temos possibilidades nem necessidade de internar-nos em especulações estratégicas sobre as próximas etapas da guerra.

 De todo modo, a tremenda preponderância de Hitler põe neste momento sua marca sobre a fisionomia política de todo o mundo.

“Não está obrigada a classe operária, nas condições atuais, a ajudar às democracias em sua luta contra o fascismo alemão?” Assim propõe a questão amplos setores pequeno-burgueses para quem o proletariado é sempre uma ferramenta auxiliar de tal ou qual setor da burguesia. Rechaçamos com indignação essa política.

Naturalmente há diferenças entre os distintos regimes políticos da sociedade burguesa, assim num trem há vagões mais confortáveis que outros.

Mas quando todo o trem está se precipitando em um abismo, a diferença entre a democracia decadente e o fascismo assassino desaparece ante o colapso de todo o sistema capitalista.

Os triunfos e as bestialidades de Hitler provocam naturalmente o ódio exasperado dos operários de todo o mundo. Mas entre este ódio legitimo dos operários e a ajuda a seus inimigos mais fracos, mas não menos reacionários, há uma grande distância.

O triunfo dos imperialistas da Grã-Bretanha e França não seria menos terrível para a sorte da humanidade que o de Hitler e Mussolini. Não se pode salvar a democracia burguesa. Ajudando as suas burguesias contra o fascismo estrangeiro os operários só acelerarão o triunfo do fascismo em seu próprio país.

 A tarefa colocada pela história não é apoiar uma parte do sistema imperialista contra outra, mas terminar com o conjunto do sistema.

Os operários têm que aprender a técnica militar

A militarização das massas se intensifica dia a dia. Rechaçamos a grotesca pretensão de evitar esta militarização com ocos protestos pacifistas.

 Na próxima etapa todos os grandes problemas se decidirão com as armas na mão. Os operários não devem ter medo das armas; pelo contrário, têm que aprender a usá-las.

Os revolucionários não se afastam do povo nem na guerra nem na paz.

Um bolchevique trata não só de converter-se no melhor sindicalista, mas também no melhor soldado.

Não queremos permitir à burguesia que leve aos soldados sem treinamento ou semi-treinados a morrer no campo de batalha.

Exigimos que o estado ofereça imediatamente aos operários e aos desocupados a possibilidade de aprender a manejar o rifle, a granada de mão, o fuzil, o canhão, o aeroplano, o submarino e os demais instrumentos de guerra.

Fazem falta escolas militares especiais estreitamente relacionada com os sindicatos para que os operários possam transformar-se em especialistas qualificados na arte militar, capazes de ocupar postos de comandante.

Esta não é nossa guerra!

Ao mesmo tempo, não nos esqueçamos nem por um momento de que esta guerra não é nossa guerra. Diferentemente da Segunda e Terceira Internacional a Quarta Internacional não constrói sua política em função das mudanças militares dos estados capitalistas, mas a transformação da guerra imperialista numa guerra dos operários contra os capitalistas, do derrubamento da classe dominante em todos os países, da revolução socialista mundial.

As mudanças que se produzem na frente, a destruição dos capitais nacionais, a ocupação de territórios, a queda de alguns estados, desde este ponto de vista só constituem trágicos episódios no caminho da reconstrução da sociedade moderna.

Independentemente do curso da guerra, cumprimos nosso objetivo básico: explicamos aos operários que seus interesses são irreconciliáveis com os do capitalismo sedento de sangue; mobilizamos os trabalhadores contra o imperialismo; propagandeamos a unidade dos operários de todos os países beligerantes e neutros; chamamos a confraternização entre os operários e soldados dentro de cada país e entre os soldados que estão em lados opostos das trincheiras no campo de batalha; mobilizamos as mulheres e os jovens contra a guerra; preparamos constante, persistente e incansavelmente a revolução nas fábricas, moinhos, aldeias, quartéis, no front e na frota.


Este é o nosso programa. Proletários do mundo, não há outra saída que unir-se sob o estandarte da Quarta Internacional!